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capa O tango da velha guarda

Capa: Divulgação

Trechos:

 

“- Um amigo meu dizia que existem tangos para sofrer e tangos para matar. Os originais eram do segundo tipo.

Mecha Inzunza havia apoiado um cotovelo na mesa e o rosto ovalado na palma da mão. Parecia ouvir com extrema atenção.

– Alguns o chamam de Tango da Velha Guarda… – disse Max. – Para diferenciá-lo do novo. Do moderno.

– Belo nome – comentou o marido. – De onde vem?

Seu rosto não estava mais inexpressivo. Outra vez a expressão amável, de anfitrião atencioso. Max balançou as mãos como se quisesse salientar uma obviedade.

– Não sei. Um antigo tango se chamava assim: ‘La Guardia Vieja…’ Não saberia lhes dizer.

– E continua… obsceno? – perguntou ela.

Um tom opaco, o de Mecha Inzunza. Quase científico. O de uma entomologista perguntando, por exemplo, se era obscena a cópula de dois escaravelhos. Supondo, concluiu Max, que os escaravelhos copulassem. Que, certamente, sim.

– Dependendo do lugar – confirmou.

Armando de Troeye parecia encantado com tudo aquilo.

– O que está contando é fascinante – disse. – Muito mais do que imagina. E altera algumas ideias que eu tinha na cabeça. Gostaria de presenciar isso… Vê-lo em seu ambiente.

Max fez uma careta, evasivo.

– Não é tocado em locais recomendáveis, naturalmente. Não que eu saiba.

– Conhece lugares assim em Buenos Aires?

– Conheço alguns. Mas não se pode dizer que sejam adequados. – Olhou para Mecha Inzunza. – São lugares perigosos… Impróprios para uma senhora.

– Não se inquiete com isso – disse ela com muita frieza e muita calma. – Já estivemos em lugares impróprios.” (pgs. 60 – 61)

 

Aventura, amor, traição, personagens complexos e fascinantes e um intrincado enredo que perpassa quase quarenta anos da História do século XX. Tais características seriam um belo resumo para uma novela de sucesso do horário nobre, mas aliadas à grande sofisticação e à ambição literária tornam-se um extraordnário romance, o que, de fato, é O tango da velha guarda, do espanhol Arturo Pérez-Reverte.

O livro se inicia em 1928, com o embarque do compositor de tango Armando de Troeye, espanhol de 43 anos, para Buenos Aires, no transatlântico Cap Polônio, em busca de material para novas composições e o desejo de conhecer a fundo o gênero que lhe deu sucesso e notoriedade na Europa, apesar do quase completo desconhecimento do tango e do papel dele dentro da cultura argentina.

De Troeye é um bon-vivánt que, por um golpe de sorte, alcançou o sucesso, se inebriou com ele, e tem dificuldades em abandonar a vida de prazer e luxo extremos a que se acostumou ao lado de sua jovem esposa, Mecha Inzunza, mulher belíssima e sedutora.

Já a bordo do Cap Polônio, o casal conhece Max Costa, jovem dançarino de tango, contratado pelo navio para entreter as mulheres, sejam elas jovens inocentes ou senhoras elegantes e finas, que tenham algum interesse em aprender a dançar. Nascido em Buenos Aires, onde viveu até o início da adolescência antes de perambular por parte da Europa e norte da África como legionário, Max é um arrivista sedutor que coleciona suveniers caros de seus casos (vítimas) e, depois de algum tempo, se desfaz deles para, com o dinheiro conseguido, incrementar o vestuário e mudar de endereço, principalmente de cidade, uma vez que seu verdadeiro trabalho sempre ocasiona problemas com a polícia.

A atração do casal por Max e deste para Armando e Mecha é imediata. De Troeye tem a chance de conhecer os antros mais sombrios de Buenos Aires onde, segundo o dançarino, ainda é praticado o famoso “tango da velha guarda”, espécie de dança primitiva, ainda mais dramática e sensual que a praticada em lugares socialmente aceitáveis.

Max, por sua vez, tem a chance de tirar um bom dinheiro do casal, de uma forma lícita, e, pela gratidão que teriam para com ele, ainda ter abertas as portas de um mundo em que circula clandestinamente, à margem, quase como uma pária, para depois se refugiar em buracos indignos de um sujeito com seus modos, educação e inteligência.

Mas Mecha, uma espécie de mulher-enigma, digna representante das Capitus literárias, tem outros planos que são seguir a risca o que o marido lhe pede para fazer e lhe dar o máximo de prazer possível em qualquer que seja a situação. Ela será o pivô da frustração dos planos de Max, que acaba se apaixonando e contrariando o que reza sua cartilha.

Depois de dez anos, Max reencontra Mecha, em Nice, na França.  A Europa está em polvorosa com vários países centrais sob regimes ditatoriais – Alemanha, Itália, União Soviética -, e a sangrenta Guerra Civil na Espanha é só o início do que virá no ano seguinte. Graças à tensa situação do continente, e também à fama alcançada no submundo europeu, Max é contratado por dois italianos para fazer um serviço na casa da milionária Suzi Ferriol.

Durante uma recepção na casa da milionária, onde consegue entrar como convidado de uma nobre russa vigarista, Max encontra Mecha sem Armando, que, por problemas políticos, por ter se postado contra o governo de Franco, polemizando em jornais e em suas aparições públicas, permanece preso e incomunicável na Espanha.

Desconfiada das intenções do ex-dançarino, Mecha exige saber o que o levou até a casa da amiga, caso contrário, ameaça desmascará-lo em pleno jantar, o que ocasiona mais um contratempo na missão já difícil de ser executada e, pior, ainda terá que lidar com a lembrança das feridas abertas há dez anos.

Enquanto o relato de Buenos Aires será feito na primeira parte do livro, os acontecimentos de Nice ficam na segunda parte e, entre ambos, há uma terceira narrativa, que atravessa todo o romance, e fechará a história e o destino de Max e Mecha: um torneio de xadrez em Sorrento, Itália, em 1966, que antecipa o torneio mundial, entre o atual campeão, o russo Mikhail Sokolov e o canadense, Jorge Keller.

Keller é um promissor jogador de 28 anos e é filho de Mecha Inzunza com um diplomata canadense que ela conheceu na França. Acompanha o filho desde criança em todos os torneios e é figura fácil do séquito do rapaz, o que leva Max, agora trabalhando como chofer de um médico suiço, a reconhecê-la numa transmissão de televisão e ir ao seu encontro.

Max está com 64 anos e, apesar dos anos, ainda mantém a elegância e o charme da juventude, apesar da disposição não ser mais a mesma; Mecha, três anos mais nova, parece ter mudado mais com o tempo, mas a dedicação integral ao filho também lhe consumiu muito da energia e da beleza de outrora.

O que parece não ter mudado durante os anos são a atração explosiva que um sente pelo outro e o gosto pelo risco e o perigo. Além do tango, o xadrez também é um ingrediente importante na trama, já que com o declínio físico os personagens precisam dispor de estratégias – astúcia, sagacidade –  para alcançar seus objetivos, principlemente Max, que, desafiado por Mecha, terá que provar que não se fazem muitos homens como ele, neste ou em qualquer outro tempo.

Pérez-Reverte dedicou vinte e dois anos para escrever O tango da velha guarda e parece ter acertado em cheio ao esperar tanto tempo para dar vida ao seu carismático casal de “sem-vergonhas”, e construir um romance como pouco se vê hoje em dia, com um estilo que agrada tanto aos fãs de um bom folhetim como os de alta literatura. Grande leitura.

 

O tango da velha guarda

Arturo Pérez-Reverte

Record

Tradução: Luís Carlos Cabral

392 pgs.

 

*Esta resenha foi publicada pela primeira vez em 2013, no blog O Espanador, e revista para nova publicação.

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