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o-tribunal-de-quinta-feira

Capa: Divulgaçaõ

 

 

Trecho:

“Todo fascista julga estar fazendo o bem. Todo linchador age em nome de princípios nobres. Toda vingança pessoal pode ser elevada a causa política, e quem está do outro lado deixa de ser um indivíduo que era como qualquer indivíduo, em meia dúzia de atos entre milhares praticados ao longo de quarenta de três anos, para se tornar sintoma vivo de uma injustiça histórica e coletiva baseada em horrores permanentes e imperdoáveis. Nesse sentido, os quatro dias desde o último domingo têm sido gloriosos para Teca: aqui temos o homem com quem ela foi casada, exposto em público em sua indiscrição e covardia, e cada pedra jogada nele é uma declaração pública de que não praticamos nem toleramos nada parecido com o que ele fez. O que, evidentemente, não inclui a indiscrição de entrar numa conta de e-mail alheia. Nem a escolha de encaminhar as mensagens para outras pessoas. Nem a consciência de que pessoas acabarão vazando as mensagens. Nem que o vazamento mudará a vida de todos os envolvidos, e para sempre carregarão o peso da reação que você sabe que esse tipo de mensagem acarretará em 2016, e por um segundo você pensou que em alguns casos essa reação possa ser injusta, ou desproporcional, e que no instante seguinte a isso tudo não haverá mais chance de voltar atrás. Teca selecionou os trechos mais chocantes dos textos, na ordem que mais fazia sentido e mais potencializava o escândalo, a tarde toda do domingo para montar esse dossiê com método, e depois me ligou para falar em maturidade, em respeito, em empatia, em boa vontade.” (pg. 72)

 

O novo romance do gaúcho Michel Laub (1973), O tribunal da quinta-feira, é um livro que aborda um assunto ao qual a maioria das pessoas está exposta nos dias de hoje, ao menos aquelas que utilizam as redes sociais: as consequências dramáticas que um fato, verdadeiro ou falso, pode ter ao ser repercutido nas redes sociais e de como essa repercussão pode afetar a vida de um indivíduo para sempre.

Narrado em primeira pessoa e em capítulos curtos, o livro conta a história do publicitário José Victor, quarenta e três anos, que tem suas trocas de e-mails com um amigo vazadas nas redes sociais pela ex-mulher, Teca, arquiteta com a mesma idade do marido.

O amigo com quem José Victor troca as mensagens, Walter, também é publicitário e da mesma idade do casal, homossexual e soropositivo. O conteúdo das conversas entre os amigos, que se conhecem há vinte e cinco anos, trazem todos os ingredientes de uma troca de mensagens entre pessoas que se conhecem há tanto tempo e para as quais quase não há segredos devido à liberdade e à intimidade que construíram ao longo dos anos.

Falam indiscriminadamente sobre sexo – com certo gosto pela escatologia por parte de Walter -, e outros temas tabus, com muitas piadas pesadas e opiniões preconceituosas que, numa época em que impera o politicamente correto, são intoleráveis para a maioria das pessoas de “bom senso” e partidárias da boa convivência entre os indivíduos.

No entanto, ao ter suas conversas expostas na rede, a vida de José Victor, Walter e Dani, a namorada de José Victor – redatora-júnior de vinte anos da agência onde o publicitário trabalha – e o suposto motivo pelo qual Teca, traída e abandonada após quatro anos de casamento, realiza a edição dos e-mails entre o ex-marido e seu amigo para colocá-la na internet e tornar a vida dos envolvidos um inferno.

A tolerância (ou a falta dela) é um dos temas principais do livro. Laub levanta uma discussão sobre o que ele chamará de “fascismo do bem”*: a defesa de temas naturalmente meritórios e pertinentes – o fim da homofobia, do sexismo, estes presentes nas discussões causadas pelo vazamento das conversas virtuais entre os amigos José Victor e Walter -, mas feita de uma forma violenta e igualmente intolerante por parte dos usuários da rede contra os defensores do discurso que eles atacam.

Outro ponto levantado pelo livro é o limite entre a vida privada e a pública: aquilo que você discute em particular com um amigo, com quem tem uma liberdade de convivência que lhe permite utilizar clichês e jargões socialmente inapropriados, deve ser utilizado, às vezes fora do contexto, para condená-lo publicamente? E mais: isso faz de você um ser desprezível, execrável, merecedor de um linchamento virtual ao qual fatalmente será submetido se tal diálogo for divulgado de forma exponencial?

Talvez seja até o caso de relembrar a frase atribuída ao jornalista e dramaturgo Nélson Rodrigues (1912 – 1980), outra pessoa que, se pudesse se manifestar após o advento da internet, com suas opiniões dissonantes, certamente sofreria represálias ferozes nas redes sociais: “Se cada um soubesse o que o outro faz entre quatro paredes, ninguém se cumprimentava”. O problema todo talvez esteja – verdade seja dita, como percebeu Nélson – quando o que é feito entre quatro paredes chega ao conhecimento de todos ou, na nossa época, à internet.

O julgamento e as sentenças virão de todos os lados, num lugar em que todos têm voz – até os imbecis, como afirmou Umberto Eco (1932-2016) em uma de suas últimas entrevistas para divulgação do seu romance Número Zero (2015) – e podem dar vazão a ela, aparentemente, sem grandes consequências a não ser a de um posicionamento mais firme contra alguém que infligiu uma norma social consensual. O massacre é inevitável.

Laub parece ter sua opinião, mas seu personagem, José Victor, narra de uma forma fria e desapaixonada os fatos, ao contrário dos outros elementos do tribunal (juízes, promotores, jurados e testemunhas), para que o leitor tire suas próprias conclusões.

A própria educação de Teca, feita por seus pais, pessoas de classe alta com forte consciência política (estereótipos de uma esquerda progressista e bem-intencionada) parece amesquinhar ainda mais a sua vingança. Ponto para o autor que, ao longo da obra, também lida com muitos clichês – do tipo “faça o que eu falo, não faça o que eu faço”- e consegue se sair bem. Exceção feita ao descuido do publicitário em deixar um papel com as senhas de acesso ao seu e-mail na casa da ex-mulher que parece um argumento frágil do ponto de vista romanesco para o início do seu calvário virtual.

O livro também faz um levantamento histórico do surgimento da AIDS, desde a descoberta dos primeiros casos no início da década de 80 até o momento, em que, com o devido acompanhamento médico  e o uso do coquetel de medicamentos, muitos dos soropositivos podem ter uma vida relativamente normal. Esse histórico é narrado acompanhando a visão de Walter que, ao descobrir sua homossexualidade na adolescência, recorda-se de um travesti, um pária na sua cidade natal, Bariri, no interior paulista, a primeira pessoa que conheceu vitimada pela doença.

Sétimo romance de Laub, O tribunal de quinta-feira vem antecedido de dois livros de sucesso de crítica e público do autor: Diário da queda (2011), que fala sobre o holocausto e a memória, e A maça envenenada (2013), que trata do suicídio de Kurt Cobain, ex-vocalista do Nirvana, e das consequências dramáticas da ida de um de seus fãs ao único show feito pela banda no Brasil, em janeiro de 1993.

Indiscutivelmente, o tema do romance é pertinente, pois está muito presente na vida de qualquer pessoa que faz uso das redes sociais, e a coragem em abordá-lo no momento em que ele está ainda mais evidenciado talvez seja das maiores qualidades do livro. No entanto, por incrível que pareça, isto também é o que mais impede de ver em O tribunal de quinta-feira uma obra que permaneça atual para daqui há dez, quinze ou vinte anos, o que certamente não acontecerá com os livros anteriores do autor.

Pela própria velocidade com que os assuntos ligados à rede ou à tecnologia são substituídos por outros, há o risco de que o mesmo aconteça com o romance, por ele poder ficar marcado como a crônica de uma época difícil e controversa, ainda que a volubilidade das paixões humanas seja um tema que possamos considerar atemporal.

 

O tribunal de quinta-feira

Michel Laub

Companhia das letras

183 pgs.

 

*http://www.opovo.com.br/app/opovo/paginasazuis/2017/01/02/noticiasjornalpaginasazuis,3677350/um-escritor-contra-o-fascismo-do-bem.shtml

 

 

 

 

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