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O garçom limpava uma das mesas da calçada quando o barulho do metal contra o asfalto o assustou. O automóvel, um modelo popular e novo, saiu da rua, avançou pela calçada, indiferente aos transeuntes, e parou a dois metros de onde ele estava.

– Preciso correr senão perco o horário, disse uma mulher gorda, sessenta anos, vestida de maneira espalhafatosa, saltando do carro. – Depois você me encontra lá, Aguiar.

Aguiar era o motorista: um velho que beirava os setenta anos, que usava óculos de aros grossos, cabelos tingidos de preto, e vestido como quem fosse jogar golfe com os amigos. Desceu do carro mal-humorado para verificar o tamanho do estrago. Além do pneu, a roda de alumínio parecia um pouco danificada. O carro andou quase duzentos metros com o pneu furado antes de estacionar.

– Furou o pneu, chefia? perguntou, solícito, um homem de cabelos brancos com um colete enorme onde se lia: “Compra-se cartuchos. Pagamos o melhor preço”.

Aguiar não lhe deu atenção e continuou a vistoriar o carro em busca de mais algum prejuízo. O outro não se importou com a frieza do dono do carro e também fez uma rápida inspeção.

– Foi só o pneu mesmo. O senhor teve sorte, foi o parecer do homem, que emendou: – Tem macaco e estepe?

– Tenho.

– Estacione na rua que eu troco pro senhor.

Aguiar encarou-o pela primeira vez, adivinhando qual a verdadeira intenção daquela cordialidade. O homem tinha o rosto ruborizado, o olhar um pouco paralisado e, como notara, a língua solta. Teve a impressão que o outro estava alcoolizado, mas não quis chegar muito perto para ter certeza.

Percebendo a desconfiança do motorista, o homem tentou ser educado.

– O senhor podia tirar o carro, por favor? disse, com um gesto vago, mostrando que os pedestres precisavam desviar do carro para seguirem caminho.

Aguiar, mesmo contrariado, fez o que o outro lhe pedia, estacionando junto ao meio-fio.

– Tem que ser rápido. Tenho que pegar minha mulher no médico, disse, seco, abrindo o porta-malas, entupido de sacolas de compras.

– Vai ser rapidinho.

– Pode colocar as sacolas no banco traseiro, ordenou.

O homem o olhou espantado, como se aquilo não tivesse sido combinado, mas obedeceu. Após carregar as compras, pegou o estepe, a chave de roda e o macaco.

– Agora, pode deixar comigo, disse.

Aguiar trancou o carro e se sentou à mesa da lanchonete mais próxima do carro. Acendeu um cigarro e ficou observando o serviço do outro. O garçom se aproximou.

– O senhor deseja beber alguma coisa? perguntou.

O dono do carro balançou a cabeça de forma negativa e fez um gesto impaciente como se a pergunta fosse despropositada. O garçom saiu irritado.

A troca de pneu foi mais demorada que o homem esperava. Os parafusos estavam bem apertados e precisou pedir a ajuda de um jovem para tirar dois deles que mal se moviam.

– Tem algum problema aí? perguntou Aguiar, sem se levantar da cadeira, ao ver o outro pedir ajuda.

– Não, não. É só um parafuso que tá mais difícil de tirar, mas não é nada.

Terminado o serviço, deu o último aperto nos parafusos e reparou que o dono do automóvel olhou o relógio.

– Pronto! Tá novo! se apressou em dizer.

Aguiar levantou-se da cadeira e veio direto conferir se o serviço estava bem-feito.

– Hum, hum, resmungou sem encontrar nada de errado.

– Quer que guarde as compras? perguntou o homem, orgulhoso pelo bom trabalho.

– Sua mão não tá suja? perguntou Aguiar.

– Eu lavo ali na lanchonete. É rapidinho!

Guardou as ferramentas, o pneu furado e correu lavar as mãos no banheiro da lanchonete. Ainda voltou a tempo de ajudar o dono do carro a arrumar as compras no porta-malas. Esperava receber uma boa gorjeta – pelo menos metade do que recebia por dia como homem-placa e entregador de papéis. Ficou apreensivo quando levou as últimas sacolas e não percebeu qualquer iniciativa do outro em pegar a carteira. Terminou de carregar as sacolas e, fingindo descontração, disse:

– Pronto pra outra!

Aguiar observou o monte de sacolas, mexeu nelas, procurando ver se faltava alguma, e fechou o porta-malas. Olhou de novo para o homem que, com uma expressão ansiosa, parecia aguardar por sua recompensa. Hesitou um instante, pôs a mão no bolso e andou em direção à porta. O homem arregalou os olhos, assustado, pensando que ele fosse embora sem ao menos lhe agradecer, e foi atrás dele.

– Estou sem trocado, disse Aguiar, abrindo a porta do carro, com a carteira na mão.

A irritação do outro era visível. Aguiar sentou-se no banco do carro e puxou uma cédula do monte que tinha.

– Toma, disse estendo a nota de cinco reais.

O homem agarrou-a depressa, como se ela pudesse lhe escapar por entre os dedos, e rosnou um obrigado automático.

Depois que o carro partiu, o homem-placa foi conversar com o garçom e lhe mostrou o pagamento pelo serviço.

– Olha o que aquele velho pão-duro filho da puta me deu!

– É! É sempre assim, meu amigo… disse o garçom como se o consolasse.

– Pois é! Devia tê-lo deixado sujar a roupa pra ver o quanto é bom, falou com raiva. – Mas não ia adiantar nada: ia aparecer outro otário pra ajudar aquele miserável.

Guardou a nota no bolso e voltou a entregar os papéis. De repente, parou, enfiou a mão no bolso e puxou a nota para vê-la mais uma vez. Seu rosto se contraiu numa careta como se tivesse tomado um trago de uma bebida tão amarga quanto a própria vida.

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