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Capa: divulgação

Capa: divulgação

Em 2012, a Alfaguara lançou no Brasil Dez mulheres, romance da chilena Marcela Serrano. O livro teve uma boa acolhida do público brasileiro, assim como em toda a América Latina e Espanha, ao contar a história de nove mulheres moradoras de Santiago, das mais variadas idades e classes sociais, e de sua analista, a bielorrussa de origem judia Natasha.
São relatos que, lidos separadamente, formam um mosaico interessante de uma visão de mundo profundamente feminina, com seus dramas particulares, sejam eles amorosos ou familiares; as frustrações diárias e pequenas violências às quais as mulheres são submetidas dentro de uma sociedade machista – não a chilena, especificamente, mas a latina, em geral – e a força que são obrigadas a retirar, de onde muitas vezes não têm, para seguir na luta, não importando de que classe sejam ou quais sejam seus objetivos na vida.
Embora seja um romance, Dez mulheres pode muito bem ser lido como um livro de contos, pois cada fragmento ou capítulo é narrado por uma personagem, o que mantém todos os relatos independentes entre si, num tipo de romance que a crítica costuma classificar de desmontável, aos moldes do nosso clássico Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Talvez por esta característica, da relação fragmentária e independente, e, claro, pelo sucesso de Dez mulheres, a editora lançou um novo livro de Marcela Serrano, desta vez de contos.
Doce inimiga minha traz vinte histórias em que a autora, assim como no livro anterior, explora o universo feminino, expondo a intimidade e as fragilidades das personagens com a diferença que, ao contrário de Dez mulheres, fica no leitor uma sensação do livro ter sido publicado antes de ter ficado realmente pronto, flagrante é a diferença da força e da vitalidade das personagens desses contos em relação às do livro anterior.
Excetuando-se os contos mais longos do livro – como Sem Deus nem Lei, 2 de julho e Doce inimiga minha – que foram escritos e publicados anteriormente à coletânea e parecem, de fato, mais bem acabados, são poucos os momentos em que se pode afirmar que as histórias convencem o leitor a ponto de este reconhecer que a leitura do livro vale a pena e até mesmo os melhores contos tem lá seus problemas.
O conto que empresta o título à coletânea, por exemplo, é dedicado a Dulcineia del Toboso, nada mais, nada menos, a musa inspiradora de Dom Quixote, e foi escrito para uma coletânea em homenagem a cláasico de Miguel de Cervantes, publicada em 2004. Quem não leu ou não conhece o Quixote pouco entenderá do enredo onde Dulcineia, ou a mulher que teria inspirado a personagem de Cervantes, devaneia, num estilo rebuscado que parodia a linguagem do texto cervantino, sobre sua função de musa de uma das obras-primas da literatura universal.
Dois contos publicados pela primeira vez nesse livro merecem menção. Em cima da borracharia é a história de uma mulher de família rica que decide se casar com um homem de classe social baixa e só vê aumentado o desprezo com o qual a mãe sempre lhe tratou. O homem do vale é outro que pode ser considerado dos melhores da coletânea, embora com um enredo semelhante à Em cima da borracharia. Nele, Pascuala, mulher de origem pobre, mas que teve oportunidade de estudar devido ao investimento feito em sua educação por uma amiga rica da mãe, vê todas as chances de ascensão acabarem ao engravidar e se casar ainda muito jovem com um sujeito beberrão e violento conhecido como Rato.
Mas algumas histórias, especialmente as mais curtas, sequer podem ser classificadas como contos, dada a sua pouca expressividade como Cerca elétrica e Fêmeas (um divertimento). O conto mais curto da coletânea, Seu norte, com apenas duas páginas, porém, se revela um bom microconto, gênero que vem crescendo assim como o número de autores que tem se especializado nessa modalidade – no Brasil, o mais famoso talvez seja Dalton Trevisan. No conto, uma mulher (María Bonita) relembra o marido desaparecido, no dia do funeral do ditador culpado por sua provável morte e a de milhares de pessoas – sempre há espaço para um pouco da política local nos livros dos latino-americanos. A descoberta de que, com a morte do inimigo, viver para ela também não é mais possível dá um tom trágico e humano à história. (Ver trecho)
Em linhas gerais, talvez tenha faltado a Marcela Serrano, que, inquestionavelmente, é uma boa contadora de histórias, uma melhor adequação ao gênero que escolheu trabalhar neste Doce inimiga minha, pois, como ela própria revela no epílogo, o conto sempre lhe pareceu ‘algo esquivo e um pouco inapreensível’. Essa inapreensão apontada pela autora talvez seja a falsa “aparência de facilidade” que Machado de Assis, certamente um dos mestres do gênero, já alertava em relação ao conto.

Trecho:

“María Bonita se acostumou a despertar de manhã e a recordar que alguém na cidade também respirava, e que essa respiração correspondia ao seu inimigo jurado. A simples existência dele lhe injetava o poder da energia. Temeu não escutar a respiração quando esta se transferiu para os hospitais de Londres, mas o oceano a trazia a cada manhã e, ligeira, ela atravessava o mundo e chegava aos meus ouvidos. Distante, mas ainda chegava. E agora?, voltou a se perguntar. amanhã vão enterrá-lo e depois de amanhã os jornais começarão a falar de outra coisa, nenhuma notícia, por mais importante que seja, resiste a tanta cobertura, e a vida continuará e ele já não respirará a cada manhã. E eu? (Seu Norte, p. 80)

Doce inimiga minha
Marcela Serrano
Alfaguara
Tradução: Joana Angélica D’Ávila Melo
191 pgs.

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