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Trecho:

“Sabe o que deviam fazer com gente como o senhor?”, ela ameaçou. “Deviam enforcar vocês!”

Ela estava forçando uma discussão. Observando, ele achou que o rosto dela parecia quase irlandês projetado assim para a frente…

“Em todo lugar que eu vou é sempre a mesma idiotice. Tive empregos de secretária em que não tinha nem de datilografar! Tive empregos em que…”

Ele não estava mais ouvindo, pois, quando ela olhou por cima do ombro para ver se vinha vindo alguém para interrompê-la, ele viu a curva hebraica do nariz e a melancolia dos olhos tristes sobre a parte superior do rosto… (p. 52)

Tudo parecia bem na vida de Lawrence Newman, quarentão, solteiro, que dividia com a mãe, uma senhora idosa e cadeirante, uma casa própria no bairro do Queens, em Nova York, até que precisou usar óculos para corrigir um problema simples de vista. Responsável por um setor em que trabalhava cerca de 70 telefonistas numa grande companhia, Newman vê-se, repentinamente, com um aspecto excessivamente judaico por causa dos óculos.

Não haveria qualquer problema com a aparência de Lawrence se na empresa em que trabalhava não houvesse uma política velada de não contratação de judeus. De repente, sobre o funcionário zeloso e cidadão respeitado, que todos conheciam há anos, recai uma série de desconfianças quanto à sua ascendência, que ele afirmava ser inglesa. Talvez pudesse ter sido suprimido um “n” a mais no final de seu sobrenome quando seus avós chegaram à América na segunda metade do século XIX? Talvez seu nariz fosse aquilino demais para um descendente de britânicos? E justamente ele que tinha várias restrições aos judeus, julgando-os “fingidores e impostores”.

O ano é 1945, os norte-americanos ainda não derrotaram completamente os alemães e a Europa, destruída, ainda padece com o flagelo nazista, principalmente o povo discriminado pela empresa em que o protagonista trabalha. Ponto, então, para Arthur Miller que, com muita coragem, em meio ao turbilhão de sentimentos, ódios e ressentimentos, expõe uma ferida que até hoje marca a cultura e a sociedade norte-americana: como um povo que se autointitula paladino da Democracia e da Liberdade pratica contra suas minorias – judeus, negros, latinos etc -, em seu território, a mesma segregação e ódio que quer extirpar em outros países?

No entanto, infelizmente para Newman, a desconfiança não se restringirá apenas ao trabalho. Depois de recusar-se a participar de algumas reuniões escusas na casa de um vizinho, Fred, com quem tomava algumas cervejas nos finais de semana, em que eram discutidas e planejadas formas de se expulsar os judeus do bairro, sua vida pessoal também se transforma num martírio constante. O fato se agrava após se envolver com uma mulher cheia de segredos, Gertrude Hart, que parece sempre saber mais coisas sobre o que está acontecendo ao seu redor do que o próprio Newman. Curiosamente, o casal se conhece quando Lawrence a recusa para o cargo de telefonista por desconfiar que ela esta escondendo sua origem judaica enquanto Gertrude o humilha e o ofende exatamente por considerá-lo um judeu.

Sempre avesso a tomar qualquer partido, o protagonista passa a ser vítima do próprio alheamento e desinteresse político. Sua omissão e, por vezes, até conivência com as injustiças, tanto no trabalho quanto na vida pessoal, se voltam contra ele que, impotente, mergulha numa espiral de ódio e violência da qual não haverá saída satisfatória, nem mesmo depois de fazer sua escolha dentre os dois caminhos a seguir: juntar-se aos opressores ou sofrer com os oprimidos.

O ritmo lento da narrativa e do próprio personagem principal, sua demora na tomada de decisões, seu otimismo reconfortante de achar que tudo se arranjará sem que seja preciso uma ação mais enérgica de sua parte, causa ainda mais tensão no leitor, que pressente toda a violência represada nos gestos e nas palavras dos personagens que a qualquer momento virá à tona.

Quando publicou Foco, Arthur Miller tinha apenas 30 anos, e ainda se consolidaria como um dos maiores dramaturgos de seu país no século XX, mas já demonstrava ser um crítico agudo e corajoso da sociedade norte-americana, de suas contradições e hipocrisias.

Foco

Arthur Miller

Companhia das letras

Tradução: José Rubéns Siqueira

261 pgs.

* Resenha publicada pela primeira vez em 12 de dezembro de 2012 no blog O Espanador. link: convidado-da-semana-foco-arthur-miller

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