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Capa: Divulgação

 

Trecho:

Ҥ 76. ORA BOLAS.


QUEM quiser fale mal da literatura. Quanto a mim, direi que devo a ela minha salvação. Venho da rua oprimido, escrevo dez linhas, torno-me olímpico.

Descobri o segredo do Silviano: transferir os problemas para o Diário e realizar uma espécie de teatro interior. Parte de nós fica no palco enquanto outra parte vai para a plateia e assiste. O indivíduo que representa no palco nos fará rir, nos comoverá ou nos suscitará graves meditações. Mas é um indivíduo autônomo, e nada temos que ver com suas palhaçadas, suas mágoas, ou sua inquietação. Terminado o espetáculo da noite, tomamos o bonde e vamos para casa sossegados, depois de um chocolate.

Durante o dia, o comediante se encarnará em nós e teremos de tolerá-lo. Mas à noite, com a pena entre os dedos, somos espectadores sem compromissos.

Em verdade vos digo: o que escreve neste caderno não é o homem fraco que há pouco entrou no escritório. É um homem poderoso, que espia para dentro, sorri e diz: “Ora bolas.”

Primeiro de janeiro – ora bolas. Os amigos andaram sumidos – ora bolas. Vi a donzela com o noivo – ora bolas. Será mesmo no dia quinze – ora bolas. Lá se foi o ano – ora bolas.”

 

O mineiro Cyro dos Anjos (1906-1994) pode ser considerado um daqueles autores que entraram para a História da literatura com um único livro: O amanuense Belmiro, publicado em 1937. Embora tendo publicado livros de memórias, ensaios e outros dois romances – Abdias (1945) e A montanha (1956) – foi logo em seu primeiro livro que o autor alcançou o reconhecimento da crítica e do público.

O romance nasceu a partir de uma série de crônicas publicada por Cyro em A Tribuna de Belo Horizonte, quando era redator do jornal. Usando o pseudônimo de Belmiro Borba, um burocrata tímido e lírico, funcionário da Seção de Fomento Animal, as crônicas pareceram aos leitores e amigos do autor trechos de um diário ou livro de memórias que deveria vir a lume com o tempo, assim que seu hesitante autor (Belmiro Borba) criasse coragem para publicá-la na íntegra.

O fato é que não havia diário ou livro de memória algum e Cyro foi impelido pelo desejo de seus leitores de saber mais sobre o introvertido personagem em escrever uma obra bem mais extensa e, em dois meses, entregaria ao público O amanuense Belmiro.

O livro é o diário de um burocrata de trinta e oito anos cuja parca vivência real contrasta com uma densa vida interior. O volume abarca pouco mais de um ano – do natal de 1934 até o início de 1936 – e trata sobreturdo dos problemas de seu cotidiano, da sua rotina burocrática e suas confissões sentimentais e o mundo provinciano da capital mineira em meados da década de 30.

As lembranças de Vila Caraíbas, sua terra natal, e do avô e do pai, legítimos representantes dos homens da família Borba – fortes e decididos –, protótipo ao qual Belmiro degenerou, sempre estão presentes em suas reflexões.

A fuga da realidade através da literatura, não apenas da leitura, mas também pela decisão de iniciar o diário, surge como válvula de escape para um forte sentimento de que sua vida não faz sentido. Nem o amor platônico que sente pela bela Carmélia Miranda – a quem chama Arabela -, e que se torna sua Dulcineia de Toboso, e a aproximação com o jovem colega de repartição, Glicério, que frequenta a casa de sua musa, de onde traz notícias novas a cada dia, conseguem aliviar seus pesares e sua inquietação.

Ao lado das irmãs Emília e Francisquinha, com quem vive numa casa de subúrbio localizada na rua Erê, Belmiro apenas parece ter alguma vida quando está acompanhado dos amigos com quem se reúne periodicamente para tomar um chope e jogar conversa fora. No entanto, tais amigos têm personalidades tão discrepantes quanto Belmiro é constante em sua vida transcendentalmente burocrática: Redelvim, o anarquista; Jandira, a socialista; Silviano, o professor intelectual, pretensioso e conservador; Glicério, o jovem aristocrata colega de repartição e, por fim, Florêncio, o pequeno burguês sem opinião (o homem sem abismos como Silviano).

Um grupo tão heterogêneo que o amanuense conclui, a certa altura, quando o grupo esta prestes a se dissolver por conta de inúmeros contratempos, que o único motivo dessas pessoas estarem reunidas em algum lugar para uma simples conversa de bar se deve ao fato de seu esforço pessoal em mantê-los próximos, apesar de ainda ter de aturar as ironias deles para consigo.

“Devo nutrir esperanças, quanto a uma recomposição do nosso pequeno círculo, hoje dissolvido, na realidade? Ou este círculo apenas existiu no meu desejo? Os encontros que tivemos, tantas vezes, não evidenciaram, antes, uma impossibilidade de comércio e de reunião entre elementos tão diferençados? Bem vejo que, durante todo o tempo percorrido, a pequena roda não foi sustentada por força própria, nem pelos misteriosos princípios de aglutinação que regulam as aproximações humanas. Se Jandira e Redelvim—de um lado —e Silviano e Glicério—de outro—se entendem, o mesmo não acontece entre Redelvim e Glicério, Redelvim e Silviano, Silviano e Jandira, Silviano e Florêncio. Noto que fui eu, com o meu desejo de sociedade, quem criou e sempre procurou sustentar essa agitada assembleia onde atuam forças tão antagônicas.”

Em muitos aspectos a obra de Cyro dos Anjos se assemelha a de Machado de Assis, especialmente aos seus grandes romances – Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro. O estilo reflexivo e irônico, os capítulos curtos e nomeados – são 94 no total -, o relato da vida que se perde enquanto o tempo passa atado a um cotidiano estéril e a vida social e política como pano de fundo das decisões mais simples e comezinhas dos personagens – um exemplo é a prisão do anarquista Redelvim por algumas semanas, após a eclosão da Intentona Comunista de novembro de 1935, e que deixa Belmiro preocupado com o seu futuro.

A força do livro está nessas pequenas sutilezas que, embora não fossem novas nem para a época, fizeram o sucesso de O amanuense Belmiro, por sua visão simples – mas não simplória – e lírica de um cotidiano opressivo por sua esterilidade e deram a Cyro dos Anjos um lugar digno dentro da história da literatura brasileira, num período em que grandes autores como Graciliano Ramos, Jorge Amado, José Lins do Rego e Érico Veríssimo, entre outros, ainda estavam produzindo suas grandes obras.

Um romance que ainda hoje pode agradar ao leitor por uma visão comovente de um homem socialmente invisível.

 

O amanuense Belmiro

Cyro dos Anjos

Garnier

227 pgs.

 

Trechos:

 

“§ 14. ANALGÉSICO, ETC.

 

RELENDO a página escrita ontem, volto a remoer o adjetivo analgésico, com que Jandira me brindou. Ela o emprega com o sentido de sedativo, no seu calão. E não é, positivamente, um elogio atribuir-me a função de calmante; como qualquer um, eu preferiria a de excitante. Mas está dito: sou analgésico. É o que pensam as mulheres, pela sua representante junto à Rua Erê.
Quanto ao que pensam de mim os velhos companheiros, Redelvim e Silviano o exprimiram: para o primeiro, serei um céptico pequeno burguês que, não por ação, mas por omissão, serve o sistema capitalista; para o segundo, sou um homem fraco, que não tem o senso da hierarquia e tende para um igualitarismo dissolvente.
Afinal, todos, exceto eu, sabem o que sou… Acham indispensável classificar o indivíduo em determinada categoria. E se eu não for coisa alguma, ou for tudo, ao mesmo tempo? Há anos passados, eu costumava entregar-me a um passatempo perigoso: procurar, no tocante a dado conceito, igual número de argumentos, da mesma força, a favor ou contra. Jamais encontrei algum cujo contrário não pudesse ser também defendido. Percebendo que esse jogo de antinomias acabaria deixando-me com uma telha de menos, ou de mais, abandonei-o.
Ora, o burguês Belmiro! Redelvim deu para humorista. Fazendo minhas contas, durante o dia, vi que a simples aquisição de umas botinas novas me desequilibrou o orçamento deste mês.”

 

*A última edição de O amanuense Belmiro saiu em 2006 pela editora Globo.

 

 

 

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