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I

 

Desde criança fora criado e doutrinado para ser um bom soldado. A ideia de torná-lo um militar fora do pai que teve seu sonho, de seguir ele próprio a carreira das armas, frustrado ainda jovem, por causa de um acidente a cavalo em que perdeu o movimento da perna direita.

Ao menos o acidente não o impediu de casar-se e transferir seu sonho para o filho. E, desde a primeira infância, o soldado recebeu uma educação espartana. Por isso, o menino, já crescido, não se surpreendeu quando o coronel da companhia de infantaria em que servia o escolheu para “a missão mais importante que um soldado poderia ter” – palavras do próprio coronel.

“Amanhã, antes do alvorecer, pegue o melhor cavalo da companhia e siga em direção ao norte, até encontrar um forte próximo à fronteira norte do País. Lá, um oficial o espera, apresente-se a ele e diga que foi o escolhido para a missão. Antes de partir, procure o capitão, ele tem todas as informações de que precisa para a jornada. Está dispensado”.

“Sim, senhor coronel”, disse o soldado, saudando o seu superior.

No entanto, antes de deixar a sala, o jovem militar voltou-se para o coronel que remexia uma papelada sobre a mesa e disse:

“Com licença, coronel”.

“Sim”.

“Qual seria a minha missão no forte?”

“Não posso revelá-la no momento, soldado. Quando chegar ao forte, o oficial que o receberá vai informá-lo. Até lá, peço paciência a você. Pode ir se preparar para partida”, respondeu o capitão que em nenhum momento desviou sua atenção da pilha de papel que havia sobre a mesa.

Na manhã seguinte, antes do amanhecer, o soldado deixava a companhia para cumprir a missão a qual foi incumbido. Levava apenas comida e água suficientes para três dias de viagem – prazo estimado pelo capitão até a chegada ao seu destino -, quatro mudas de roupa, acomodadas numa trouxa que balançava na garupa do cavalo e alguns objetos pessoais de pouco valor material.

O único objeto que procurou, em vão, foi uma fotografia do casamento dos pais que trazia para os poucos momentos em que a saudade de casa apertava. Porém, há muito tempo não via a tal fotografia e lembrou-se dela por acaso quando encontrou algumas cartas que recebera dos pais.

“Devo tê-la perdido em alguma mudança”, pensou com algum pesar.

Nenhum companheiro foi se despedir do soldado, pois até sua partida foi mantida em segredo.

 

II

 

Os dois primeiros dias da viagem foram agradáveis, embora o céu estivesse carregado, com uma pesada cor de chumbo, sem o menor vestígio do sol.

À noite, o soldado procurava descansar próximo à estrada. Dormir era quase impossível por causa da excitação que a missão secreta lhe provocava. Passava o tempo todo cogitando qual seria o objetivo de sua missão, mas não chegava a qualquer conclusão. A ansiedade causava-lhe uma pressa descomunal e, antes de raiar o dia, apesar da exaustão em que se encontrava, partia outra vez, com a alma cheia de esperança, desejando chegar o mais rápido possível.

Em seu trajeto passou por algumas vilas e pequenos povoados. As pessoas lhe sorriam com simpatia – principalmente as mulheres mais jovens e solteiras – e, gentis, respondiam suas perguntas sobre a localização do tal forte para onde teria de ir.

“Não há nenhum forte nesta região. O senhor ainda deve estar longe dele”, era a resposta mais comum que recebia.

As paisagens se sucediam monótonas, embora algumas delas fossem até aprazíveis. No entanto, o soldado não tinha tempo de apreciá-las e mantinha seu passo firme em direção ao forte da fronteira norte do País, tendo como único companheiro seu cavalo negro.

Ao final do terceiro dia, prazo que o capitão lhe dera para o fim da viagem, o jovem militar nada encontrou a não ser uma paisagem árida e desoladora à sua frente. Estava diante de um grande deserto que, sem dúvida, sabia existir, mas não esperava encontrá-lo em seu caminho, pois o capitão não o havia precavido sobre ele.

Pensou que pudesse ter se desviado do trajeto original, mas, ao conferir a bússola que carregava e as anotações que trazia, percebeu que seguira rigorosamente a trilha indicada pelo seu superior.

Por um instante a ideia de desistir da tarefa e retornar passou-lhe pela cabeça. Entretanto, chegara muito longe para voltar e, por mais que se sentisse decepcionado, a missão para a qual fora enviado adquiria proporções gigantescas diante desses pequenos percalços. Continuou, então, a seguir a trilha que o levaria ao forte.

 

III

 

Os viajantes, agora, eram cada vez mais raros e, ao contrário do início da jornada, demonstravam pouca disposição em ajudá-lo ou responder suas perguntas, pois, da mesma forma que ele, desconheciam completamente a localização do tal forte e nem sequer tinham ouvido falar nele.

O máximo de ajuda que conseguia obter das pessoas que encontrava pelo caminho era a confirmação que seguindo em frente chegaria à fronteira norte do País.

A situação não era pior porque, por sorte, antes de chegar ao inóspito deserto, conseguira encher seu cantil num pequeno riacho que cruzara, mas a comida que economizara durante a viagem já chegava ao fim.

De certa forma, o deserto também o ajudava, já que não era tão escaldante quanto imaginara, e o céu mantinha a mesma carapaça de chumbo desde a sua partida, impedindo que o sol o castigasse ainda mais.

Ao final do quinto dia de viagem, porém, o soldado encontrou alguém que sabia onde ficava o tal forte. Era um pastor de cabras, um homem tão rude quanto a paisagem que habitava.

“Conheço um forte que fica no alto daquela montanha”, falou o pastor apontando para uma mancha cinzenta na linha do horizonte. “Mas são quase dois dias de viagem até lá!”.

Desapontado com a segunda informação, o soldado pediu ao homem que o acolhesse pelo menos por aquela noite. Explicou-lhe que estava esgotado e que a comida que trouxera, suficiente apenas para três dias, havia terminado. Após refletir um instante, o pastor aceitou recebê-lo por uma noite, mas, como forma de pagamento pelo serviço prestado, exigiu o cavalo.

“Impossível! Este cavalo não é meu! Foi cedido a mim pela companhia que sirvo apenas para esta missão!”, respondeu o soldado, indignado.

“Você não irá precisar dele para chegar ao forte! Conheço bem aquele lugar!”, argumentou o pastor. “A montanha é muito perigosa e o caminho estreito demais para um homem a cavalo”.

O soldado pensou que a estadia lhe sairia exageradamente cara, mas concordou com a exigência com a condição que o pastor lhe acompanhasse até ao sopé da montanha onde lhe entregaria o cavalo. Como não tinha o que perder o pastor aprovou o acordo e, na manhã seguinte, partiram em direção à montanha.

O dia esteve nublado, sem qualquer resquício de sol assim como não havia também qualquer sinal de que a chuva pudesse cair, como se aquela situação climática, mais que o acaso, fosse obra de algum deus perverso.

Pouco antes do meio-dia do sétimo dia de viagem, o jovem militar chegou à base da montanha onde ficava o forte. Despediu-se de sua montaria com um carinho na crina e um leve tapa no pescoço. O pastor amarrou sua mula na sela do belo cavalo negro, recomendou cuidado na escalada porque, apesar da montanha não ser tão alta, o terreno era bastante escarpado, e disse que se o soldado se apressasse poderia chegar ao forte antes do anoitecer.

Sem agradecer o conselho ou se despedir do homem, o soldado deu-lhe as costas e começou a última etapa da jornada.

 

IV

 

Conforme o pastor havia alertado, pouco antes do final da tarde, o soldado chegou ao portão principal do forte. No entanto, diante da construção, todas as suas especulações a respeito da missão que o esperava se desvaneceram e a alegria que pensava envolvê-lo no exato momento da chegada foi substituída por uma terrível frustração.

O forte era pequeno, todo construído em pedra, e com uma aparência frágil e sombria. A impressão era que as pedras podiam se esfacelar com um simples olhar – como se podia constatar ao observar as ameias que apresentavam rachaduras grandes, parte de uma delas, inclusive, já havia se partido. O jovem militar pensou tratar-se o lugar de um depósito de armas esquecido, erguido em forma de forte para esconder sua verdadeira finalidade.

Vencendo a aversão que a construção lhe causava, o soldado aproximou-se do portão de madeira e observou através da seteira, que estava levantada, o que lhe esperava. Com exceção de um cavalo branco e magro que comia com o focinho enfiado num cocho, o forte parecia deserto. No canto oposto de onde estava o cavalo havia uma pilha de madeira, cortada em pequenos feixes, e, ao lado dela, uma porção de cadeiras e mesas quebradas.

Empurrou levemente o portão e percebeu que ele estava apenas encostado, ao contrário do que rege os regulamentos militares. Não havia nenhuma sentinela à vista Entrou devagar, evitando fazer qualquer ruído que denunciasse a sua presença. No pátio de entrada, o vento cortante que soprava ruidoso, naquela hora morta e angustiante do dia, ergueu um monte de poeira do solo como que a lhe dar boas-vindas.

“Você demorou!”, disse-lhe alguém.

“Quem está aí?”, perguntou o soldado, assustado, pois não identificou de onde vinha a voz.

“Eu!”, respondeu-lhe um velho de barbas longas e cabelo desgrenhado, saindo de um cômodo ao lado do portão por onde entrara.

O velho vestia um uniforme igual ao do soldado, mas bem mais surrado e sujo, e tinha uma fisionomia que não era estranha ao jovem militar.

“Quem é você?”, perguntou o soldado atônito pelo mau aspecto do sujeito.

“Quem você acha que sou?”, perguntou o homem com um sorriso de escárnio.

“É o oficial…”, murmurou o jovem após um instante de silêncio.

“Se foi isso que lhe disseram…”.

“Mas por que está sem os seus galões, senhor?”.

“Chega de perguntas, soldado!”, falou o velho com brutalidade. “O que veio fazer aqui?”

“Fui encaminhado do forte…”.

“Sei o que veio fazer aqui! Pode pular esta parte!”, cortou novamente o homem abruptamente dando de ombros.

“O senhor poderia, então, me dizer qual é a minha missão aqui?”, disse o soldado quase com ódio do homem.

“Hã?! Sua missão?!”, ironizou o velho aproximando-se do soldado. “Então não sabe ainda qual é sua missão aqui, soldado? Não sabe por que veio para cá?”.

“Não, senhor, não sei!”, respondeu o soldado, envergonhado. “O coronel me disse que um oficial me informaria qual seria a missão apenas quando chegasse!”.

“Pois, então, eu direi qual é a sua missão!”, disse o homem, ríspido. “Sua missão será me ajudar aqui neste posto, aprender o serviço e, quando eu for reformado, assumir o trabalho sozinho! É esta a sua missão, soldado! Simples, não é?”.

“Como assim substituí-lo, senhor?”.

“Você é idiota ou o quê, rapaz?”, disse o velho, impaciente. “Não percebeu que sou um velho acabado, que minha juventude, minha força e minha esperança terminaram?! É preciso alguém mais jovem para fazer todo o serviço que existe por aqui! E você foi o escolhido, rapaz!”.

“Mas o quê há para fazer aqui?”.

“Que tipo de serviço acha que existe num forte próximo à fronteira mais importante do território?”.

“Guardar a fronteira…”.

“Muito bem, rapaz!”, aplaudiu o velho numa pantomima ridícula. “Mas não é somente isto, não! Há também relatórios e memorandos a serem preenchidos e enviados para o governo e para o Estado-Maior. Além disso, é preciso fazer nossa própria comida, buscarmos nossa água, pois senão não sobreviveríamos aqui, no meio do nada, não é verdade?”.

O soldado permanecia imóvel. Seu rosto se fechara numa expressão de dúvida e uma sombra sinistra baixou sobre seus mais íntimos pensamentos.

“Vamos ao trabalho!”, convidou o velho segurando seu ombro, pela primeira vez, de maneira amistosa. “Vamos terminar de cortar esses móveis, pois o inverno já começou!”.

 

V

 

Durante todo período que passou no forte, o soldado recebeu explicações detalhadas sobre todas as tarefas, funções e horários a serem cumpridos rigorosamente. Até nas tarefas mais simples, como o hastear a bandeira ao som do hino nacional, em que o jovem militar não via qualquer sentido tanta cerimônia num lugar ermo – habitado, agora, apenas por dois militares -, o velho aplicava todo o seu rigor marcial.

No entanto, como o soldado também era muito escrupuloso no desempenho de suas funções, e, por isso mesmo, fora escolhido para aquela missão, acabava justificando a pompa com que o velho soldado revestia os serviços mais banais que realizava.

O tempo foi passando e se perdendo a tal ponto que o soldado não sabia mais medir em semanas, meses ou anos o período que passara no forte. Apesar da monotonia, os dias se sucediam rápidos e, por mais espantoso que fosse, o trabalho nunca terminava.

A relação com o velho também se transformara de uma fria e distante convivência militar para uma escancarada e franca amizade, quase beirando a cumplicidade, embora nunca tivessem revelado qualquer confidência pessoal. O assunto dos dois sempre era o exército, a vida na caserna, e nada mais.

Foi por causa dessa amizade que o soldado adiou, ao máximo, a decisão de deixar seu posto e o companheiro. Desde o momento em que colocou os pés no forte, percebera que a missão para a qual fora designado não condizia com a sua capacidade. Quando entrou para o exército sonhava em ser herói numa batalha ou até mesmo morrer numa guerra, defendendo com honra seus ideais e sua pátria. Sem dúvida, esperava um destino mais próximo do heroico, uma espécie de prêmio a tanta aplicação no desempenho de suas funções militares.

Por três vezes chegou a pedir transferência para outro posto, mas nunca houve resposta ao seu pedido. Vendo que a transferência seria impossível, resolveu, então, solicitar a dispensa. Sem dúvida, fora criado para ser um soldado zeloso e obediente, mas era chegado o momento de retornar para a vida. Não tinha ideia do que faria dali por diante, longe dos afazeres militares, mas sabia que precisava fazê-lo com urgência sob pena de tornar-se um homem sem passado, presente e futuro como seu companheiro.

Foi durante o jantar do dia mais frio que já passara em toda a sua vida, quando havia perdido a esperança em receber resposta de seu pedido de dispensa, que o soldado resolveu confessar ao velho seu plano.

“Amanhã vou deixar o forte!”.

“Mesmo sem a dispensa?”, perguntou o homem, em tom natural, como se já esperasse tal atitude.

“Sim!”.

“Boa sorte!”.

O soldado calou-se por um instante, pois não esperava que o velho recebesse sua decisão com tanta naturalidade.

“Quer vir comigo?”, arriscou perguntar, sem desviar o olhar do fundo do prato.

“Não. É preciso que alguém fique aqui, cuidando do forte! Além disso, abandonar o forte não vai resolver o meu problema nem o seu”.

“Como sabe disso?”, perguntou o soldado, irritado, dando um violento tapa na mesa.

“Porque já tentei fazer isso também e percebi que não adiantava nada”, respondeu calmamente o homem.

“E por que não deu certo com você quer que eu acredite que vá acontecer o mesmo comigo?”.

“Claro que não! Isto é uma coisa que você só saberá se o fizer, por isso vá em frente. Depois de mim, outros também tentaram, inclusive o seu antecessor”.

O soldado levantou-se abruptamente da mesa e passou a andar em volta dela, nervoso, como uma fera enjaulada.

“Por que nunca me falou que o soldado que veio antes de mim fugiu?”.

“Porque não vinha ao caso e porque nunca é bom falar dos maus exemplos! Mas se quiser, pode partir!”, disse o velho recolhendo os pratos.

“Como assim posso partir?!”.

“Pode partir! Verá que não minto quando digo que isso não irá resolver o seu problema. Aliás, só irá agravá-lo! Há muito tempo quando pensou em desistir da missão, ao se encontrar diante do deserto, talvez conseguisse mudar a sua vida, mas hoje isto é impossível. Você foi até o fim, escolheu o seu caminho ou o caminho que alguém achou que fosse certo e agora não há como retornar e percorrer um caminho diferente”.

“Mas…”.

“Fique tranquilo! Não direi a ninguém que é um desertor. Direi apenas que desapareceu durante uma tempestade de areia quando fazíamos a ronda semanal”.

O soldado estava intrigado com o que lhe dissera o experiente militar, mas, ao mesmo tempo, a promessa que ele lhe fez de não o delatar como um desertor encorajava-o a provar que o companheiro estava errado.

“Leve o cavalo, mas deixe sua arma comigo! Ela não vai lhe fazer nenhuma falta”, disse-lhe o velho encerrando o assunto.

 

VI

 

Pela manhã, para não demonstrar que a emoção o dominava, despediu-se do companheiro com firmeza e deixou o forte, levando apenas objetos pessoais, roupas civis, água e alimento suficientes para seis dias de viagem.

Por causa do cavalo, precisou descer a montanha pelo trecho norte, mais longo e menos perigoso, por onde costumava descer com o companheiro para fazer a patrulha. Reparou que o céu do outro lado da fronteira estava mais escuro que o normal e raios e relâmpagos o cortavam com insistência.

Já no início de sua jornada, após deixar a montanha do forte, percebeu que tudo parecia ter mudado. Até mesmo os lugares não pareciam ser mais os mesmos.

Fez questão de passar pelo casebre do pastor que ficara com o seu cavalo, mas não o encontrou, absolutamente, embora estivesse convencido que percorria exatamente o mesmo trajeto.

O deserto que atravessara, pela primeira vez, em quatro dias parecia interminável. Ao final do décimo dia de viagem, fixava a linha do horizonte através da luneta, mas não encontrava qualquer sinal de que aquela paisagem árida se findasse.

O cavalo – o mesmo que estava no forte desde a sua chegada, ainda mais velho e magro – não resistiu à viagem e caiu exausto, ofegante, após mais dois dias de esforço, para não mais se levantar. O soldado chorou pelo pobre animal e, desanimado, por sequer ter uma arma para abreviar aquela agonia, o abandonou a própria sorte, cobrindo-o apenas com as roupas que trazia na trouxa.

Mais oito dias a pé levou para cruzar o deserto e, na solidão de seus passos, decidiu, em vez de deixar definitivamente a vida militar, e viver ao deus-dará, se apresentar, mesmo sem ordens, ao antigo comando e sofrer as punições cabíveis.

Aos viajantes que encontrava contava a sua história e pedia água e comida e perguntava se sabiam a localização da sua companhia. Nenhum deles, porém, sabia onde ficava o lugar e, a contragosto, lhe arrumavam um pouco de alimento e água.

Perdeu a conta dos dias que vagou à procura do antigo quartel sem, no entanto, encontrar qualquer sinal dele. As pessoas, às quais se dirigia, nada sabiam sobre uma companhia de infantaria na região e, para seu espanto, apenas um velho ancião de quase cem anos dissera que ouvira falar, vagamente, da existência de um quartel do exército por aqueles lados muito antes de ele nascer.

O soldado foi ao local exato informado pelo homem e nada encontrou a não ser uma extensa plantação de trigo. Se algum dia havia realmente existido algum quartel por lá, nem suas ruínas sobraram. Não lhe restou alternativa senão retornar ao forte da fronteira para o qual fora designado para cumprir a sua missão.

A viagem, a mais longa que empreendera até então, foi difícil e cansativa, mas em nenhum momento pensou em desistir dela. Tinha consciência que o que lhe movia, quase que totalmente ao seu destino final, era a oportunidade que teria de desculpar-se com o velho companheiro e reconhecer o quanto ele estava certo.

 

VII

 

Ao entrar no forte, sem a menor noção de quanto havia andado ou quanto tempo havia se passado desde a sua partida, seus olhos estavam enevoados pela emoção. Chamou pelo companheiro, mas não obteve resposta. Desesperado, correu pelo forte sem encontrá-lo. Resolveu procurá-lo, então, ao redor da construção, mas não achou qualquer sinal dele.

Lembrou-se da luneta que trazia e passou a observar os arredores da montanha, para tentar encontrar algum vestígio do antigo companheiro. Depois de horas de busca, e muita paciência, avistou para além dos limites da fronteira, junto a uma pedra, algo parecido com um par de pés. Correu para lá, sem perder tempo.

Era mesmo o velho militar, morto, sem qualquer sinal de sangue ou marca de violência, abraçado ao fuzil que pedira ao soldado e um pedaço de papel dobrado junto ao peito. O soldado retirou a arma e o papel das mãos do morto.

Verificou atônito que, envolta sob o papel, estava a foto de casamento de seus pais, perdida desde sua partida da companhia, e que sempre contemplava nos momentos em que a saudade parecia maior que o objetivo para o qual se preparara desde a infância. O papel, por sua vez, era seu pedido de dispensa indeferido pelo comandante da corporação.

Neste instante, um tênue raio de sol conseguiu romper o céu cinzento e iluminou a cabeça inerte do velho. O soldado observou atentamente o rosto do companheiro, como se olhasse para seu próprio reflexo num espelho, e compreendeu, finalmente, qual era a sua verdadeira missão.

 

 

* Conto publicado originalmente em 2005 na segunda coletânea Dedic Escreve e revisado pelo autor para publicação neste blog.

 

 

 

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