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A primeira vez que o vi, foi quando veio à livraria procurar Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe. Ele não sabia nada sobre o livro, além de que na época de seu lançamento, no início do século XIX, ou fim do século XVIII, havia causado uma onda de suicídios em seus infelizes e jovens leitores.

– Você já leu? me perguntou, assim que lhe entreguei a edição de bolso que pediu.

– Sim, há muito tempo… respondi, sem muita empolgação.

– E o que achou?

Falei que havia gostado do livro, o que não era verdade – tinha achado a leitura bem maçante -, mas que não lembrava muito do enredo da história, apenas que era escrito na forma de diário pelo personagem principal, Alberto, e que falava de sua paixão pela namorada do seu melhor amigo, numa espécie de triângulo amoroso platônico, o que lhe causava muitos tormentos e aflições.

Apolônio, este era o nome do cliente, um senhor de uns setenta anos, forte e lépido para a sua idade, me ouviu com interesse e, procurando saber minha opinião sobre outros livros, ficou quase uma hora conversando comigo. Despediu-se levando apenas o livro que viera buscar e deixando a pilha de livros que fui lhe oferecendo ao longo da conversa, a maioria de clássicos de bolso, em cima do terminal de consulta.

Na semana seguinte apareceu novamente. Dessa vez não me perguntou sobre nenhum livro em especial, nem mencionara se havia lido o Goethe da semana anterior – acredito que não.

– Você conhece algum livro bom que fale mal da religião? me perguntou, logo após me cumprimentar. Era uma pessoa objetiva, pouco afeita a preâmbulos.

– Livro que fale mal de religião? perguntei sem entender muito bem o que ele queria.

– É! Pode ser um desses baratinhos, de bolso.

– Ficção ou não-ficção?

– Pode ser ficção. Só queria um que mostrasse uma visão contrária à religião. Tô meio de saco cheio desse negócio de “Graças a Deus!” pra cá, “Graças a Deus!” pra lá. Agora até técnico de futebol parece que oferece vitória do time pra Deus em vez de falar que foi por causa do trabalho de equipe… não aguento isso, rapaz!

Lembrei-me de A relíquia, do Eça de Queiroz, que, por sorte, havia em edições de bolso e comecei a contar a história do personagem principal, Teodorico Raposo, o Raposão, e sua vida dupla de pândego e beato. Dos malabarismos que era obrigado a fazer para enganar a tia adotiva, Patrocínio das Neves, a Titi, para demonstrar o quanto era um carola tão ardoroso quanto ela e de como a convenceu a bancar sua peregrinação à Terra Santa para que pudesse lhe trazer uma relíquia sagrada, mas cujo verdadeiro objetivo era fazer com que Raposão esquecesse uma desilusão amorosa.

Apolônio, de olhos vidrados, parecendo ver o que lhe dizia desenrolar-se diante de si, perguntou ao final da minha narrativa:

– Você já leu muitos livros, não é?

– Sim, um pouco.

– Eu sabia. Você já leu todos esses livros aqui? perguntou, apontando as estantes.

– Não, claro que não, respondi, modesto. – Ler tudo é impossível. A gente só lê uma pequena parte e gosta de uma parte ainda menor do que lê… Mas acho este livro fantástico! Extraordinário mesmo.

– Eu preciso lhe apresentar a um amigo, disse meio enigmático.

Foi embora com o livro e, antes de ir, ainda ficou mais uma hora circulando pela loja. Não disse se voltaria, mas eu tinha certeza que isso aconteceria, só não esperava que já viesse na semana seguinte e com o tal amigo que disse que precisava me conhecer.

Quando o vi entrar na loja com o outro, um senhor de uns setenta anos como Apolônio, só que bem mais magro, que andava meio curvado, e com uma grande calva que lhe deixava uns poucos resíduos de cabelos nas laterais e na parte de trás da cabeça. O tempo tinha sido bem mais generoso com o meu cliente do que com seu amigo.

– Lourival, esse é o rapaz que lhe falei. Sabe tudo de livro, disse Apolônio, animado.

Lourival me estendeu a mão branca e ossuda e a apertou tão frouxamente que me pareceu que uma criança de quatro anos seria capaz de fazer aquele simples gesto com muito mais firmeza.

– Prazer, falei, mas, de fato, sentia tanto prazer em conhecê-lo quanto teria de conhecer um fantasma. Aliás, o próprio Apolônio já estava me incomodando um bocado, o que dirá então do seu amigo de quem sequer simpatizei à primeira vista.

Apesar de seu aspecto frágil, Lourival tinha um olhar esperto e vivaz, dando a entender que, da dupla, era ele o elemento dominante. Ao menos, foi isso o que me pareceu durante a conversa que tivemos. Apolônio era mais expansivo e falante, mas era Lourival que, mais cauteloso e introspectivo, analisava as situações, emitia os vereditos e direcionava a conversa que, mais uma vez, versou sobre livros.

Lourival também me pareceu mais lido do que Apolônio. Quer dizer, ao menos conhecia autores, livros, e os citava de cabeça, apesar de não parecer conhecê-los completamente.

– Você tem algum livro que possa me indicar ou algum autor parecido com o Kafka? Acabei de ler O castelo e gostei muito.

Não tinha, mas me lembrei de O deserto dos tártaros, de Dino Buzzati. Falei que era um livro que estava esgotado no momento, que não conseguiria nem por encomenda, mas que ele poderia encontrar em qualquer sebo. Expliquei que, para muitos, o livro era considerado uma das melhores obras escritas no século XX e que seu autor havia sido considerado uma espécie de Kafka, por trabalhar seus temas de forma alegórica.

Foi falando sobre este livro que descobri que Apolônio era um militar aposentado – chegou até o posto de sargento do Exército. Aquilo me pareceu revelador por explicar em parte algumas opiniões radicais que havia dado durante as nossas conversas.

Mais interessante que essas revelações, porém, foi ele ter me dito que havia “devorado” o livro do Eça que havia levado na semana anterior e que havia “arrebentado” de tanto rir. Havia gostado tanto d’A relíquia que pensara em me ligar para agradecer assim que o fechara, mas achou melhor esperar para fazer isso pessoalmente e aproveitar para trazer o amigo para me conhecer.

Naquela ocasião, nosso encontro foi mais curto. Lourival tinha um compromisso e não podia ficar muito tempo. Não levaram nenhum livro, mas Apolônio disse que viria na semana seguinte com mais tempo para conversarmos, o que me deixou numa aflição dos diabos, sem saber o que aquela estranha dupla queria, de verdade, comigo.

A espera pelo reencontro foi mais tormentosa. O motivo foi que o pessoal da livraria havia notado as visitas de Apolônio – uma pessoa que lhe procura três vezes seguidas e com quem você conversa durante mais de uma hora, de fato, não se pode dizer que é alguém a quem as pessoas podem deixar de notar, especialmente numa livraria cujo movimento não é dos maiores.

E, além de notar, começaram a fazer brincadeiras de mau gosto sobre o assunto, principalmente depois que o Alcides, o outro vendedor, havia ouvido Apolônio prometer que viria com mais tempo para conversarmos.

Então, durante uma semana, pelo menos três vezes tive que aguentar as gracinhas do meu colega, um grande babaca, coisas do tipo: “e aquele seu cliente veio?” ou “aquele tiozão gostou mesmo de você, né?” ou “ontem eu vi um coroa parecido com o seu cliente em tal lugar” (e o “tal lugar” era um conhecido ponto de prostituição de travestis).

Pior que nem pude dizer nada, falar o quanto aquela situação me irritava, porque estava realmente preocupado com aquilo. O incômodo de ver Apolônio aparecer às quartas-feiras – foi aí que me chamou a atenção ele sempre vir no mesmo dia da semana, certamente era um sujeito metódico – para tomar uma hora de meu tempo e me ouvir falar sobre livros.

Então, na quarta-feira, sem falta, o homem apareceu como prometido e, objetivo, foi logo fuzilando:

– O Lourival gostou muito de você, rapaz!

– Ah, foi? Tudo bem? falei, apertando a mão que me estendia. Só que, ao contrário do amigo, seu aperto era firme, forte, do tipo que pode esmagar os dedos de uma pessoa desatenta.

– Sim. Gostou muito. Ele e o pessoal me autorizaram a lhe fazer uma proposta.

– Pessoal?! Proposta?! falei, quase num grito de surpresa.

– Sim, proposta.

– Proposta de quê? E que pessoal é esse, senhor Apolônio? perguntei enquanto sentia o chão se abrir sob meus pés.

– Proposta para entrar para o nosso clube, disse ele, com um sorriso malicioso.

Respirei fundo, olhei ao redor para ver se alguém nos observava – não havia ninguém por perto, apenas uma cliente olhava a mesa de gastronomia e o Alcides, no fundo, se entretinha com uma lista de devolução – e falei de forma pausada, tentando me acalmar:

– Que clube, senhor Apolinário? Que pessoal?

Ele sorriu novamente, olhou em torno como eu fizera, e respondeu:

– Não posso falar deles aqui, agora. Você precisa se encontrar com a gente, comigo, com o Lourival e uns amigos, amanhã, pra falarmos dele pessoalmente.

Quase sem forças, mas louco de vontade de partir para cima daquele velho idiota, insisti:

– O senhor está brincando, né? Que… clube… é… esse? Diga… por favor.

– Não posso, rapaz. É sério – disse ele, desta vez, quase em tom de desculpa. – Amanhã é sua folga, não é?

Confirmei balançando a cabeça como um autômato, lembrando vagamente que, em alguma das nossas conversas, devo ter lhe dito que folgava às quintas-feiras e ele, como sujeito metódico que era, deve ter guardado a informação.

– Então, amanhã, às sete da noite, vá até este endereço – disse, me entregando um papel. – A gente estará esperando você lá e falaremos sobre o clube.

Olhei para o fundo da loja e vi que o Alcides nos observava.

– Vá até lá. Você não vai se arrepender, disse, depois saiu.

Confesso que pensei muito se devia ou não ir até ao tal clube. Aquela estória estava realmente me dando nos nervos e Apolônio, há muito, havia ultrapassado o limite da conveniência com suas visitas à loja. Na verdade, eu estava decidido a não comparecer ao encontro, mas, pouco antes do horário marcado, mudei de ideia. O endereço não era muito longe de casa, o que facilitou a minha decisão de ir até lá na última hora e descobrir do que, de fato, se tratava aquela bobagem de clube para o qual havia sido convidado.

O endereço ficava numa rua pequena e meio morta, que começava numa avenida movimentada e terminava numa rua paralela, cerca de duzentos metros adiante. Era uma casinha azul, antiga, de muro baixo, com cerca de um metro de altura, e que, pela aparência, remetia há tempos bem mais tranquilos do que os atuais. Sob um precário toldo preto de metal, descansava um fusca branco bem conservado, que aumentava ainda mais a minha sensação de que aquela rua devia ter parado uns trinta anos ou mais no tempo.

Não havia qualquer campainha à vista, bati palmas e, para minha surpresa, quem veio atender foi uma senhora de uns sessenta e poucos anos, bem vestida, numa camisa de estampa florida e uma calça marrom escura.

– Sim, pois não…

– Ah… olá! Me deram este endereço… hesitei, considerando que poderia ter me enganado.

– Sim!

– Não sei se estou certo, mas é aqui que mora o Apolônio?

– Ah, não, mas ele está chegando, disse a mulher abrindo um sorriso. – Você é o rapaz da livraria, né?!

– Isso!

– Ele me disse que você viria. Pode entrar, por favor.

Chamava-se Irene e era amiga do militar aposentado. Lourival já estava na casa, que parecia até mais espaçosa por dentro do que dava a impressão de fora, e, a muito custo, tentou me fazer ficar mais à vontade em meio aquela gente estranha.

Na verdade, além dele e da dona da casa, havia mais um casal, Aguiar e Amália, que beirava os oitenta anos, e que apenas balançavam a cabeça, assentindo ou não com algo, quando Irene lhes fazia alguma pergunta. Lourival não lhes dava qualquer atenção, parecia ter acabado de conhecê-los também.

Ficamos na sala, onde havia uma ampla mesa de centro, com vinho e canapés que me ajudaram a ficar mais relaxado, e dois sofás grandes. Apolônio apareceu quinze minutos depois da minha chegada e, como de hábito, louvou meus conhecimentos literários, pedindo para que eu falasse sobre alguns lançamentos literários que havia gostado.

Lourival aproveitou para dizer que havia comprado O deserto dos tártaros num sebo do centro, mas ainda não havia começado a ler por falta de tempo. Descobri que era contador e que estava muito sobrecarregado com as declarações de imposto de renda dos clientes.

Ao final da noite, a anfitriã, muito simpática, me fez jurar que voltaria na semana seguinte para falar sobre mais “livros maravilhosos”.

– Não é todo dia que temos a oportunidade de ter uma aula como a que você nos deu, arrematou.

Lisonjeado, prometi que certamente voltaria, pois a noite havia sido bastante agradável. Fui realmente sincero, já que até o Lourival, para minha surpresa, se mostrou um sujeito bastante divertido depois do terceiro ou quarto copo de vinho.

Com o tempo e a maior intimidade que adquirimos, além de um pouco de habilidade da minha parte, pedi para Apolônio não aparecer mais no trabalho. Disse ao “meu cliente” que estava sendo desconfortável ter de explicar às pessoas por que ele ficava tanto tempo conversando comigo sendo que não comprava quase nada – não queria falar a ninguém sobre o clube. Ele não gostou muito, mas acabou aceitando diminuir as idas à livraria, pois continuaríamos a nos encontrar às quintas-feiras.

Da minha primeira visita até agora, quase seis meses depois, o número de frequentadores do clube só fez aumentar. Além dos quatro daquele dia, agora há mais cinco fixos e três esporádicos – todos senhores e senhoras ávidos por descrições e opiniões sobre livros que nunca vão ler ou que nunca sequer ouviram falar -, com grandes chances de aumentar ainda mais pela propaganda que eles próprios fazem do clube e isso me faz ter grandes planos.

Acredito que poderei deixar a livraria, me dedicando exclusivamente ao meu mestrado, quando o clube chegar a quinze sócios fixos, mais uns sete esporádicos. Até lá, talvez, tenhamos de encontrar outro local de encontro, já que a casa da Irene não está preparada para receber tanta gente.

Depois de saber quanto eu ganhava no meu emprego, Apolônio, por iniciativa própria, mas contra a minha vontade, propôs aos sócios uma “ajuda de custo” para que eu continuasse indo, todas as quintas, falar sobre livros.

– Rapaz, você tem um grande talento! Não pode desperdiçá-lo num lugar que não lhe dá o menor valor, diz meu novo amigo, assim que coloca discretamente o dinheiro no bolso da minha camisa, todas às vezes que nos despedimos com um fraternal abraço.

Quanto a isso, não há duvida: ele tem toda razão.

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