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Capa: Divulgação

Capa: Divulgação

Trecho:

“Assim, de volta para casa, pôs-se a escrever um artigo que depois imprimiu, enfiou em um envelope e levou pessoalmente, atravessando a cidade, à redação do Guardian. Era conhecido ali. De vez em quando colaborava com eles. Perguntou se era possível esperar uma semana antes de publicá-lo.

O artigo consistia numa lista de cinquenta e duas coisas que Jasper Gwyn se comprometia a não fazer nunca mais. A primeira era escrever artigos para o Guardian. A décima terceira era encontrar-se com turmas de estudantes fingindo-se seguro de si. A trigésima primeira, ser fotografado com a mão no queixo, pensativo. A quadragésima sétima, esforçar-se para ser cordial com colegas que na verdade o desprezavam. A última era: escrever livros. De certo modo, fechava a vaga fresta que a penúltima podia ter deixado: publicar livros.” (pg 9)

A premissa do novo livro do italiano Alessadro Barrico, Mr. Gwyn, lançado no Brasil pela Alfaguara, é curiosa: o que pode fazer um escritor quando decide, por vontade própria, parar de escrever livros? Mais do que isso: o que pode levar um escritor a parar de escrever voluntariamente?

Jasper Gwyn tem quarenta e três anos e é um escritor de relativo sucesso que vive em Londres. Apesar de ter publicado apenas três livros em doze anos de carreira, seus trabalhos tiveram uma aceitação razoável do público e lhe valeram alguns elogios da crítica. Mesmo não vivendo exclusivamente de literatura, tem um padrão de vida aceitável e um certo renome no meio literário, quando, após uma caminhada matinal, decide escrever um artigo e enviá-lo ao The Guardian, dando contas de sua aposentadoria precoce e voluntária.

Seu agente e amigo, Tom Bruce Shepperd, um cadeirante hiperativo e desbocado, recuperado do susto inicial que a leitura do artigo lhe causou, liga exultante para lhe dar os parabéns, pois imagina o fato se tratar, na verdade, de uma grande jogada de marketing de seu cliente: o que Gwyn está preparando?, perguntarão todos os envolvidos no meio literário – leitores, críticos, editores – e, na opinião do agente, independente do que seja, já será um sucesso com a propaganda antecipada gratuita.

O problema é que Gwyn fala sério e pretende, de fato, abandonar a literatura, embora nem ele mesmo saiba pelo quê. Tom sabe que Gwyn é um sujeito excêntrico – tão excêntrico quanto  o Doutor Pasavento do catalão Enrique Villa-Matas – que costuma passar boa parte de suas manhãs em lavanderias da cidade, para onde Tom é obrigado a enviar sua estagiária Rebbeca à sua procura quando precisa lhe falar. A atitude de Jasper acaba por exasperá-lo já que, além de amigo, o homem é um de seus melhores clientes.

A agonia parece ainda maior, não só para o agente, mas para o próprio leitor, à medida que o tempo passa e o ex-escritor não decide o que fazer para substituir a literatura como ganha-pão, passando boa parte do tempo em conversas com uma senhora de foulard impermeável – espécie de válvula de escape para sua imaginação represada – e as visitas pelas lavanderias de Londres onde ainda, de vez em quando, é reconhecido.

Cerca de dois anos depois, durante uma conversa com a senhora de foulard impermeável, Gwyn tem a ideia de pintar retratos escritos das pessoas. No entanto, para que seu projeto seja bem-sucedido precisará da ajuda de Tom – que o desaconselha da tentativa, uma vez que considera que Jasper não poderá fazer melhor do que Dickens ou Hardy fizeram -, para montar o estúdio ideal para que o trabalho seja realizado, e de Rebecca, que será sua primeira modelo.

Falar mais do que isso será entregar muito sobre o livro e estragar o prazer que o leitor poderá ter ao descobrir um livro tão delicado que, nos seus cerca de setenta capítulos curtos, e por trás de seu bom-humor, discute o valor de algo tão importante quanto se ter uma vida plena e realizada, tanto no lado pessoal quanto no profissional. Mais do que isso: um livro que nos mostra que para nos reinventarmos, além de criatividade, coragem e amor próprio, algumas vezes, é preciso ter muito amor pelo próximo.

Mr. Gwyn

Alessandro Barrico

Alfaguara

Tradução: Joana Angélica d’Ávila Melo

219 pgs.

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