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Pilatos capa

Capa: Divulgação

 

Trecho:

“Vi a mesinha-de-cabeceira bem ordinária, dessas de hospital. Havia um copo com água empoeirada, um pedaço de linóleo cuja ponta estava presa pela gaveta. No centro do tampo, um vidro de geleia. Geleia não. Eu conhecia aqueles vidros, eram de compota. Compota Colombo, de pêssego. Muito comum nas padarias, nos mercados: os pêssegos dourados, espremidos uns contra os outros, alagados na calda cor de ouro.

Para que me deram aquela compota? Devia ser uma compota velha, quase estragada, a calda estava escura e vermelha. As freiras – eu conseguia raciocinar com nitidez – haviam me dado aquilo de presente, eram caridosas por profissão ou temperamento, cada sujeito que aparecia na enfermaria, estropiado e doído, recebia um doce para amenizar os dias de convalescença. Por isso elas me olhavam – e olhavam para o vidro de compota.

Desejavam avisar que haviam trazido um doce para mim, talvez esperassem o meu agradecimento ou outra forma de retribuição. Ia murmurar: obrigado. Mas preferi olhar outra vez. A verdade é que não gosto de compotas, muito menos de pêssegos, que me parecem afrescalhados, sobremesa de veado.

Achei que havia ganho um pepino. Um pepino em conserva. Sim, lá estava, enorme, rodando em torno de seu eixo como um totem desgovernado, um pepino murcho. Por que haviam me dado um pepino? Talvez as freiras gostem de pepinos e tenham me dado um, em conserva, de fabricação caseira, eu percebia que a tampa de vidro não era a de origem, havia o esparadrapo fazendo um círculo em volta do bocal.” (pgs. 17-18).

 

Após ser atropelado por um ônibus, um homem tem o pênis amputado e assim começa, a partir dessa tragédia pessoal, as aventuras desse Pilatos, romance do jornalista e escritor Carlos Heitor Cony (1926), publicado em 1974.

Sobre o próprio livro, o seu nono romance, o autor chegou a dizer que era o seu preferido e quase havia desistido da literatura, pois, após o seu lançamento, foi publicar um novo romance mais de vinte anos depois, em 1995, com Quase memória. “Pilatos é a minha visão do mundo, e acho que vou morrer com ela”.

Seguindo uma ancestral tradição masculina – desde a sua descoberta como uma parte quase autônoma do homem -, o órgão sexual protagonista do romance é batizado como Herodes, nome escolhido por seu dono em homenagem a Herodes, o Grande (73 a.C – 4 a.C), Tetrarca de Jerusalém, e não ao seu filho, o ignóbil Herodes Antipas (20 a.C – 39), que governava a Galileia na época em que Jesus viveu.

O Herodes de Pilatos passará a circular pelas ruas do Rio de Janeiro, protegido por seu proprietário, dentro de uma compota de pêssego em calda, sendo quase que o tempo todo confundido com os mais variados e suculentos petiscos – salsichas, linguiças, pepinos em conserva – e, por isso, com o iminente risco de ser comido pelos mais variados tipos humanos – vagabundos famélicos, vigaristas, charlatões e donos de botecos de má fama – que cruzam o caminho de seu infeliz dono, um ex-revisor com dificuldade em reencontrar emprego e expulso da pensão onde morava por falta de pagamento durante os três meses que passou internado depois do acidente que o mutilou.

Lá pelas tantas, descobrimos que o eunuco se chama Álvaro Picadura, mas não sabemos se este é, de fato, o nome do proprietário do heroico Herodes, que passará por inúmeras aventuras (e desventuras) em sua luta pela sobrevivência e para salvar o seu querido e vulnerável “membro” das mãos de coroas virgens e aproveitadores inescrupulosos, interessados em tirar algum prazer ou algum lucro da inusitada situação.

O fato é que Cony cria um fantástico ambiente de nonsense em pleno período de ditadura militar brasileira. Em 1974, ano em que o romance foi publicado, ninguém notou uma crítica política e social ao regime militar que ainda teria mais onze anos pela frente e dois generais ocupando a presidência do País – Ernesto Geisel (1974- 1979) e João Baptista Figueiredo (1979-1985).

A certa altura, por exemplo, após uma grande confusão num restaurante, Herodes, seu dono e seu amigo Dos Passos – um vigarista, já passados dos sessenta anos, mas com um grande apetite sexual e uma imaginação fora do comum para arquitetar golpes e criar folhetins eróticos – são presos e levados para um quartel.

Encarcerados, o trio é surrado com frequência – Herodes, na verdade, é poupado do suplício, já que os guardas não reparam na sua presença – assim como seus companheiros de cela: o Grande Arquimandrita, espécie de guru megalomaníaco, que se intitula Procurador Geral do Patriarca Máximos IV, chefe da Igreja Católica Ortodoxa; um mendigo, quase senil e mudo, que recebe a alcunha de Sic Transit pelo Grande Arquimandrita (por conta da expressão latina Sic transit gloria mundi, Assim passa a glória do mundo!), que pouco faz além de tentar roubar a compota de pêssego de seu companheiro de cela para comer Herodes, a quem acredita ser uma salsicha; e Otávio, um jovem “maconhado”, preguiçoso e inerte, que passa os dias dormindo indiferente às discussões políticas – principalmente entre Dos Passos, um fascista assumido, contrário a qualquer tipo de manifestação democrática, e o Grande Arquimandrita, defensor ferrenho do regime democrático, desde que ele esteja no poder ou, pelo menos, ao lado dele -, às brigas de seus colegas de prisão e aos castigos corporais impingidos pelos guardas.

Pilatos é um dos romances mais escrachados e mordazes da moderna literatura brasileira, especialmente a escrita a partir dos anos 1960. Espécie de fábula moral, romance picaresco e peça satírica, percebemos certa semelhança na sua construção com novelas clássicas dos grandes satiristas como Cândido, de Voltaire (1694-1778), ou O nariz, de Gógol (1809-1852) – em termos de Brasil, Pilatos estilisticamente tem muita proximidade com Macunaíma, de Mário de Andrade (1893-1945), e Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antonio de Almeida (1831-1861) -, além da alta dose de escatologia.

O humor desbragado do livro parece purgar as mazelas e vícios subjacentes à história e até fazer com que o leitor esqueça que a narrativa se passa em um dos períodos mais tristes da história do Brasil. Um período em que a população vivia sob o jugo de uma ditadura que não poupava esforços para eliminar qualquer oposição.

Nesse sentido, Pilatos pode ser considerado um livro subversivo ao extremo, ao dar vazão à crítica por meio da arte e do humor, sem que seus alvos percebessem, é um trabalho atualíssimo, sobretudo se levarmos em consideração o que dele escreveu o jornalista e escritor Mário Prata, que assina a orelha da edição de 2001:

“Pilatos é a cara do Brasil. Um Brasil de 1974, dos anos 80 e de hoje. Um Brasil sem tesão, um Brasil explorado. Pilatos é a energia arrancada do corpo do brasileiro por militares, bispos e ociólogos, como diria Millôr”.

 

Pilatos

Carlos Heitor Cony

Companhia das letras

219 pgs.

 

Trecho:

“As freiras cultivavam pepinos, plantavam nos fundos do hospital, faziam conservas para uso próprio e para presentear os doentes quando tivessem alta. Mas eu não teria alta tão cedo, pelo menos enquanto estivesse com aquele enorme esparadrapo grudado no meu corpo.

Não cheguei a me assustar. A mão deslizou sobre o remendo lá embaixo. Apalpei-me e senti um vazio no justo lugar onde esperava encontrar uma resistência carnosa e inerte, uma saliência habitual e minha. Não havia nada ali. A minha mão sabia.

As freiras deixaram de olhar para a mesinha-de-cabeceira. Olhavam agora para mim, sem pena nem interesse, porém com certo estupor. Elas também sabiam. Então, só para conferir, olhei com atenção o vidro de compota; aquilo não era calda, mas álcool, sujo de sangue.

Imerso nele, boiando como um peixe sem vísceras – e cego: ele.” (pg. 18)

 

*A edição de Pilatos lida para esta resenha foi a da Companhia das letras, publicada em 2001. Atualmente a obra de Carlos Heitor Cony está sendo editada pela Alfaguara.

 

 

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