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Capa O barril mágico

Capa: Divulgação

 

Trecho:

“Não faz muito tempo vivia em um bairro miserável de Nova York, em um quartinho quase miserável atulhado de livros, Leo Finkle, aluno da Yeshivah University, onde estudava para se tornar rabino. Ao final de seis anos de estudos, Finkle preparava-se para ser ordenado em junho e havia sido informado, por um conhecido, de que seria mais fácil conseguir uma congregação se ele fosse casado. Como não tinha então nenhum plano de casamento, depois de dois dias de aflição com essa ideia a perturbar-lhe a mente, solicitou os préstimos profissionais de Pinye Salzman, agente matrimonial cujo anúncio de duas linhas ele havia lido no Forward.” (O barril mágico)

 

Filho de judeus russos, Bernard Malamud (1914-1986) pode ser considerado um dos grandes escritores representativos da comunidade judaica norte-americana, ao lado de Saul Bellow (1915-2004) e Philip Roth (1933).

Seu principal livro, o romance The fixer*, de 1966 traduzido no Brasil como O faz-tudo e editado pela Record -, que recebeu o Man Booker Prize e o National Book Award de 1967, retrata as injustiças e atrocidades sofridas por um jovem judeu russo acusado de matar uma criança num período pouco anterior à queda do czar Nicolau II, revelando a face cruel do antissemitismo na Rússia pré-soviética.

A angústia do personagem principal e daqueles que acreditam na sua inocência, e lutam ao seu lado para provar que ele não é um criminoso, são narradas com maestria pelo autor. O clima de opressão causado pelo livro, por vezes, chega a ser intolerável ao leitor, numa narrativa tão incômoda quanto às obras de Franz Kafka (1883-1924), porém, sem a aura de alegoria deste último.

De um modo geral, a injustiça pode ser apontada como principal tema dos contos de Malamud em O barril mágico. Seja a injustiça cometida pelos homens ou pela vida, neste caso, creditado por algo que, os mais crédulos, chamam de Deus e outros, mais céticos, de destino.

Publicado originalmente em 1958, e vencedor do National Book Award – primeiro prêmio que receberia por sua obra -, os treze contos da coletânea trazem a marca de um autor profundamente ligado à comunidade judaica de Nova York – cidade onde nasceu –, em que a tentativa de reconstrução de novos lares por indivíduos recém-chegados de uma Europa destroçada pela Segunda Guerra Mundial, e a criação de novos laços familiares e amorosos, faz parte do cotidiano de quem tenta se reerguer em meio aos escombros da guerra e do exílio. Seguindo esta linha temática, podemos destacar os contos mais curtos de O barril mágico, como A prisão, A conta, O selecionador de ovos e Tenha piedade.

Além da luta cotidiana pela sobrevivência, em que até o acesso a uma simples refeição decente parece estar muito acima das possibilidades das personagens, a mentira também tem um papel importante nos contos de Malamud. Desde as mentiras mais inocentes, criadas para nos safarmos de situações embaraçosas, como em Um plano de leitura para o verão – onde o personagem George Stoyonovich, um apático jovem de 19 anos, inventa um método para melhorar sua instrução, para justificar a sua falta de interesse pelo estudo formal e pelo trabalho perante os vizinhos e a família – e A dama do lago -, em que o nova-iorquino Henry Levin tenta esconder suas origens judaicas para conquistar uma nobre italiana numa viagem à Europa – ou àquelas com as quais somos acusados falsamente, sem qualquer motivo, e podem nos causar enormes prejuízos materiais ou morais como em O selecionador de ovos – onde o velho Kessler é expulso de seu apartamento pelo proprietário Gruber, após se desentender com o zelador. Nestes contos, Malamud se mostra um arguto observador humano, atento em especial ao senso de ética e de justiça.

Em suas histórias, as mentiras transformam os personagens em simples peças de um jogo viciado em que a derrota é certa, apesar dos esforços em contrário, enredando suas vítimas em acontecimentos que as levam ao desespero diante da revelação de sua impotência.

Como bom autor judeu, Malamud também não escapa da tentação de parodiar uma boa parábola bíblica, como em Os sete primeiros anos (história de Jacó) e Anjo Levine (a vida de Jó) – este ainda com um quê de sobrenatural -, nem de uma pitada de um humor autodepreciativo ainda que melancólico (Eis a chave e O último moicano). Os contos em que o humor aparece com mais força são os que têm como cenário a Itália, exceção feita ao conto A dama do lago, já mencionado e que, apesar de se passar naquele país, é dos mais melancólicos da coletânea.

A minúcia e o apego ao detalhe, até mesmo nos contos mais curtos, também são marcas de O barril mágico. Em toda a coletânea é notável como o desespero, a dor e a tristeza, presentes tanto nos indivíduos quanto nas relações que são criadas entre eles, ainda que nas mais banais situações cotidianas, dão um sentido trágico às histórias de Malamud, cuja humanidade parece transcender às páginas do livro.

 

O barril mágico

Bernard Malamud

Record

Tradução: Maria Alice Máximo

254 pgs.

 

Trecho:

“Manischevitz, alfaiate, aos 51 anos de idade vítima de muitos reveses e de muita humilhação. Antes um homem capaz de sustentar-se com certo conforto, da noite para o dia perdeu tudo que tinha quando sua loja pegou fogo e, com a explosão de um depósito de substância inflamável, transformou-se em um amontoado de destroços carbonizados. Apesar de Manischevitz ter seguro contra incêndio, processos por perdas e danos acabaram por levar-lhe até o último centavo do que recebera do seguro. Mais ou menos à mesma época, seu filho, jovem muito promissor, foi morto na guerra, e sua filha, sem sequer uma palavra de aviso, casou-se com um boçal e desapareceu com ele da face da terra.” (Anjo Levine)

 

*A primeira tradução de The fixer, no Brasil, foi feita pela editora Manchete, nos anos 1970 e o título era O bode expiatório. Foi esta que o autor da resenha leu há alguns anos. No momento, ela se encontra esgotada.

 

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