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Capa: Divulgação

Capa: Divulgação

Trecho:

“Quando encontrei Gertrude Stein pela primeira vez, em Paris, admirei-me de jamais ter visto um livro em francês em cima de sua mesa. Embora sempre houvesse uma infinidade de ingleses, não se viam nem sequer jornais parisienses. Mas você nunca lê em francês? perguntei-lhe, como tanta gente fazia. Não, respondeu-me. Sabe, eu sinto é com os olhos, e para mim não faz nenhuma diferença a língua que ouço, eu não ouço línguas, ouço timbres de voz e ritmos, mas com os olhos vejo palavras e frases e para mim só existe uma única língua, o inglês. Uma das coisas que mais me agradaram durante estes anos todos é viver rodeada por pessoas que não sabem inglês. Isso me deixa mais completamente a sós com os meus olhos e o meu inglês. Do contrário não sei se teria sido possível manter a intimidade com minha própria língua. E eles, nenhum deles, puderam ler uma só palavra do que escrevo, a maioria aliás nem sabia que eu escrevia. Não, eu gosto é de viver no meio de uma porção de gente e de ficar completamente sozinha com o inglês e comigo mesma.” (pgs, 74-75)

 

O papel exercido pela escritora norte-americana Gertrude Stein (1874-1946) na formação, divulgação e incentivo da obra de jovens autores norte-americanos, como Ernest Hemingway (1899-1961) e Scott Fitzgerald (1896-1940), na Paris após a Primeira Guerra Mundial é reconhecidamente notável. Geração, aliás, que ela batizou de “Perdida”.

Notável também foi o seu empenho em reunir e incentivar, no início do século passado, até pouco depois da Primeira Guerra, na mesma capital francesa, um grupo de artistas desconhecidos e de vanguarda que, ao longo do tempo, teriam seu talento reconhecido – alguns desses artistas, com justiça, foram considerados até gênios -, como Pablo Picasso, Henri Matisse e Juan Gris.

Muitas dessas histórias estão em A autobiografia de Alice B. Toklas, publicada por Stein em 1933. Alice B. Toklas foi a companheira com quem Gertrude Stein viveu por quase quarenta anos – de 1907 até 1946, quando a autora faleceu. Ambas dividiram o teto na Rue de Fleurus, 27, lugar que se tornou ponto de encontro da nata cultural parisiense e europeia. Simples encontros entre amigos, para comer, beber e conversar, enfim, celebrar a vida, e que, de vez em quando, podia se transformar em discussões estéticas capazes de gerar futuros movimentos vanguardistas.

Interessante no livro, para além da forma criativa encontrada por Stein em contar sua vida, através de uma suposta narrativa autobiográfica de sua companheira de vinte e cinco anos – na época em que o livro foi publicado -, é a simplicidade como são narradas as situações cotidianas, o que, de alguma forma, parece contrariar a visão que temos quando ouvimos a palavra “vanguarda”.

Se não está presente na forma de construções linguísticas elaboradas e, às vezes, até intrincadas – como fizeram seus contemporâneos James Joyce (1882-1941) e Virgínia Woolf (1882-1941) -, a modernidade de Stein surge ao deslocar o foco narrativo de suas memórias pessoais para o ponto de vista de uma terceira pessoa, sua companheira Alice B. Toklas, e trabalhá-la literariamente, como se fosse um romance. Algo parecido, em termos de narrador, foi feito por outro norte-americano expatriado de Paris: Henry Miller (1891-1980), ao publicar Trópico de Câncer, em 1939, rompeu definitivamente com a diferenciação entre autor e personagem, em uma espécie de autobiografia hiperbólica precursora da autoficção.

Em algumas passagens do livro, anteriores ao encontro entre Stein e Tolklas, que narram a busca de Gertrude e seu irmão por novidades nas galerias de arte parisienses ou em lojas que trabalhavam revendendo obras de artistas franceses e imigrantes desconhecidos, e o empenho de Stein em conhecê-los pessoalmente, quando a obra era de seu agrado, percebe-se como se deu início um trabalho pelo qual a escritora ficaria famosa: seus apurados gosto e incrível tino por tudo aquilo que tinha grande valor artístico.

Desta forma, quase acidental, formou-se um ambiente quase mítico em torno de Stein, com seu poder aglutinador de boa anfitriã e um extraordinário instinto de mecenas, com grande senso estético, que fez dos encontros e jantares em sua casa um reduto vanguardista.

Apreciadores de arte em geral e do glamour parisiense do início do século XX vão se deleitar com A autobiografia de Alice B. Toklas, um livro que, mesmo nos momentos mais sombrios, nunca deixa de ser leve e bem-humorado, como no relato feito sobre o período da Primeira Guerra Mundial, em que Stein e Toklas trabalharam como voluntárias dirigindo ambulâncias.

Na época de seu lançamento, o livro tornou-se best-seller sendo, de longe, o mais lido da autora, que passou para a história mais por causa de suas tertúlias do que por sua obra literária. E, goste-se ou não do estilo literário Gertrude Stein, é inegável o fascínio que ele exerce nos leitores como uma história de amor: de amor às artes e ao ser humano.

 

A autobiografia de Alice B. Toklas

Gertrude Stein

L&PM

Tradução: Milton Persson

262 pgs.

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