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Dias perfeitos capa

Capa: Divulgação

 

 

Trecho:

“Acompanhou sua respiração, sintonizando-a à dele. Sentou na beirada da cama, observando-a de perto, mas ainda a uma distância respeitosa. Não queria parecer doente ou maníaco. Com o tempo, ele ia provar a Clarice que ela estava errada. Jamais seria capaz de cometer abusos: faltava-lhe o instinto animal que os homens ganham ao nascer. Essa era apenas uma de suas qualidades. Se houvesse mais gente como ele, o mundo seria melhor.

Clarice logo acordaria e pediria para ir embora. Desceria as escadas, indignada, a mão esquerda pressionando o ferimento, a direita com o Vogue de menta nervosamente tragado. Esbravejaria mais ofensas, atenta a qualquer novo ataque. Ele seria preso, execrado publicamente em letras garrafais, os jornais o chamariam de sequestrador.

Sentiu-se mal: era a primeira vez que se via como um vilão. Ao enfiar Clarice numa mala e trazê-la para casa teria se tornado criminoso? Nada havia sido premeditado, tampouco queria resgate. Queria apenas o melhor para Clarice. O golpe na cabeça tinha sido um gesto impensado, absurdo. Ele estava sinceramente arrependido. Talvez devesse dizer isso a ela. Que estava arrependido.” (pg. 46)

 

Ao publicar Os Suicidas, lançado pela editora Benvirá, em 2012, aos 21 anos de idade, o escritor carioca Raphael Montes (1990) impressionou público e crítica com um romance policial sobre um grupo de jovens suicidas e chegou a ser um dos finalistas do Prêmio Machado de Assis de 2012 e do Prêmio São Paulo de Literatura de 2013. Em seu segundo livro, Dias perfeitos, lançado em 2014 pela Companhia das letras, o autor continuou consolidando seu nome como um dos autores mais promissores do gênero policial no Brasil, com altos índices de venda e boas críticas.

Em Dias perfeitos, o protagonista é o estudante de medicina Teodoro, de 22 anos. Arredio e inteligente, Téo vive num mundo próprio em que não há nenhum espaço para sentimentos, nem bons nem ruins. Sua única amiga é o cadáver de uma mulher, a quem ele chama Gertrudes, com quem se encontra durante as aulas de anatomia.

Além de Gertrudes – se a considerarmos um ser humano -, a única pessoa com quem Téo se relaciona é com a mãe, Patrícia. Esta, por sua vez, lhe exige muito esforço, trabalho e atenção, já que, paraplégica há seis anos, depois de um acidente de carro, em que acabou perdendo o marido, se tornou totalmente dependente do filho.

Entretanto, Téo não se faz de rogado, não reclama da sorte, e continua a exercer as funções sociais que dele são exigidas: a de bom filho, bom aluno, bom cidadão. Mas é notório que todas as suas obrigações agravam a sua predisposição natural em ser um indivíduo extremamente concentrado, autossuficiente e sem qualquer senso de alteridade ou sentimento benévolo em relação ao restante da humanidade – o que o torna uma pessoa potencialmente perigosa.

O gatilho será disparado por Clarice, uma estudante de História da Arte, a quem Téo conhece num churrasco na casa de amigos de Patrícia. Após uma rápida conversa, a moça revela sua pretensão de se tornar cineasta e de estar escrevendo um roteiro para um road movie chamado Dias Perfeitos.

No roteiro, três amigas viajam por Teresópolis, Ilha Grande e Paraty e, no meio do caminho, encontram um misterioso francês que irá acompanhá-las por parte do trajeto. As cidades fazem parte das boas recordações de Clarice, pois era nelas que passava parte dos dias felizes de sua infância e adolescência, ao lado dos pais, em suas viagens de férias ou descanso.

No entanto, Clarice sente a necessidade de retornar a esses lugares para poder aperfeiçoar o seu trabalho, especialmente a uma improvável pousada em Teresópolis administrada por uma família de anões, na qual já fez uma reserva para aquela semana e confidencia tudo a Téo.

De alguma forma, o rapaz sente que aquela conversa inesperada os uniu intimamente e, após um selinho de despedida, iniciativa da desinibida garota, ao jovem estudante de medicina, o encontro com Clarice se revela como um raio de sol que irá iluminar seu mundo aborrecido e nebuloso, em que apenas as obrigações o prendem a uma realidade medíocre e sem futuro.

Sentindo a necessidade de realizar aquele desejo de sua “amada”, Téo cria uma obsessão por Clarice e, após três dias de uma perseguição insana, a sequestra, após a recusa dela em começar um relacionamento, levando-a para os lugares em que ela ambientaria o seu road movie, imaginando que aquilo possa aproximá-los. Está dada a senha para o início de uma história doentia de loucura, obsessão e horror, à qual o leitor é arrastado sem saber qual o final que lhe espera.

Nesse sentido, o estilo policial de Montes se aproxima muito mais dos romances policiais mais modernos como os da série de Ripley, de Patrícia Highsmith (1921 – 1994), em que um crime está em permanente andamento e o efeito sobre o leitor se dá por conta do desjo de saber como o criminoso fará para escapar da punição, do que a da elucidação de um crime cometido como nos clássicos de Agatha Christie e Conan Doyle.

Em Dias Perfeitos, Montes demonstra um bom domínio da técnica narrativa, especialmente em se tratando de um romance policial e as sucessivas reviravoltas da trama mantêm a atenção e o interesse do leitor. Isso não quer dizer que não haja problemas na narrativa: o principal deles, acredito, é quando Téo consegue salvar Clarice de um afogamento, sendo que ele próprio estava numa situação praticamente impossível de se safar (o leitor poderá até fazer um paralelo a uma situação inverossímil de um livro ultrarromântico).

Os personagens principais, Téo e Clarice, também são bem construídos, em suas respectivas disfunções sociais, embora os personagens secundários tenham lá os seus problemas de construção, mas o que chama a atenção é o uso de uma linguagem precisa e concisa em terceira pessoa, digna de um veterano das letras, apesar de todo horror que envolve a história macabra.

Para os amantes de livros policiais, especialmente dos que gostam de histórias com um forte fundo psicológico, a leitura de Dias Perfeitos é urgente. Para os amantes da boa literatura, e que se decepcionam a cada visita a uma livraria após uma olhada nos mais vendidos, o romance é um alento: prova que ainda é possível fazer boa literatura e produzir bons autores (e ainda jovens) no Brasil, apesar de numa quantidade muito menor que o desejável.

 

Dias perfeitos

Raphael Montes

Companhia das letras

274 pgs.

 

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