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Foto: Reprodução

“Quando eu fui pai, eu compreendi Deus” (O pai Goriot)

 

Honoré de Balzac (1799 – 1850) é considerado o pai do Realismo francês, o autor que abriu e mostrou o caminho que deveria ser seguido pelos romancistas durante o século XIX, e não apenas para os autores de seu país, como Gustave Flaubert (1821-1880), mas para autores de outras partes do mundo, tamanha a influência alcançada por sua obra.

Ao término dos estudos secundários, iniciou o curso de Direito na Sorbonne onde também descobriu sua paixão pela Filosofia. Ainda jovem demonstrou vocação literária e a família resolveu instalá-lo numa água-furtada para que se dedicasse aos seus escritos, mas a iniciativa não obteve sucesso imediato.

Após algumas tentativas fracassadas nos negócios e o acúmulo de dívidas que o perseguiriam por toda a vida, a partir de 1829, Balzac passou a se dedicar ao grande projeto literário de sua vida: a realização da Comédia Humana.

O intuito era o de escrever uma obra monumental, que reproduzisse a essência da vida humana, os desejos e decepções, as alegrias e tristezas, ambições e fracassos; um trabalho gigantesco que englobasse estudos de costumes, filosóficos e analíticos, pensado para que cada volume fosse dedicado a um aspecto marcante da vida social ou do indivíduo em si.

Balzac foi o primeiro autor a se dedicar a um projeto tão ambicioso, de forma sistemática e obsessiva, o que consumiu sua saúde de forma absurda. Também foi um precursor em utilizar seus personagens em mais de uma história, já que ao todo sua obra chega quase a cem títulos, entre romances, novelas e contos – é o que acontecerá, por exemplo, com Eugène Rastignac, um dos personagens principais de O pai Goriot, que retornará em Ilusões perdidas e Esplendores e misérias das cortesãs.

O pai Goriot foi o romance que abriu a Comédia Humana. No livro, o velho Goriot é um antigo fabricante de massas que fez fortuna, mas, já no fim da vida, teve que se abrigar na pensão da senhora Vauquer, localizada num bairro pobre de Paris, tendo uma renda mínima, o que lhe diferenciava pouco de um miserável.

Submetendo-se estoicamente às brincadeiras de mau gosto e humilhações dos demais inquilinos de Madame Vauquer, e da própria senhoria, o “pai Goriot”, como é chamado de forma irônica por todos, tem um único orgulho que mantém em segredo: o amor pelas filhas, Anastasie e Delphine, respectivamente a condessa de Restaud e a esposa do senhor de Nucingen, um banqueiro alemão.

A desconfiança sobre a relação entre o simplório fabricante de massas e as nobres damas da sociedade é gerada pelas visitas discretas que ambas fazem ao velho Goriot na pensão. Mas a paternidade só é descoberta quando o jovem e ousado Eugène Rastignac – um estudante de direito de vinte e dois anos, candidato à alpinista social -, vê Goriot sair da casa da condessa pela porta dos fundos. Aquela seria a primeira visita que o rapaz faria à casa da condessa com o objetivo de que as portas da sociedade parisiense lhe fossem abertas com a ajuda dela.

No entanto, o plano dá errado, pois ao revelar ao casal de Restaud que era vizinho de Goriot na pensão da senhora Vauquer, nunca mais será recebido por eles. Rastignac, então, é introduzido no que há de mais cruel e hipócrita na grande sociedade de Paris, ao lhe ser revelado o segredo do pai Goriot – em parte por sua prima distante, a viscondessa de Beauséant, a quem ele recorre para ser introduzido na sociedade parisiense; em parte pela senhora de Nucingen, Delphine, a outra filha do velho Goriot, de quem se torna enamorado, e desta vez é correspondido, até por não cometer o mesmo erro que cometera ao tentar travar conhecimento com a irmã mais velha da moça; e, por fim, com o próprio Goriot, de quem se aproxima e descobre ser verdadeiramente um homem de bem, muito melhor do que qualquer outro que conhecera em sua vida.

A história à qual o estudante é inteirado: o pai Goriot renunciara a toda sua fortuna em benefício das filhas, para que elas, com o dote fabuloso que receberam, conseguissem um casamento com um nobre (no caso de Anastasie) e com um homem rico (Delphine). O problema é que, em pouco tempo, devido à sua origem humilde e seus hábitos vulgares, o sogro passou a ser um incômodo para os genros e estes exigiram que suas esposas não mais o recebessem ou se encontrassem com o pai. Pedido ao qual elas obedeceram prontamente – exceção feita a alguns casos em que precisavam de uma ajuda financeira urgente.

Para não causar problemas às filhas, Goriot também aceitou a imposição com resignação. Nos momentos em que o afastamento mais o afligia, o velho fabricante de massas passou a recorrer à ajuda dos empregados das casas das filhas para saber onde encontrá-las durante o dia. Assim, mesmo que à distância, poderia observá-las e regozijar-se em seu sentimento paternal quase doentio.

Ao saber da história do vizinho, Rastignac se dá conta das próprias maldades e de seu egoísmo exacerbado: fizera seus pais, modestos proprietários rurais, e as irmãs mais novas lhe enviarem todas as economias para que pudesse se vestir melhor – o cúmulo das frivolidades e da vida de aparência – e ter acesso aos teatros e às óperas de Paris, em vez de continuar estudando, já que a subida social que almejava não passava necessariamente por se tornar advogado como era o anseio de sua família.

Eugène, então, conscientiza-se de sua abjeção ao saber da história ainda mais infame de seu infeliz vizinho. Como remissão do pecado, a aproximação do jovem com o pai Goriot é inevitável. O rapaz se torna um defensor do velho na pensão Vauquer, gerando atrito entre eles, a avarenta dona do estabelecimento, com o velhaco Vautrin e os outros inquilinos, enquanto Goriot se torna um aliado das intenções de Rastignac em relação à filha Delphine. (No fundo, mesmo com as melhores das intenções, Balzac parece querer dizer que a sociedade parisiense de sua época nunca deixou de ser uma disputa de salão que terminaria inevitavelmente numa alcova)

Com um agudo senso de observação da sociedade parisiense, Balzac inaugurou sua Comédia com um romance que reúne a mais sórdida abjeção com o fervoroso desejo de perdão dos pecados cometidos. Um livro que podemos classificar de demasiado humano, apesar dos exageros, como o autor queria que fosse toda a sua obra. Em O pai Goriot, Balzac alcançou seu intento e demonstrou porque, posteriormente, sua obra passou a ser referência para os estudos da sociedade francesa de sua época.

 

O pai Goriot

Honoré De Balzac

221 pgs.

Ediouro

Tradução: Sérgio Rubéns

 

*Por se tratar de uma obra de domínio público, existem muitas edições da obra de Balzac disponíveis no mercado com destaque para a reedição completa da Comédia Humana realizada pela editora Globo e organizada por Paulo Rónai. A edição lida para esta resenha, de 1994, encontra-se esgotada no momento.

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