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Foto: Albert Camus (1944), Henri Cartier-Bresson.

Trecho:

“A memória dos pobres já é por natureza menos alimentada que a dos ricos, tem menos pontos de referência no espaço, considerando que eles raramente saem do lugar onde vivem, e tem também menos pontos de referência no tempo de uma vida uniforme e sem cor (…) Só os ricos podem reencontrar o tempo perdido. Para os pobres, o tempo marca apenas os vagos vestígios do caminho da morte.”

 

O franco-argelino Albert Camus (1913 – 1960) é um dos autores mais celebrados e respeitados do século XX, não apenas pela importância de sua obra literária, mas também pelo fato de ter conseguido aliar ao longo de sua breve e intensa vida aquilo que poucos são capazes de fazer: densidade intelectual e engajamento.

Romancista, dramaturgo, jornalista e pensador foi um homem consciente de seu tempo e de seu papel como intelectual, tendo participado da Resistência Francesa durante a ocupação nazista, quando foi um dos editores do jornal clandestino Combat.

Falecido em 4 de janeiro de 1960, num acidente automobilístico, na valise em que carregava foi encontrado o manuscrito de O primeiro homem, que seria publicado apenas em 1994, graças ao emprenho de sua filha, Catherine.

Livro inacabado, de cunho memorialístico, o romance narra em terceira pessoa a história de Jacques Cormery, que, após se tornar um escritor de sucesso na França, retorna à sua Argélia natal em busca de um anonimato que a vida na Europa já não lhe permite. O retorno à paisagem de seus primeiros anos traz de volta os momentos de extrema dificuldade e pobreza vividos por sua família durante a sua infância.

Em suas lembranças, a perda do pai, Henri, em combate na Primeira Guerra Mundial, quando Jacques tinha um ano, parece um dos fatores determinantes para a escassez de alegria e recursos durante a infância do protagonista. Um impacto que se materializa de forma consciente – numa das cenas mais conhecidas do livro – quando o escritor visita o túmulo do pai e, espantado, verifica que este vivera apenas 29 anos, enquanto ele chegara à maturidade, aos quarenta anos.

A partir da perda trágica do pai, que sequer conheceu, se origina uma série de infortúnios aos quais a mãe, analfabeta e semissurda, de origem espanhola – o pai era francês da região da Alsácia – tem de enfrentar para criar ele e o irmão, quatro anos mais velho. Ainda com os três viveria a avó de Jacques – mulher austera e rígida – e o tio, Éttiene (Ernest), quase mudo, embora com grande força física e vitalidade descomunal, que trabalhava numa oficina fabricando tonéis.

No entanto, também há espaço para boas lembranças como as do professor primário Monsieur Bernard, que, durante boa parte da infância, se torna o substituto da figura paterna para o menino Jacques, e que via grande potencial no menino, incentivando-o a estudar e o auxiliando nos preparativos para a prova de entrada para o Liceu. O carinho era recíproco por parte do professor, uma vez que M. Bernard, assim como Henri Cormery, havia servido o exército francês durante a guerra, e considerava sua obrigação ajudar o filho de um companheiro morto no conflito.

Bernard é um personagem baseado no professor de Camus, Monsieur Germain, com quem o escritor manteve intensa correspondência e visitas até o fim da vida, inclusive foi a primeira pessoa para quem Camus escreveu quando foi agraciado com o Nobel de literatura em 1957 – a carta está publicada no final da edição.

O futebol também é uma das boas lembranças da época da escola e uma das poucas alegrias da infância: a principal delas quando se tornou goleiro titular do time do Liceu.  Uma das rusgas com a avó era ela proibir-lhe de jogar porque os sapatos eram destruídos e eles tinham que providenciar o conserto. A paixão pelo esporte, assim como pela liberdade de pensamento e pela literatura, foi algo que acompanharia Camus por toda vida.

O primeiro homem é um romance profundamente denso e evocativo, por vezes até sentimental, fugindo do estilo que marca a obra de Camus – um estilo mais sóbrio, contido e racional e que permeia seus livros mais conhecidos como O estrangeiro, A queda e A peste. Livros estes que também tinham em comum o tema do absurdo, que marca não só a obra ficcional como a ensaística do autor francês como em O mito de Sísifo.

As grandes cenas descritivas da vila nos arredores de Argel onde a família viveu – do clima, do ambiente, da casa, da escola – dão um tom quase naturalista ao livro, além de envolver o leitor num sentimento de extrema emotividade. Os trabalhadores e estudantes, a mistura de povos da região – franceses e árabes – e a descrição de um ambiente onde impera a extrema pobreza reforçam essa veia naturalista do livro, o que não quer dizer que o autor busque a compaixão do leitor por seus personagens, aliás, pelo contrário.

Em trecho extraído do prefácio de O avesso e o direito, o próprio autor explica o que significou para ele ter tido uma vida de privações na infância:

“Sei que minha fonte está (…) nesse mundo de pobreza e de luz em que eu vivi durante tanto tempo, e cuja lembrança me preserva ainda dos dois perigos contrários que ameaçam todo artista: o ressentimento e a satisfação. (…) A pobreza nunca foi uma desgraça para mim: a luz espalhava nela suas riquezas.”*

Por se tratar de um romance inacabado, não se tem a exata noção do que Camus cortaria para ter em mãos uma obra que pudesse considerar concluída. Certamente a obra ainda passaria por muitas revisões até ser considerada terminada, e muita coisa se perderia, já que seus livros mais conhecidos primavam por uma linguagem depurada, enxuta de excessos, e seus trabalhos eram curtos quanto à extensão. Mesmo incompleto, o manuscrito de O primeiro homem é bem maior do que O estrangeiro e do que A queda, tendo o tamanho aproximado de A peste.

Por ter sido toda ela transcrita do manuscrito original, há muitas lacunas no texto final, por conta da incompreensão de certos trechos, o que acaba por truncar a leitura, embora sem a perda de sua totalidade. Apesar desses problemas, o romance não deixa de ser uma referência literária, por seu autor ter sido um dos mais importantes da França no século XX.

Mais do que legado póstumo do autor, o romance pode ser considerado como um inventário da formação de Camus como homem. De como teriam nascido as posições filosóficas e as convicções políticas de um dos escritores mais engajados da história da literatura e de como compreender que, para Camus, literatura e vida estavam profundamente interligadas desde o início.

 

O primeiro homem

Albert Camus

Saraiva/Nova Fronteira

Tradução: Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca e Maria Luiza Newlands Silveira

293pgs.

 

*Uma ficção autobiográfica sobre a impossibilidade da memória, apresentação de Manuel da Costa Pinto.

 

 

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