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capa O espírito da ficção científica

Capa: Divulgação

 

Trecho:

“Acendi um cigarro. Era agradável caminhar sem ter que arrastar a moto. Tínhamos enveredado por um bairro de ruas pequenas, com árvores raquíticas e prédios com mais de três andares.

– Gostaria de ir embora daqui de uma vez por todas – disse José Arco. – Com a moto e minha bandeira mexicana.

– Diga do que não gostou do dr. Carvajal.

– Da sua cara de caveira – pronunciou cada palavra com uma fé cega. – Parecia um esqueleto de Posada tirando o pulso dos pobres poetas jovens.

– É – falei -, agora que penso nisso…

– Era o esqueleto de Posada, merda, que enquanto dança tira o próprio pulso do próprio país.

De repente senti que nas palavras de José Arco havia uma parte correta verdadeira. Tentei recompor o rosto do dr. Carvajal, a sala da casa, os objetos corriqueiros, a maneira de nos cumprimentar e de se levantar para buscar as revistas, seus olhos talvez escrutassem outra coisa fora dali, enquanto falávamos.

– Percebi quando você estava contando o caso dos jogos ianques. Ele não percebeu que eu percebi.

– Percebeu o quê?

– A maneira de olhar para a gente, de te olhar, como se tudo o que você dissesse fosse arquiconhecido por ele… Por um instante pensei que sim, que o sacana sabia de tudo…

Sem nos darmos conta, tínhamos parado de andar. O céu havia experimentado uma mudança súbita: em alguma parte do DF chovia e, a julgar pelas trovoadas e relâmpagos, a água ia cair em cima de nós sem mais tardar. Meu amigo sorriu, tinha se sentado no selim da moto e parecia esperar a chuvarada.

– Só de pensar me dá medo – falei.

– Não é para tanto. Parece que vai chover.

– Tinha cara de esqueleto, é verdade – falei.

– Bom, depois pensei que não era que ele soubesse de tudo, mas que estava cagando para tudo aquilo.

– Pode ser que sim, pode ser que não.” (pgs. 140 -141)

 

Romance escrito no início dos anos 80, O espírito da ficção científica conta de forma não linear, episódica, meio caótica, ao melhor estilo do chileno Roberto Bolaño (1953 – 2003), a história dos jovens chilenos Remo Morán – primeiro alter ego criado pelo autor – e Jan Schrella que vivem na cidade do México (DF).

Remo é um poeta iniciante que vaga pela capital mexicana em busca de aventuras e inspirações para os seus versos enquanto seu companheiro, Jan, passa os dias trancado no apartamento que dividem em permanente estado de delírio escrevendo cartas para seus autores preferidos de ficção científica.

Não há um fio condutor na narrativa, fato que não deixa de ser estranho em se tratando de uma narrativa de Bolaño, o chileno que se tornou um ícone de sua geração e foi saudado como um dos grandes autores latino-americanos, sobretudo após a sua morte em 2003. O chileno foi um autor que viveu intensamente a literatura, mas que, infelizmente, não teve em vida o devido reconhecimento por seu trabalho.

Excetuando-se a publicação de alguns poucos livros como A pista de gelo (1993), A literatura nazi na América (1996), Estrela distante (1996), Noturno do Chile (2000) e Os detetives selvagens (1998) que lhe valeram certo renome, alguns prêmios e quase nenhum dinheiro, a maior parte de seus livros foram editados após o seu falecimento, como o monumental 2666 (2012), considerado por muitos sua obra-prima, ao lado de Os detetives selvagens, o instigante Terceiro Reich (2011), o frenético As aventuras do verdadeiro tira (2013) e agora este O espírito da ficção científica.

Violência, política, humor, muita metaliteratura (a literatura que fala sobre si mesma) em narrativas de suspense policial são algumas características desse autor que, mais do que o reconhecimento da crítica e do público, passou a ser reverenciado pelos próprios escritores.

No entanto, seu falecimento precoce acabou atraindo em torno de sua obra e de sua personalidade pouco convencional uma aura quase de mito literário: um gênio incompreendido que escrevia para leitores que estavam muito à frente do período em que escreveu.

Embora os romances de Bolaño sejam realmente de grande qualidade, com enredos fortemente influenciados pelas narrativas policiais, demonstrando ser o autor um leitor voraz, de sólida cultura literária, e um amplo domínio tanto dos temas abordados quanto das técnicas literárias, os livros inéditos que têm sido publicados parecem diminuir a aura de qualidade indiscutível desta obra, que passou a ser referência para uma geração inteira de novos autores latino-americanos. E, infelizmente, O espírito da ficção científica confirma essa tendência.

No livro, em alguns momentos, notamos assuntos abordados pelo chileno em seus romances posteriores: alguns deles surgem quando Remo e seu amigo José Arco visitam o Dr. Ireneo Carvajal, mecenas literário e diretor do Boletim lírico do Distrito Federal, conversam sobre vários assuntos como a revolução na América Latina (quase todos os livros de Bolaño tratam mais ou menos sobre isso ou, mais exatamente, sobre a reação a uma revolução marxista na América), citando de passagem encontros de aficionados em jogos de tabuleiro que servem para reuniões de neonazistas (Terceiro Reich) e uma sociedade de poetas militantes de esquerda visceralmente contra o establishment literário da época e de seu principal símbolo, o poeta mexicano Octávio Paz (1914-1998), futuro Prêmio Nobel de literatura em 1990 (Detetives selvagens).

Outro momento em que O espírito da ficção científica descortina um caminho que Bolaño viria a explorar aparece no último capítulo do livro, intitulado Manifesto mexicano, em que narra as aventuras sensuais de Remo e sua namorada Laura pelos banhos públicos do DF e os encontros com vários personagens curiosos, frequentadores desses lugares, que tanto têm de sensual quanto de sórdido. Em muitos aspectos, os trechos antecipam o que o autor desenvolveu em As agruras de um verdadeiro tira.

De alguma forma é realmente interessante perceber quanto certos temas eram recorrentes quase que à obsessão a Bolaño e, de fato, sob o ponto de vista de um estudo literário profundo sobre a obra deste chileno, que marcou a literatura produzida numa parte considerável do planeta no século XXI, a publicação do que tem sido encontrado em seu espólio é algo que se justifica.

No entanto, no geral, O espírito da ficção científica surge mais como um romance incipiente, de um escritor que ainda buscava o seu caminho dentro do universo ficcional do que uma obra que o seu autor autorizasse a publicação depois de ter se tornado um ícone geracional.

A partir dessa questão – se Bolaño autorizaria a publicação de O espírito da ficção científica caso estivesse vivo -, outra pergunta torna-se igualmente pertinente: será que a própria publicação destas obras embrionárias – as quais o próprio autor pode ter notado o seu caráter experimental e menor dentro de seu projeto literário – vem atender uma demanda de apaixonados pela literatura de Bolaño ou suprir o vácuo comercial de novos títulos de um autor genial que deixou de produzir por conta de seu desaparecimento precoce?

Talvez as duas respostas sirvam para esta questão, dependendo do lado do balcão onde está quem tenta respondê-la, e, sendo assim, Bolaño não seria o primeiro revolucionário a ter o seu legado apropriado pelo “Deus Mercado” que soube fazer um bom uso dele.

 

O espírito da ficção científica

Roberto Bolaño

Companhia das letras

Tradução: Eduardo Brandão

182 pgs.

 

Trecho:

 

“- Está cheio de gente assim. Chamam-se a si mesmos de filhos da Revolução mexicana. São interessantes, mas na verdade são uns filhos da grande puta, não da Revolução.

– Pode ser que sim, pode ser que não – falei enquanto olhava para o céu escuro, negríssimo. O temporal vai pegar a gente.

– Não tenho raiva deles, ao contrário, me assombra ver o quanto aguentam a solidão – José Arco estendeu as mãos com as palmas para cima. – De uma forma muito, mas muito contorcida mesmo, se saíram com esta: são os país anônimos da pátria. Já caiu uma gota em mim. – Ele levantou a palma da mão até o nariz e a farejou como se a chuva tivesse, e tem, um cheiro.

– O que você quer que eu diga… Maldita moto de merda, vamos ficar ensopados…

 – Eu não poderia.

– Não poderia o quê? – As gotas de chuva começaram a quicar na carroceria escura de um Ford dos anos 50 parado em frente a nós e que até então não havíamos visto: era o único carro na rua vazia.

– Não poderia estar tão só, tão silencioso, tão acertado comigo mesmo e com meu destino, se me permite a licença.

– Pô…

No rosto de José Arco apareceu um sorriso largo e brilhante.

– Vamos embora, aqui perto tem a oficina de um amigo. Vamos ver se conserta a moto e nos convida para um café.” (pgs. 141-142)

 

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