Tags

, ,

capa A trilogia de Nova York

Capa: Divulgação

 

Trecho:

 

“Não pretendo me alongar a respeito desse assunto. Mas as circunstâncias que levam uma vida a mudar de curso são tão variadas que parece impossível dizer qualquer coisa sobre um homem até que esteja morto. Não só a morte representa o único árbitro autêntico da felicidade (pensamento de Solon), como também estabelece a única medida pela qual podemos julgar a vida em si mesma.” (O quarto fechado, Paul Auster)

 

Publicada originalmente em 1987, A trilogia de Nova York, do norte-americano Paul Auster (1947), foi o livro que alavancou a carreira do autor e levou seu nome a estar entre os principais escritores contemporâneos de seu país. Antes dele, Auster havia publicado apenas dois livros: Squezee Play (1982), um romance policial publicado sob o pseudônimo de Paul Benjamin, e A invenção da solidão (1982), espécie de livro de memórias e ensaio, cujo tema principal é a paternidade, partindo da sua experiência pessoal de perder o pai aos 30 anos, três meses antes do nascimento do seu primeiro filho.

Em suas primeiras obras, Paul Auster já define as características mais marcantes da sua Trilogia de Nova York e que farão do livro um de seus principais best-sellers: um suspense noir bem construído com pitadas de ensaio e autorreferência.

O livro é formado por três novelas policiais que se entrelaçam, mas que podem ser lidas de forma autônoma. Na primeira, Cidade de vidro, Quinn é um obscuro escritor de livros policiais que, tarde da noite, por engano, recebe um telefonema. Do outro lado da linha, um homem aflito procura por um investigador particular chamado… Paul Auster! Apesar de Quinn afirmar que não é o investigador e que não o conhece, nas duas ou três noites que se seguem, os telefonemas persistem, até que o escritor, curioso para viver aventuras semelhantes àquelas que inventa, decide levar aquela história até as últimas consequências: confirma ser, de fato, Paul Auster, aceita o pedido de ajuda e começa a investigar um professor universitário, Stillman, que jurou vingança contra o próprio filho, Peter, após passar treze anos na prisão por causa dele.

A segunda novela, Fantasmas, Blue é contratado por White para espionar Black, porém, o serviço aparentemente monótono e inócuo, vira-se contra Blue quando ele tenta descobrir quem de fato é White, porquê o contratou e, principalmente, se não é ele próprio quem está sendo observado. A impessoalidade dos nomes das personagens pode causar alguma confusão no momento da leitura, mas também aprofunda o efeito de perplexidade que a história causa conforme se aproxima de seu desfecho.

Por fim, O quarto fechado é a história chave da trilogia e que ilumina parte do entendimento das anteriores em retrospectiva. Na novela, Fanshawe é um desconhecido candidato a escritor que, apesar do brilhantismo que todos preconizam sobre o seu futuro, desaparece deixando mulher e um filho recém-nascido.

A história é narrada por um amigo de infância de Fanshawe, escolhido, pelo próprio desaparecido, para avaliar o seu legado literário – três romances e quatro livros de poemas.

Procurado por Sophie, esposa do desaparecido, o narrador consegue publicar o material e transformar a obra em um “best-seller póstumo”, além de se envolver com a mulher de Fanshawe e assumir a paternidade de Ben, o filho do casal. No entanto, quando tudo parece bem, os “fantasmas do passado” surgem para atrapalhar o futuro promissor que parecia estar a caminho.

Como já foi dito, as três novelas noirs que fazem parte da trilogia são muito bem construídas, mas percebe-se que, para o autor, o clima e a tensão criados para envolver o leitor na trama são mais importantes do que o desfecho delas ou a resolução de um mistério que as perpassa. Talvez por isso, o leitor pode ter a sensação de que todas as histórias, na verdade, são uma única, contada sob pontos de vista diferentes.

O acaso, a solidão e, claro, a cidade de Nova York parecem se unir nas tramas sombrias de Auster de uma forma que o perigo é menos físico do que psicológico. A vida parece ser algo que corre menos risco de ser perdida do que a própria sanidade – o que acaba dando no mesmo -, conforme o leitor avança nas tramas. Há também um tema que se repete na Trilogia, ao menos em duas das novelas – Cidade de vidro e O quarto fechado – e que parece recorrente na obra de Paul Auster, como em seu último livro lançado no Brasil, Sunset Park (2010): as relações familiares complicadas e traumáticas.

A trilogia de Nova York de Paul Auster é um livro que pode servir de ponto de partida para quem quer conhecer a obra de um dos mais importantes autores norte-americanos contemporâneos. Para quem já o conhece, pode servir como peça fundamental para o entendimento de sua obra e o aprofundamento do conhecimento em suas temáticas e obsessões.

 

A trilogia de Nova York

Paul Auster

Companhia das letras

Tradução: Rubens Figueiredo

337 pgs.

 

 

Advertisements