Tags

, ,

capa tia julia

Capa: edição Círculo do livro

 

Trecho:

 

“– Os amores de um bebê e uma anciã que, ainda por cima, é algo assim como sua tia – disse tia Julia, enquanto atravessávamos o Parque Central. – Sob medida para uma novela de Pedro Camacho.

Lembrei-a que era apenas minha tia afim e ela me contou que, na novela das três, um rapaz de San Isidro, belíssimo e grande surfista, tinha relações nada menos que com sua irmã, a quem, que coisa horrorosa, engravidara.

– Desde quando ouve novelas? – perguntei.

– Peguei o costume de minha irmã – respondeu. – A verdade é que essas da Rádio Central são fantásticas, uns dramalhões que partem a alma da gente.

Então me confessou que às vezes ela e tia Olga ficavam com os olhos cheios de lágrimas. Foi o primeiro indício que tive do impacto que a pena de Pedro Camacho causava nos lares limenhos. Recolhi outros, nos dias seguintes, em outras casas da família. Aparecia na casa de tia Laura e ela, mal me via no umbral da sala, me ordenava silêncio com o dedo nos lábios e permanecia inclinada sobre o rádio como se quisesse não apenas ouvir, mas também cheirar, tocar a (trêmula ou ríspida ou ardente ou cristalina) voz do artista boliviano. Aparecia na casa de tia Gaby e as encontrava, a ela e a tia Hortensia, desmanchando um novelo com dedos distraídos, enquanto acompanhavam um diálogo cheio de palavras esdrúxulas e de gerúndios de Luciano Pando e Josefina Sánchez (…)”

 

Esta semana, no dia 28 de março, o peruano Mario Vargas Llosa (1936) completa 81 anos. Último autor latino-americano a receber o Nobel de Literatura, em 2010, Llosa tem uma vasta produção – seu primeiro livro são os contos de Os chefes, publicado em 1959 – que vai desde romances e contos até ensaios, teatro e títulos infantis, além de ter exercido o jornalismo e ter sido professor em grandes universidades da Europa e dos Estados Unidos.

Ao lado do colombiano Gabriel Garcia Márquez (1927-2014), Llosa foi (e é) um dos expoentes da geração latino-americana dos anos 1960. Uma geração que ficou conhecida como “Boom latino-americano”, que veio revigorar a produção literária não apenas local como estender sua influência por uma grande parte do planeta e maravilhar gerações de leitores, apesar das grandes diferenças de estilo e temática entre seus autores.

Publicada em 1977, Tia Julia e o escrevinhador é uma das principais obras deste peruano de Arequipa e, segundo o próprio autor, seu livro mais lido. O romance mistura memória e ficção, ao retratar o período em que o autor, em meados dos anos 1950, conheceu sua primeira esposa, Julia Urquidi, quatorze anos mais velha, desquitada e irmã da mulher que se casou com o seu tio.

O livro

Marito, para a família, ou Varguitas, para os amigos, é um jovem de dezoito anos que ainda mora com os avós maternos e divide seu tempo entre a rádio Panamericana, onde trabalha como chefe de redação do noticiário, os bancos da faculdade de Direito da Universidade San Marcos, onde quase nunca aparece antes dos exames finais, e a tentativa quase sempre frustrada de escrever um conto com o material que aparece na redação do noticiário ou alguma história ouvida de amigos.

No entanto, com a chegada de tia Julia, vinda da Bolívia após separar-se do marido, para morar com sua irmã Olga e Tio Lucho – irmão da mãe do rapaz -, ambos se apaixonam e começam um romance. Porém, como é de se esperar, é preciso ter cuidado para não gerar um escândalo no seio da grande família conservadora e o segredo da relação cria um ambiente ainda mais excitante.

Ao mesmo tempo em que descobre o amor romântico, Varguitas também conhece pessoalmente o primeiro escritor que merece esta definição: Pedro Camacho, o escrevinhador de radionovelas.

Boliviano como tia Julia, Pedro é contratado pelos Genaros (pai e filho) para escrever e dirigir os dramalhões que vão ao ar pela Rádio Central, emissora mais popularesca da dupla de empresários do ramo da comunicação de Lima, que funciona no mesmo prédio da Panamericana.

O intuito inicial dos empresários era o de diminuir os custos com a importação das novelas cubanas, mas as radionovelas de Pedro, surpreendentemente até, pela falta de conhecimento que o autor tem pelo público local, se tornam um sucesso estrondoso. O boliviano escreve os folhetins radiofônicos sem parar e acompanha de perto as transmissões ao vivo dos capítulos.

Figura histriônica e pedante, de aparência frágil embora com uma autoestima gigantesca, os dramas, romances e tragédias que saem da pena do escrevinhador boliviano tomam proporções espantosas, mobilizando quase toda a audiência de Lima, enquanto o trabalho lhe toma praticamente dezesseis horas diárias de dedicação, segundo estimativas feitas por Varguitas.

Os lucros dos Genaros vão às alturas com a enxurrada de patrocinadores interessados em vincular suas marcas às obras radiofônicas de Camacho, apesar de um ou outro problema ocasional que o artista boliviano causa, principalmente devido a uma implicância mal explicada em relação aos argentinos, à qual ele faz questão de reiterar em todo novo episódio de suas novelas.

Nesses momentos, os patrões recorrem a Varguitas para tentar controlar o escriba do altiplano. A confiança dos patrões de que o jovem repórter seria capaz de deter o ímpeto antiportenho do outro se dá por motivos meio enviesados: os Genaros o consideram algo como um artista, por ter publicado um conto num suplemento dominical, e ter certa proximidade com o boliviano – eles tomam um cafezinho juntos de vez em quando; Pedro, na verdade, bebe chá de ervas.

No entanto, o excesso de trabalho acaba causando problemas de saúde ao escrevinhador, tumultuando ainda mais sua mente já propensa aos excessos e às manias, e leva Camacho a um colapso que se refletirá em seu trabalho.

Pretenso candidato a escritor e literato, Varguitas se comove e se encanta com a capacidade de produção de seu colega, embora se assuste com o total alheamento deste com qualquer coisa que não seja a sua obra.

Enquanto sonha em morar numa água-furtada em Paris ao lado de tia Julia, onde imagina se tornar um escritor, driblando a curiosidade dos familiares e conversando com Pedro Camacho sobre a sua assombrosa produção artística, o jovem jornalista vive sua própria história de sonho, romance e delírio, muito parecida com os enredos mirabolantes das radionovelas do boliviano sem, no entanto, a menor perspectiva de futuro para os seus problemas e inquietações.

Tia Julia e o escrevinhador traz muito humor, algo não tão comum dentro da obra de Vargas Llosa, exceção feita a Pantaleão e as visitadoras, publicado um ano depois. Se num primeiro momento a temática do livro se mostra convencional, a alternância da narrativa da história principal com as novelas de Pedro Camacho, cria uma sensação no leitor de que a narrativa real do romance é influenciada pelos folhetins radiofônicos do boliviano. Talvez seja este um dos segredos para o sucesso do livro: a forma magistral como Vargas Llosa realiza essa articulação entre os planos narrativos, que passou, inclusive, a se constituir uma das características de toda a sua produção literária.

Os personagens coadjuvantes do romance contribuem para que esse clima engraçado permaneça por toda a obra: Javier, o amigo meio intelectual de Marito e sua lealdade extrema para com ele, além de seu amor incondicional para a voluntariosa prima Nancy; e a dupla de redatores da rádio, Pascual, um aficionado por tragédias grotescas e sangrentas que poluem o noticiário da rádio, quando Varguitas não está por perto para censurá-lo, e enchem a redação de reclamações dos ouvintes mais sensíveis, e o Grande Pablito, espécie de faz-tudo da rádio, que acaba designado por Genaro filho para auxiliar na redação do noticiário, apesar de ser analfabeto. Todos eles cúmplices na tentativa de levar o casal Varguitas e tia Julia para o caminho da felicidade.

Tia Julia e o escrevinhador é um livro sobre pessoas comuns, que vivem, amam, sofrem, sobretudo por amor, seja por alguém (tia Julia/Marito) ou por algo, um trabalho ou uma vocação (Pedro Camacho/Varguitas) e como a própria ficção age para amenizar essa angústia. Portanto, também pode ser considerado um livro de amor à ficção escrito por um dos maiores escritores de sua época. Um romance marcante, inesquecível para aqueles que amam a ficção tanto quanto o seu autor.

 

Trecho:

“(…) Na minha própria casa, meus avós, que sempre tiveram ‘gosto pelas novelinhas’, segundo a avó Carmen, haviam agora contraído uma autêntica paixão radioteatral. Acordava de manhã ouvindo os acordes do prefixo da rádio – preparavam-se com uma antecedência doentia para o primeiro radioteatro, o das dez -, almoçava ouvindo o das duas da tarde, e a qualquer hora do dia que voltasse, encontrava os dois velhinhos e a cozinheira metidos a um canto da salinha de visitas, profundamente concentrados no rádio, que era grande e pesado como um aparador e que para nossa infelicidade, punham sempre a todo volume.

– Por que a senhora gosta tanto das novelas? – perguntei um dia à avozinha. – Que é que têm que os livros não têm, por exemplo?

– São uma coisa mais viva, ouvir falar as personagens, é mais real – explicou, depois de pensar. – E depois, na minha idade, os ouvidos se comportam melhor que os olhos.

Tentei uma pesquisa parecida nas casas de outros parentes e os resultados foram vagos. Tias Gaby, Laura, Olga, Hortensia gostavam de novelas porque eram divertidas, tristes ou fortes, porque as distraíam e faziam sonhar, viver coisas impossíveis na vida real, porque ensinavam algumas verdades ou porque a pessoa tinha sempre seu pouquinho de espírito romântico. Quando lhes perguntei por que gostavam mais de novelas de que livros, protestaram: que bobagem, como se podiam compará-los, os livros eram a cultura; as novelas, simples divertimento para passar o tempo. O certo, porém, é que viviam grudadas no rádio e que jamais vira nenhuma delas abrir um livro. Em nossas andanças noturnas, tia Julia resumia alguns capítulos que a haviam impressionado e eu lhe contava minhas conversas com o escriba, de modo que insensivelmente Pedro Camacho passou a ser componente de nosso romance.”

 

*A edição lida para esta resenha foi a do Círculo do livro traduzida por Remy Gorga, filho, e publicada nos anos 1980. Atualmente, no Brasil, a obra de Mario Vargas Llosa é publicada pela Alfaguara e Tia Julia e o escrevinhador tem a tradução de José Rubéns Siqueira.

Advertisements