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Caros (as) senhores (as)

 

Meu nome é Chico, tenho cerca de doze anos e venho por meio desta pedir-lhes que realizem um sonho que acalento há algum tempo: o de dedicar minha vida à ciência.

Sou descendente de uma família circense de quatro gerações. Meu bisavô veio, ainda pequenino, de sua terra natal, na costa ocidental da África, num navio de traficantes de animais. Foi capturado com sua mãe que, ferida mortalmente no abdômen, não sobreviveu à longa viagem.

Órfão – pois seu pai havia sido morto pelos mesmos homens que o capturaram -, meu tataravô foi vendido ao dono de um circo mambembe que atravessava o país levando ao respeitável público um espetáculo de gosto duvidoso a preços módicos. Naquela época, o circo era ainda a principal forma de entretenimento da população dos rincões mais afastados. Em alguns casos, somente o circo era capaz de tirar cidades inteiras da total paralisia em que viviam.

Foi no auge deste período de ouro que meu bisavô, Simão, o Magnífico, tornou-se uma das principais atrações do circo onde trabalhava, fazendo com que seu proprietário amealhasse – graças ao fantástico talento de meu bisavô – uma pequena fortuna que tratou de reinvestir no circo. O talento de Simão era tão extraordinário que vários outros donos de circo, encantados com seus truques de malabarismos, sua excepcional desenvoltura com a bicicleta e sua incrível performance ao lado dos palhaços, ofereceram muito dinheiro ao proprietário para ter meu bisavô em seus plantéis. No entanto, o homem nunca se rendeu ao dinheiro, pois sabia que Simão era a alma do seu circo, e manteve sua principal atração até seus últimos dias.

Meu avô e meu pai seguiram o mesmo caminho, mas nunca tiveram o mesmo brilho e carisma de meu tataravô.

Lembro-me do Linguiça – um palhaço que afirmava ter mais de 100 anos, com sua tênue voz de ancião, e que dividiu o picadeiro com todas as gerações de nossa família –   falando que jamais viu em toda sua vida alguém como Simão que, na sua opinião, parecia um personagem fantástico, daqueles que só existem nas histórias em quadrinhos.

Quando nasci, o circo há muito já era uma atividade decadente. Não rendia o suficiente para a sobrevivência dos que dependiam dele. Muito cedo compreendi que meu futuro seria romper com a tradição familiar e abandonar a vida circense, o que significava deixar minha família.

Bem cedo, também, meu pai percebeu quais eram as minhas intenções em relação ao circo e a minha insatisfação com aquela vida degradante que tínhamos. Ele sempre procurou me apaziguar os ânimos, tentando me incutir um pouco da passividade e do comodismo tão próprios de seu caráter. Porém, nunca lhe dei ouvidos e me tornei um rebelde. Vivia acorrentado pelos punhos e tornozelos e, algumas vezes, quando meu acesso de fúria era ainda maior, o amestrador tratava de me prender pelo pescoço e me açoitar.

Foi durante um destes cativeiros mais longos que, me lembrando de um dos conselhos do velho, decidi agir com mais inteligência e me render, por algum tempo, aos seus argumentos. Gradualmente, me deixei conduzir pelo amestrador que acreditou ter conseguido me dobrar.

Em seis meses de intensivos treinamentos, me livrei das correntes e o próprio amestrador me levava até a jaula de mãos dadas, contando-me seus planos enquanto acariciava a minha cabeça e, na véspera de minha estreia no trapézio, fui surpreendido por sua visita inesperada. Estava completamente embriagado e disse que vinha me desejar boa sorte. Já havia visto alguns homens bêbados, mas jamais tão próximos a mim como aquele verme!

Entendi que aquela era a minha oportunidade de fugir e deixar para trás tudo aquilo que, no íntimo, desprezava; mas hesitei.  Pensei na minha família, principalmente no meu pai. Na tristeza profunda que o envolveria ao ver seu filho fugir e nunca mais voltar. Seria demais para ele, por ser tão sensível e bom, não suportaria o impacto. Apenas por sua causa é que estava disposto a deixar aquela chance passar e me conformar à vida infeliz do circo; porém, quis o destino que a sordidez humana me mostrasse que o meu instinto estava certo.

O amestrador começou a me alisar de forma estranha e a sussurrar palavras incompreensíveis ao meu ouvido. Percebi um brilho maligno em seu olhar parado e rubro de bêbado, um olhar mais assustador do que qualquer fera faminta das terras de meus ancestrais. Já estava de costas quando percebi que ele se esforçava para baixar a calça e, neste momento, forças sobrenaturais me invadiram. Com uma agilidade sem igual, me virei rapidamente, metendo os dois braços em seu rosto, e consegui derrubá-lo. Aos berros, ainda estapeei-o no rosto e mordi o seu nariz. Aproveitei o empurrão que o canalha me deu como impulso para a fuga e desapareci dentro do denso matagal que havia atrás de onde o circo erguera a tenda.

Por algum tempo – dias, semanas, talvez meses, não sei ao certo – vaguei pela mata, tentando sobreviver consumindo apenas frutas, pequenos insetos e a água da chuva armazenada nas folhas das árvores. Percebi que se o circo era o caminho para minha infelicidade, a vida em liberdade era o caminho para a minha morte, por isso, venci o receio que me perseguia depois daquela noite e procurei me aproximar outra vez dos homens.

Infelizmente, a tentativa de reaproximação mostrou-se tão traumatizante quanto havia sido o rompimento. Numa tarde muito quente, avistei quatro crianças brincando na mata. Sempre pensei que as crianças amassem mais os animais do que os adultos e, desta forma, me senti encorajado em chegar mais perto do grupo.

No entanto, quando me viram, três das crianças correram em pânico e apenas um garoto, de cabelos pretos e encaracolados, permaneceu imóvel, olhando-me fixamente. Permaneci imóvel, assustado com a reação delas, observando o menino que, pouco depois, incitado pelos gritos dos colegas, também desapareceu no rastro dos outros. Desapontado por ter encontrado crianças tão parecidas com os adultos que conhecia, voltei para o meu canto.

Entretanto, não demorou muito para aparecer um grupo de adultos, armados de redes e dardos tranquilizantes. Muito mais apavorado do que as crianças, procurei fugir e não me entreguei com facilidade. Era noite alta quando caí de cima de um eucalipto, abatido por um dardo cravado na minha perna.

Acordei já dentro de uma jaula com uma tala no braço. Haviam me encaminhado para um zoológico. Estava sozinho, pois não havia nenhum indivíduo da minha espécie, e entrei numa terrível depressão. O isolamento, o ócio e a monotonia do zoo pioraram muito mais esse estado – cheguei até a sentir saudades do circo – e continuei assim até a chegada de um novo tratador.

Não direi o seu nome para não prejudicá-lo, mas posso afirmar, com segurança, que foi graças a ele que voltei a acreditar que a humanidade não está de todo perdida. Nossa amizade começou numa manhã chuvosa, em que eu rabiscava o chão com um pedaço de galho. Ao ver aqueles rabiscos, emocionado, meu amigo urrou de alegria dizendo que eu acabara de escrever o seu nome. Estranhei muito, pois até aquele momento não havia entrado em contato com o alfabeto de qualquer idioma – como até hoje permaneço ignorante deles.

A partir daí, eu e o tratador, tornamo-nos amigos, na verdade, mais que isso, nos tornamos cúmplices. Descobrimos, queiram crer os senhores ou não, uma forma de nos entender por telepatia. Foi assim que lhe contei toda a minha infeliz história até aquele momento e ele, igualmente, me confidenciou todos seus segredos e sonhos.

Meu amigo falou que a administração do zoológico estava tentando trazer uma companheira para mim ou me transferir para um parque onde houvesse indivíduos de minha espécie. Disse a ele que eu não aceitaria a segunda opção, pois ela implicava uma separação definitiva entre nós. Como verdadeiro amigo que é, ele tentou me explicar que para mim seria melhor ficar num lugar onde pudesse conviver com indivíduos da minha espécie, embora, ficasse realmente triste com a possibilidade da nossa separação.

Quando se verificou a impossibilidade de me trazerem uma companheira e foi decidida a minha transferência, pedi ao tratador que arranjasse uma forma de não nos separarmos. Ele tentou me fazer desistir da ideia, mas como não conseguiu, atendeu ao meu pedido e planejou minha fuga. Com muito engenho, deixou a jaula aberta, forjando uma distração, bem no final do horário de visitação. Fora da jaula, foi fácil chegar até o seu carro – pois ele me havia explicado à exaustão como fazê-lo -, abrir a porta, me esconder sob o cobertor, colocado no banco traseiro, e escapar do zoo.

O plano de fuga foi um sucesso, mas a sindicância aberta pela administração averiguou que “houve negligência do tratador em deixar a jaula aberta, facilitando assim a fuga…” e ele foi demitido. Sem emprego e com poucos recursos para nos manter, procurou uma forma de arrumarmos dinheiro. Como as portas estavam fechadas para um tratador relapso, me sugeriu que tentasse uma vaga num daqueles programas dominicais de auditório da televisão, onde o emprego para macacos amestrados, anões e palhaços sem pintura são fartos. Argumentou que, com a minha inteligência, além dos truques que sabia e uma certa dose de sorte, poderia até dividir a apresentação de um desses programas com algum apresentador menos talentoso e carismático.

Cuidei dessa possibilidade por alguns dias, porém, optei por não ingressar no show business. Argumentei que explorar a ignorância alheia era algo muito abjeto. Ele aceitou minha decisão sem objeções. Porém, sua segunda sugestão foi aceita sem questionamento: dedicar minha vida ao progresso da ciência, pois é dela que depende o futuro e o bem-estar não só da humanidade como de todas as espécies.

Acredito ser necessária muita abnegação para entregar a própria vida a uma causa que irá beneficiar todo o mundo num futuro próximo e estou disposto a aceitar esse desafio com uma única condição: que meu amigo, o tratador, possa vir me visitar pelo menos duas vezes por semana, em horários previamente definidos pelos senhores, é claro. Isto é, se não puderem contratá-lo como tratador ou qualquer outra função afim que, estou certo, ele desempenhará com competência.

Senhores (as), desculpem se me alonguei em demasia nesta carta. Entendam-na como um pedido de alguém apaixonado pela possibilidade de se tornar útil ao mundo, naquela que acredita ser a sua vocação. Por gentileza, peço que encaminhem a resposta a esta carta à caixa postal em anexo. Conto com a compreensão de todos.

Atenciosamente.

Chico.

 

P.S.: Os (As) senhores (as) podem até não acreditar, mas foi meu amigo, o tratador, quem escreveu esta carta.

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