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Retrato Dostoiévski  de 1879

Retrato de Dostoiévski de 1879

 

Trecho:

“Sou um homem doente… Um homem mau. Um homem desagradável. Creio que sofro do fígado. Aliás, não entendo níquel da minha doença e não sei, ao certo, do que estou sofrendo. Não me trato e nunca me tratei, embora respeite a medicina e os médicos. Ademais, sou supersticioso ao extremo; ao menos o bastante para respeitar a medicina. (Sou suficientemente instruído para não ter nenhuma superstição, mas sou supersticioso.) Não, se não quero me tratar, é apenas de raiva. Certamente não compreende isto. Ora, eu compreendo. Naturalmente não vos saberei explicar a quem exatamente farei mal, no presente caso, com a minha raiva; sei muito bem que não estarei a ‘pregar peças’ nos médicos pelo fato de não me tratar com eles; sou o primeiro a reconhecer que, com tudo isto, só me prejudicarei a mim mesmo e a mais ninguém. Mas, apesar de tudo, não me trato por uma questão de raiva. Se me dói o fígado, que doa ainda mais.”

 

Escrito em 1864, em condições totalmente adversas, ao lado do leito de morte da sua primeira esposa e envolvido em graves problemas financeiros, Memórias do subsolo é o livro mais aclamado de Fiódor Dostoiévski (1821-1881) ao lado de seus quatro grandes romances: Crime e Castigo (1866), O Idiota (1869), Os Demônios (1872) e Os Irmãos Karamázovi (1880).

O livro causou polêmica na Rússia na época do seu lançamento e parte da crítica o atacou com veemência – o escritor Saltikóv-Schedrin (1826-1889) chegou a escrever uma “paródia perversa” do livro, como salienta Boris Schnaiderman no prefácio de sua tradução de Memórias do subsolo feita para a editora 34 -, mas o tempo e a história da literatura fizeram justiça a um dos textos mais poderosos do “mestre russo”.

A lista de grandes escritores e autores admiradores da novela ou que nela se inspiraram para escrever outras importantes obras da literatura universal é extensa. Um deles foi o filósofo alemão Friederich Nietzsche (1844-1900), que, ao ler pela primeira vez o livro, teria escrito a um amigo: “Um achado fortuito numa livraria: Memórias do subsolo de Dostoiévski (…) A voz do sangue (como denominá-lo de outro modo?) fez se ouvir de imediato e minha alegria não teve limites”.

O livro

Dividido em duas partes, o livro é narrado por um anônimo – o homem do subsolo – que destila o seu descontentamento – talvez a palavra correta fosse abominação – em relação aos seus contemporâneos, à sociedade e às pessoas de vulto de seu tempo, normalmente idealistas que acreditam nas “sutilezas do belo e do sublime” enquanto erguem seus “palácios de cristal”.

Apresentando-se como um homem de quarenta anos, ele ataca todo o sentimentalismo e o otimismo vigentes em boa parte da intelectualidade russa e europeia, identificadas com a corrente filosófica positivista; porém, o narrador não se considera digno de exigir para si uma posição de superioridade em relação a esses homens ilustrados de seu tempo, por estes serem, de fato, sob o seu ponto de vista, totalmente desqualificados.

Cabe aqui uma breve explicação sobre a polêmica gerada por Memórias do subsolo na época de seu lançamento na Rússia czarista, que Boris Schnaiderman também assinala em seu prefácio.

Muitos dos críticos de Dostoiévski viram o livro como uma espécie de panfleto nacionalista, vinculado à corrente denominada pótchvienitchestvo, de potchva (solo), que se caracterizava pela exaltação das qualidades do povo russo e pela tentativa de dar a esse movimento um cunho político. No entanto, leituras posteriores, que não reduziram a obra ao mero produto de uma reflexão do debate político que ocorria na época, salientam o texto como uma espécie de precursor de obras fundamentais da literatura e do pensamento do século XX, com pitadas de niilismo e um anarquismo metafísico, ao qual Nietzsche deve ter se identificado imediatamente ao ler o texto.

O fato é que a zombaria e o deboche desbragado que dá a tônica do monólogo feito pelo “homem do subsolo” na primeira parte do livro – denominada de O subsolo – descambam na segunda parte – intitulado de A propósito da neve molhada – para a um elevado grau de auto-degradação, de infâmia e de crueldade que beiram a loucura e o sadomasoquismo.

Narrando em retrospectiva um fato ocorrido quinze anos antes, o protagonista recorda um encontro com quatro companheiros do período do colégio, pelos quais não tinha nenhuma estima – sentimento que, aliás, era recíproco -, mas que insiste em levar até o fim por conta de perceber o quanto sua presença era incômoda para os colegas e o quanto eles realmente o odiavam – numa sequência que pode ser classificada como das mais odiosas da literatura universal.

Mas Dostoiévski leva a narrativa mais além, ao limite do suportável, quando o “homem do subsolo” encontra Liza, uma jovem prostituta, e o seu nível de torpeza e manipulação não parece mais ter fim, como se o personagem, de alguma forma, sentisse prazer e orgulho em se mostrar como o ser mais vil que andou pela face da Terra. O que seria bem possível em se tratando de um personagem de Dostoiévski.

Em linhas gerais, Memórias do subsolo é a mais pura literatura de Dostoiévski em estado concentrado, uma obra que se mostra como uma preparação do autor para seus voos mais altos feitos em seus grandes romances, que começariam a ser publicados dois anos depois com Crime e Castigo. Um livro que dá a dimensão ao leitor se é possível (a ele, leitor) se aprofundar na obra de Dostoiévski ou se é melhor continuar à margem dela para não sair chamuscado.

Memórias do Subsolo

Fiódor Dostoiévski

Editora 34

Tradução: Boris Schnaiderman

147 pgs.

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