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capa Kafka à beira-mar

Capa: Divulgação

 

Trecho:

“O hotel, grande, é tipicamente um estabelecimento de segunda classe. Na recepção, registro no livro de hóspedes nome, endereço e idade falsos e pago adiantado o valor correspondente a um pernoite. Estou um pouco tenso. Contudo, ninguém me olha com desconfiança, nem esbraveja: ‘Não tente impingir esses dados falsos, malandro! Sei que você tem 15 anos e fugiu de casa!’ Providências são tomadas de maneira burocrática e eficiente.

Subo ao sexto andar num elevador que range sinistramente. Quarto estreito, cama pouco convidativa, travesseiro duro, escrivaninha minúscula, televisão pequena, cortinas queimadas de sol. O banheiro tem o tamanho de um armário embutido. Não vejo xampu nem creme. Da janela se enxerga apenas a parede do prédio vizinho. Mas eu devo dar graças pela água quente que jorra da torneira pelo teto sobre a cabeça. Ponho a mochila no chão, sento-me na cadeira e procuro adaptar o corpo ao quarto.

Sou livre, penso. Fecho os olhos e considero por instantes a ideia de liberdade. Não consigo entender direito o que significa ser livre. Entendo apenas que, neste momento, estou sozinho. Estou sozinho em terra estranha. Como um explorador que perdeu bússola e mapa. Ser livre é isso? Não sei. Desisto de pensar.” (pgs. 57-58)

 

Kafka Tamura é um garoto introspectivo de quinze anos, que foge de sua casa em Tóquio por conta de desavenças com o pai, um famoso escultor. Além do problema pessoal com o pai, o rapaz guarda também uma grande mágoa por ter sido abandonado pela mãe que, ao fugir de casa, levou consigo apenas a filha, pouco mais velha que Kafka. Ao sair de casa, ele busca encontrá-las, embora não tenha qualquer pista ou informação concreta sobre o paradeiro delas.

Em sua andança pelo Japão, acaba por chegar a uma biblioteca particular – a Biblioteca Memorial Komura – na cidade de Takamatsu, onde conhece seus dois misteriosos responsáveis – o andrógino bibliotecário Oshima e a silenciosa diretora Sra. Saeki. A dupla irá simpatizar com Kafka e deixá-lo passar longos períodos na biblioteca e, na medida do possível, conforme descobrem a sua verdadeira história, auxiliá-lo com questões mais urgentes, como alimentação, moradia e trabalho.

Em paralelo, Murakami irá narrar a história de Satoru Nakata, um homem de sessenta anos que, durante a infância, sofreu um estranho acidente que o deixou incapaz de ler e escrever e sem qualquer memória do período anterior ao acidente. No entanto, após o trauma, Nakata desenvolve a capacidade de conversar com gatos (!), o que lhe garantirá boas oportunidades para tirar uma renda extra como caçador de gatos perdidos, para aumentar um pouco seus parcos recursos de pensionistas do “Governador” como ele mesmo diz – ou seja, um pária.

Nakata também sairá de Tóquio, após um acontecimento que mudará seu destino, e, sem saber por quê, seguindo apenas os seus instintos, com a ajuda de Hoshino – um jovem caminhoneiro meio atrapalhado – chegará a Takamatsu.

Entre várias outras, essas são algumas das “esquisitices” do livro de Haruki Murakami (1949). Os relatos sobre os dois personagens vão se alternando entre a realidade objetiva da narrativa e mundos paralelos; chuvas de peixes e sanguessugas e pedras enormes que, se movidas, abrem portais para outros mundos e os diálogos entre Kafka e o seu alter ego, o Menino Corvo (kafka em tcheco significa corvo), estão entre essas “esquisitices”, sem deixar de lado também sua enorme cultura musical.

Quem conhece outros livros de Murakami e aprecia o seu estilo fantástico, onírico, talvez goste de Kafka à beira-mar, que traz, em relação a outros títulos seus, um excesso de situações paranormais. Já para quem não o conhece, e não é um aficionado de literatura fantástica, a leitura pode se tornar bastante aborrecida, uma vez que se estenderá por quase seiscentas páginas.

Murakami tem um enorme fã-clube, tanto dentro quanto fora do Japão, e sempre há uma enorme expectativa quanto à escolha do seu nome para receber o Prêmio Nobel de literatura; porém, a verdade é que a sua literatura está mais próxima do best-seller e de um estilo que agrada ao público de jovens leitores do que o cânone, ao qual a Academia Sueca costuma premiar, apesar das surpresas ocorridas nos últimos anos.

 

Kafka à beira-mar

Haruki Murakami

Alfaguara

Tradução: Leiko Gotoda

571 pgs.

 

 

 

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