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capa Um amor

Capa: Divulgação

 

Trecho:

“Esperou quatro dias, agora no escritório a campainha do telefone subia, espiralando, pelas suas costas e o eco se propagava, cortando-lhe a respiração. Sim, pensa ele, com todo o dinheiro de que dispõe agora vai aguentar firme por muito tempo, isso porque está certa de tê-lo sempre às ordens, ela deve estar rindo, aposto, e pensa no sofrimento de Antonio, pode-se dar ao luxo de acordar a qualquer hora da noite e dizer pronto agora nesse exato momento ele está pensando em mim, que satisfação isso deve lhe dar.” (pg. 229)

 

Antonio Dorigo é um arquiteto de quarenta e nove anos, sócio de um escritório rentável em Milão. A estabilidade financeira, o renome que tem em sua área de atuação e um cômodo celibato fazem um exemplo de um solteirão convicto burguês de meia-idade.

Para os momentos em que a solidão ou o desejo apertam, Dorigo recorre à casa de Dona Ermelina, cafetina discreta que atende homens de alguma condição financeira, que não podem comprometer suas vidas e famas de bons cidadãos.

E é numa das visitas à casa de encontros de Dona Ermelina que Dorigo conhece Laide, uma bailarina de dezoito anos do teatro Scala, vinda de uma cidadezinha interiorana, que vende o corpo para reforçar o orçamento enquanto aguarda ser guindada para o estrelato devido apenas ao “seu talento”.

Embora bonita e firme de corpo, principalmente em seu belíssimo par de coxas, o que encanta o arquiteto, Laide não apresenta nada demais em relação à média das mulheres de sua idade quanto à beleza ou à inteligência, qualidades que chamariam a atenção de não somente de um cinquentão vivido e escolado nas peças que a vida costuma pregar, mas de qualquer pessoa medianamente sensata de qualquer idade. Então, há de se reconhecer que é apenas a juventude da voluntariosa Laide que atrai Dorigo como o sangue novo atrai o vampiro.

Mas o que parecia ser apenas mais uma aventura passageira entre um homem experiente e uma jovem ambiciosa torna-se uma obsessão para o arquiteto e uma descida ao inferno das paixões arrasadoras.

Em pouco tempo, Dorigo se vê enredado pelas mentiras de sua amante, passando por vexames diversos para além do limite do tolerável – como ser apresentado como tio dela para as mais variadas pessoas, inclusive para os supostos amantes de Laide, que, por sua vez, nega veementemente tê-los, e perder dias de trabalho e reuniões importantes no escritório por conta de um capricho da moça -, porém, sem forças para reagir de forma enérgica ou coragem para pôr fim ao seu sofrimento.

O fato de Dorigo poder acabar com o relacionamento a qualquer momento sem maiores consequências não parece diminuir a sua angústia, aliás, pelo contrário. Quando a própria Laide, em certo momento, lembra ao arquiteto que se ele a abandoná-la nunca mais a verá, seu desespero e terror pela afirmação parecem aniquilá-lo, o que leva a bailarina a afirma categoricamente que Dorigo é dela.

Os papeis, então, se invertem – o objeto (Laide) torna-se “proprietário de seu dono” – e o anúncio com que ele se dá é tão eloquente, por ser enunciado pelo próprio objeto amoroso, que suas consequências são devastadoras.

Durante toda a vida, o italiano Dino Buzzati (1906-1972) se dedicou ao jornalismo e à ficção. Em Um Amor, ele criou uma história de amor agônica, transformando algo banal – o pagamento por serviços sexuais entre um homem mais velho e uma mulher mais nova –, na consciência do ocaso por parte de um homem de meia-idade, tido como exemplo em termos de realização pessoal e financeira, transformado num mero brinquedo de uma oportunista, que representaria o oposto do que prega uma sociedade moralista, mas que, no fundo, baseia suas relações na aparência e na troca hipócrita de interesses.

Publicado em 1963, Um amor é um livro bem diferente de O deserto dos tártaros, publicado vinte e três anos antes, considerado sua obra-prima, e que levou Dino Buzzati a ser comparado a Franz Kafka (1883-1924), por fazer de seu romance uma alegoria da própria vida e de sua falta de sentido.

(Em O deserto dos tártaros, Giovani Drogo é um jovem tenente deslocado para um forte isolado por um deserto numa fronteira remota do país – que nunca é nominado, pois, localizá-lo geograficamente, seria acabar com o sentido universal da matéria com que Buzzati trabalha – onde nada acontece, a não ser a expectativa que uma lendária invasão de um povo inimigo – os tais tártaros – ocorra.

Assim os dias de Drogo e seus companheiros de caserna vão se consumindo em meio ao vazio e ao absurdo de se aguardar que uma promessa de um passado remoto venha dar sentido àquela espera infinda e, quiçá, transformar a todos em heróis, mesmo que lhes custe suas vidas. Mas a vida, na verdade, Drogo é forçado a reconhecer, já foi perdida na própria espera inócua de que algo aconteça.)

Sobre Um amor, o autor chegou a dizer:

“Não é um livro calculado, construído. Eu o escrevi com a mesma espontaneidade de O deserto dos tártaros. Ele expressa o meu estado de espírito e a minha experiência. Mas carreguei um pouco nas tintas. E respondo aos que o acusaram de ser totalmente autobiográfico dizendo que a protagonista não existe, e que, se a ela atribuí alguns traços da moça que amei, também lhe dei outros, de outras mulheres.”**

Ao reconhecer as fortes tintas autobiográficas, Buzzati mostra ser um autor bastante eclético, capaz tanto de trabalhar com a autoficção – fenômeno que hoje infesta as prateleiras de literatura, especialmente as produzidas no Brasil – quanto a construir um cultuado romance alegórico, incluído em muitas listas dos melhores livros de ficção do século XX. Um escritor como poucos e que sempre se pode reler, especialmente hoje em dia, quando a qualidade literária do que é publicado parece muito questionável.

Trecho:

“Pois bem ele vai aprender direitinho comigo: não vou telefonar durante pelo menos um mês, dinheiro eu tenho e assim no fim do mês ele virá lamber meus pés mais manso do que antes (…) então vou enlouquecê-lo de ciúme, já sei o que está imaginando, meu titio querido acha que estou tendo um homem atrás do outro e fica pálido só de pensar acende um cigarro atrás do outro e o desespero deve ser tanto que resolve procurar umas garotinhas na esperança de sentir algum prazer e poder esquecer Laide por algumas horas pelo menos e no entanto será muito pior para ele ah ah! Primeiro porque garotas como Laide há muito poucas por aí (…) Assim Antonio reconstrói os pensamentos de Laide e a odeia porque sabe que tudo é verdade, antes, é pior. Porque Laide nos seus cálculos estratégicos leva em conta apenas seus atributos físicos e não tem noção do que representam para Antonio o seu porte, o seu jeito de andar, de falar, de mexer os lábios, de rir, de fazer caretas, de beijar, aquela sua deliciosa pronúncia típica de Milão, com aquele peculiar erre aristocrático.” (pg.229- 230)

 

Um amor

Dino Buzzati

Nova Fronteira

Tradução: Tizziana Giorgini

295 pgs.

 

*A edição lida para a resenha foi a da 2ª edição, publicada em 1985 pela Nova Fronteira. No momento, no Brasil, este livro se encontra esgotado.

** Trecho extraído da orelha da 2ª edição brasileira do livro publicada pela nova Fronteira.

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