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Capa: Divulgação

Capa: Divulgação

 

Trecho:

“Decidi andar até a livraria de Red. Parecia que, quando ia de carro, sempre arranjava uma multa, e os estacionamentos cobravam mais do que eu podia pagar.

Andei até a livraria me sentindo meio deprimido. O homem nascia para morrer. O que significava isso? Ficar por aí esperando. Esperando o ‘Trem A’. Esperando um par de peitões numa noite de agosto num quarto de hotel de Las Vegas. Esperando o rato cantar. Esperando a cobra criar asas. Por aí.” (pg. 13)

 

Charles Bukowski (1920 – 1994) foi um autor que nunca viveu de literatura, ou melhor, apenas foi fazer algum sucesso com a escrita já no fim da vida, por isso jamais se mostrou satisfeito consigo mesmo e nem se deixava embriagar pelo reconhecimento tardio que conseguiu alcançar. Foi um autor marginal até o fim dos seus dias e – ainda hoje – é considerado uma espécie de patrono da literatura da sarjeta, dos bebuns, dos malandros e dos vigaristas.

A marginalidade que a obra literária de Bukowski exala de suas páginas conquistou uma legião de fãs e é comum vermos ecos de seu estilo despojado e sardônico em muitos autores que almejam um lugar ao sol na literatura.

Em seus livros buscou retratar a vida dura da classe baixa norte-americana, principalmente de Los Angeles, normalmente perdedores e bebuns inveterados que, para esquecerem os seus “tombos”, se entregam com fervor aos prazeres do copo, da carne, da mesa e do jogo, como Henry Chinaski, seu mais conhecido alter-ego, que protagoniza a trilogia autobiográfica composta por Factótum (1975), Misto-quente (1982) e Hollywood (1989).

Pulp (1994), o último livro publicado por Bukowski, terminado poucos meses antes de sua morte, aos setenta e três anos, em março de 1994, traz algumas das características marcantes do autor – a ralé de Los Angeles tentando sobreviver da melhor forma possível em meio a vigaristas e capangas, muita bebida, apostas em cavalos e diálogos rápidos, hilários e cortantes -, mas há, sim, algumas diferenças para quem conhece outras obras do “Velho safado”.

O livro conta a história de Nick Belane, um detetive particular cinquentão, que tenta se safar de um processo de despejo, enquanto procura algum interessado em pagar por seus serviços duvidosos antecipadamente.

A sorte de Nick parece virar quando surge em seu escritório uma misteriosa e sexy cliente, que se identifica como Dona Morte, querendo que o detetive descubra se um sujeito discreto e igualmente misterioso que anda circulando pelas livrarias de L.A. é mesmo o infame e brilhante escritor francês Louis Ferdinand Celine (1894-1961), dado como morto há mais de trinta anos.

Nick acha tudo muito estranho, mas prefere aceitar o pagamento antecipado de seis dólares por hora recebido de Dona Morte e vai à caça de Celine.

Outros casos começam a surgir para Belane, como o do empresário Jack Bass, gordo e de meia-idade, interessado em saber se sua jovem e bela esposa Cindy anda o traindo, além do agente funerário Hal Grovers, que contrata o detetive para livrá-lo do assédio de Jeannie Nitro – o rapaz jura para Belane que a moça é uma alienígena que se apaixonou por ele e que ela veio para a Terra numa missão para conquistar o planeta.

Isso sem contar no caso que promete ser o mais complexo de todos para Nick, embora ele não saiba exatamente se se trata de um caso real ou algum tipo de trote feito por Dona Morte: encontrar o Pardal Vermelho – uma alusão de Bukowski a O falcão maltês (1930), de Dashiell Hammett (1894-1961), clássico dos romances policiais que o inspiraram a escrever Pulp.

Bukowski dedica Pulp à subliteratura*, homenagem registrada na própria dedicatória do livro; porém, ao final do livro, mais do que uma homenagem de Bukowski ao ideário literário ao qual sua obra sempre esteve tão ligada, o livro parece a melhor forma que o velho Buk encontrou para se despedir da vida, demonstrando o quanto estava consciente de sua finitude.

A morte está sempre presente no romance, seja como uma reflexão banal de Nick Belane enquanto caminha pela rua (ver trecho acima), seja como uma poderosa mulher fatal pronta para acabar com qualquer um que atravesse o seu caminho. Mais do que um testamento literário, difícil não pensar em Pulp como uma provocação que Bukowski faz à sua própria morte. Uma provocação engraçada e lírica, bem ao estilo de seu autor.

 

 

*Literatura Pulp era o nome dado aos livros baratos policiais noir e de ficção científica vendidos em edições baratas, que misturavam humor e violência, muito populares nos Estados Unidos em meados do século XX. O cineasta Quentin Tarantino (1963) também homenageou essa vertente literária em seu célebre filme Pulp Fiction: Tempos de Violência (1995).

 

 

Trecho:

 

“Aí notei que havia mais alguém na livraria. Estava parado perto dos fundos. Julguei reconhecê-lo de fotos. Celine. Celine?

Dirigi-me devagar para ele. Cheguei bem perto mesmo. Tão perto que podia ver o que ele lia. A montanha mágica, de Thomas Mann.

Ele me viu.

– Esse cara tem um problema – disse, erguendo o livro.

– Qual é? – perguntei.

– Acha o tédio uma arte.

Devolveu o livro à estante e ficou ali, simplesmente parecendo Celine.

– É espantoso – eu disse.

– O quê? – ele perguntou.

– Eu achava que você tinha morrido – eu disse.

Ele me olhava.

– Eu também achava que você tinha morrido.

E ficamos apenas olhando um para o outro.

Aí ouvi Red.

– EI, VOCÊ! – berrou. – TE MANDA DAQUI!

Só havia nós dois ali.

– Qual dos dois deve se mandar? – perguntei.

– ESSE AÍ QUE PARECE O CELINE! TE MANDA DAQUI!

– Mas por quê? – perguntei.

– EU SEI QUANDO NÃO VÃO COMPRAR!

Celine, ou quem quer que fosse, foi saindo. Eu o segui.” (pgs 14-15)

 

 

Pulp

Charles Bukowski

L&PM

Tradução: Marcos Santarrita

175 pgs.

 

 

 

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