Pulp – Charles Bukowski

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Capa: Divulgação

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Trecho:

“Decidi andar até a livraria de Red. Parecia que, quando ia de carro, sempre arranjava uma multa, e os estacionamentos cobravam mais do que eu podia pagar.

Andei até a livraria me sentindo meio deprimido. O homem nascia para morrer. O que significava isso? Ficar por aí esperando. Esperando o ‘Trem A’. Esperando um par de peitões numa noite de agosto num quarto de hotel de Las Vegas. Esperando o rato cantar. Esperando a cobra criar asas. Por aí.” (pg. 13)

 

Charles Bukowski (1920 – 1994) foi um autor que nunca viveu de literatura, ou melhor, apenas foi fazer algum sucesso com a escrita já no fim da vida, por isso jamais se mostrou satisfeito consigo mesmo e nem se deixava embriagar pelo reconhecimento tardio que conseguiu alcançar. Foi um autor marginal até o fim dos seus dias e – ainda hoje – é considerado uma espécie de patrono da literatura da sarjeta, dos bebuns, dos malandros e dos vigaristas.

A marginalidade que a obra literária de Bukowski exala de suas páginas conquistou uma legião de fãs e é comum vermos ecos de seu estilo despojado e sardônico em muitos autores que almejam um lugar ao sol na literatura.

Em seus livros buscou retratar a vida dura da classe baixa norte-americana, principalmente de Los Angeles, normalmente perdedores e bebuns inveterados que, para esquecerem os seus “tombos”, se entregam com fervor aos prazeres do copo, da carne, da mesa e do jogo, como Henry Chinaski, seu mais conhecido alter-ego, que protagoniza a trilogia autobiográfica composta por Factótum (1975), Misto-quente (1982) e Hollywood (1989).

Pulp (1994), o último livro publicado por Bukowski, terminado poucos meses antes de sua morte, aos setenta e três anos, em março de 1994, traz algumas das características marcantes do autor – a ralé de Los Angeles tentando sobreviver da melhor forma possível em meio a vigaristas e capangas, muita bebida, apostas em cavalos e diálogos rápidos, hilários e cortantes -, mas há, sim, algumas diferenças para quem conhece outras obras do “Velho safado”.

O livro conta a história de Nick Belane, um detetive particular cinquentão, que tenta se safar de um processo de despejo, enquanto procura algum interessado em pagar por seus serviços duvidosos antecipadamente.

A sorte de Nick parece virar quando surge em seu escritório uma misteriosa e sexy cliente, que se identifica como Dona Morte, querendo que o detetive descubra se um sujeito discreto e igualmente misterioso que anda circulando pelas livrarias de L.A. é mesmo o infame e brilhante escritor francês Louis Ferdinand Celine (1894-1961), dado como morto há mais de trinta anos.

Nick acha tudo muito estranho, mas prefere aceitar o pagamento antecipado de seis dólares por hora recebido de Dona Morte e vai à caça de Celine.

Outros casos começam a surgir para Belane, como o do empresário Jack Bass, gordo e de meia-idade, interessado em saber se sua jovem e bela esposa Cindy anda o traindo, além do agente funerário Hal Grovers, que contrata o detetive para livrá-lo do assédio de Jeannie Nitro – o rapaz jura para Belane que a moça é uma alienígena que se apaixonou por ele e que ela veio para a Terra numa missão para conquistar o planeta.

Isso sem contar no caso que promete ser o mais complexo de todos para Nick, embora ele não saiba exatamente se se trata de um caso real ou algum tipo de trote feito por Dona Morte: encontrar o Pardal Vermelho – uma alusão de Bukowski a O falcão maltês (1930), de Dashiell Hammett (1894-1961), clássico dos romances policiais que o inspiraram a escrever Pulp.

Bukowski dedica Pulp à subliteratura*, homenagem registrada na própria dedicatória do livro; porém, ao final do livro, mais do que uma homenagem de Bukowski ao ideário literário ao qual sua obra sempre esteve tão ligada, o livro parece a melhor forma que o velho Buk encontrou para se despedir da vida, demonstrando o quanto estava consciente de sua finitude.

A morte está sempre presente no romance, seja como uma reflexão banal de Nick Belane enquanto caminha pela rua (ver trecho acima), seja como uma poderosa mulher fatal pronta para acabar com qualquer um que atravesse o seu caminho. Mais do que um testamento literário, difícil não pensar em Pulp como uma provocação que Bukowski faz à sua própria morte. Uma provocação engraçada e lírica, bem ao estilo de seu autor.

 

 

*Literatura Pulp era o nome dado aos livros baratos policiais noir e de ficção científica vendidos em edições baratas, que misturavam humor e violência, muito populares nos Estados Unidos em meados do século XX. O cineasta Quentin Tarantino (1963) também homenageou essa vertente literária em seu célebre filme Pulp Fiction: Tempos de Violência (1995).

 

 

Trecho:

 

“Aí notei que havia mais alguém na livraria. Estava parado perto dos fundos. Julguei reconhecê-lo de fotos. Celine. Celine?

Dirigi-me devagar para ele. Cheguei bem perto mesmo. Tão perto que podia ver o que ele lia. A montanha mágica, de Thomas Mann.

Ele me viu.

– Esse cara tem um problema – disse, erguendo o livro.

– Qual é? – perguntei.

– Acha o tédio uma arte.

Devolveu o livro à estante e ficou ali, simplesmente parecendo Celine.

– É espantoso – eu disse.

– O quê? – ele perguntou.

– Eu achava que você tinha morrido – eu disse.

Ele me olhava.

– Eu também achava que você tinha morrido.

E ficamos apenas olhando um para o outro.

Aí ouvi Red.

– EI, VOCÊ! – berrou. – TE MANDA DAQUI!

Só havia nós dois ali.

– Qual dos dois deve se mandar? – perguntei.

– ESSE AÍ QUE PARECE O CELINE! TE MANDA DAQUI!

– Mas por quê? – perguntei.

– EU SEI QUANDO NÃO VÃO COMPRAR!

Celine, ou quem quer que fosse, foi saindo. Eu o segui.” (pgs 14-15)

 

 

Pulp

Charles Bukowski

L&PM

Tradução: Marcos Santarrita

175 pgs.

 

 

 

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Garoto de futuro

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Estava no quintal de casa com o Maurício treinando tiro com a espingarda de chumbinho que tinha acabado de ganhar do meu avô. Nem era muito amigo meu esse Maurício. Achava-o chato pra burro, só falava nas viagens que fizera, nos presentes que o pai lhe dava e nos carros que já havia dirigido até os quinze anos. Só o chamava pra vir em casa por causa da irmã dele – uma gostosa que eu estava louco pra ficar -, assim ele me chamava pra ir visitá-lo também e, quem sabe, não podia rolar alguma coisa com a irmã.

A ideia de experimentar a espingarda tinha sido dele. O Maurício falou que sabia atirar porque seu pai fazia aula de tiro num clube e ele costumava ir junto.

Eu já estava aborrecido. Fazia quase uma hora que estávamos esperando aparecer um pardal pra atirar e nada. Apenas dois apareceram e erramos o alvo. Pra passar o tempo, treinávamos a mira em alvos fixos: uma lata de refrigerante, uma garrafa de plástico. Enfim, um saco!

Pensava em guardar a espingarda e voltar pro videogame quando vi o carro da companhia telefônica encostar do outro lado da rua. Desceram dois homens: um sujeito de bigode, mal-encarado, meio coroa e um outro mulato, magro, de cabelo raspado.

Paramos pra ver o que eles fariam e escondi a espingarda atrás de mim. Eles falavam algo, olhando pro alto do poste, e pegaram a escada de cima do carro.

– Vão subir no poste, disse o Maurício.

No mesmo instante tive a ideia e falei bem junto ao ouvido dele:

– O que você acha da gente sacanear esses caras?

– Como?

– Vamos subir que já lhe conto, eu disse, e reparei que o bigodudo notou nossa presença enquanto o outro se preparava pra subir.

Minha casa era um sobrado e a janela do meu quarto ficava de frente pra rua. Tinha uma boa visão do poste em que os dois peões iam trabalhar. Pensei em atirar, pra dar um susto no cara em cima do poste e acompanhar sua reação. Contei pro Maurício o que pensava fazer e ele gostou do plano.

– O cara vai levar um susto daqueles! comentou, rindo.

Em casa, só estávamos nós e a empregada. Fechei a cortina pra que ninguém nos visse e deixei uma fresta, suficiente apenas pro cano da arma e pra vermos todo o movimento. O moreno já estava pendurado no poste, mexendo na caixa.

Mirei pra qualquer lado, mas, de repente, parei com a arma já engatilhada.

– Vai, atira! ordenou o Maurício.

– Assim não tem graça.

– O quê não tem graça?

– Atirar, sem acertar em nada.

Ele sorriu, concordando com o que eu falei.

– Você teria coragem de acertar o cara? perguntou.

– Qual o problema? É só chumbinho. Se acertar, ele nem vai se machucar, respondi, sem maldade.

– Duvido que acerte ele daqui.

Olhei de novo pro cara, procurando mirá-lo e vi que era uma grande distância e talvez não o atingisse mesmo, mas não resisti em aceitar o desafio.

– Quanto você me paga se eu acertar o tiro?

Maurício calou-se, desconfiado.

– Vamos. Quanto você me dá se eu acertar?

– Quer apostar?

– Quero.

– Vinte! Te dou vinte contos!

– Vinte e você conta a história pra sua irmã, eu disse, pensando que ela pudesse ficar admirada com o meu feito.

– Acho melhor, não, respondeu o Maurício, que sabia das minhas intenções com a sua irmã. – É melhor esse assunto ficar só entre a gente.

– Tá bom, concordei um pouco decepcionado. – Você tem razão.

Apertamos as mãos casando a aposta e voltei a mirar no sujeito trepado na escada que parecia ter terminado o serviço.

– Ele fechou a caixa! Vai logo, Álvaro! Ele tá indo embora, disse Maurício.

O cara desceu o primeiro degrau e, não tive dúvida, apertei o gatilho. O tiro acertou a bunda do homem que se desequilibrou e despencou, gritando alto.

Yes! vibrei, dando um soco no ar como se tivesse marcado um gol no videogame ou feito uma bela cesta num jogo de basquete.

Maurício soltou um palavrão, pois esperava que errasse o tiro. Ouvimos uma gritaria e depois o carro arrancou em disparada.

– Será que o cara se machucou? ele perguntou, impressionado com o barulho.

– Não sei. Talvez tenha ralado os braços ou torcido um pé, respondi.

Maurício pagou a aposta, mas, com medo que descobrissem o que aconteceu, não saímos mais do quarto até ele ir embora, quase uma hora depois. À noite, quando jantava com minha família, a campainha tocou. A empregada apareceu em seguida dizendo que era a polícia.

– Polícia?! fez papai, assustado.

– É! Querem falar com alguém da casa sobre um acidente que aconteceu aqui na rua hoje. Parece…

Papai foi atender enquanto eu e mamãe ficamos na mesa. Assustado, pedi licença à mamãe pra ir ao banheiro.

– Alvinho!

– Senhora?

– Você viu algum acidente por aqui hoje?

– Não, não vi nada.

– Estranho…

Nem voltei pra mesa; fui direto pro meu quarto. Vinte minutos depois, meus pais foram conversar comigo.

Mamãe estava muito nervosa. Seus olhos estavam vermelhos e as mãos tremiam. Papai parecia mais calmo, mas ele sabia disfarçar melhor.

Ele contou que um funcionário da companhia telefônica caíra da escada depois de ser atingido por um tiro de chumbinho. O colega que o socorreu disse à polícia que vira dois meninos com uma espingarda na casa em frente ao poste onde trabalhavam.

– Não, não fui eu. Foi o Maurício que apostou comigo, gritei, tentando me livrar da culpa.

– Então foi ele quem atirou no homem? perguntou mamãe.

– Foi…

– Foi mesmo? insistiu papai.

– Foi tudo brincadeira. Eu não queria machucar ninguém, respondi, chorando.

Fomos pra delegacia acompanhados pelos policiais depois que papai, como bom advogado, combinou comigo o que deveria dizer ao delegado e como deveria me comportar no depoimento.

Papai acabou responsabilizado e teve que pagar uma multa alta, além de bancar o tratamento do funcionário da telefônica, que só não se saiu melhor do processo, recebendo também uma pensão gorda, porque não usava os equipamentos de segurança.  Negligência, claro. Ele fraturou a espinha e ficou paraplégico. Parece que a culpa, no fim das contas, foi do bigodudo mal-encarado que não esperou o resgate e socorreu o outro de qualquer jeito.

Na época, vovô, que é desembargador, ficou um pouco bravo comigo. No entanto, já voltou a me incentivar a seguir a carreira de Direito. Diz que eu tenho um futuro brilhante, pois tenho um excelente senso de justiça.

O marido dela – Luigi Pirandello

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Foto: Luigi Pirandello em 1932

Foto: Luigi Pirandello em 1932

 

Trecho:

“Giustino, ao pensar que a esposa – depois de alcançar (talvez por causa dele) tanta celebridade – começava a ser, apesar de enganada, um pouco ciumenta, sentia algum prazer, manifestou a irritação que esse ciúme lhe causava nesse momento com um sorrisinho leviano. A ajuda da Barmis era indispensável. Mas Silvia manteve-se firme.

– Não, ela não! Ela não!

– Mas, Deus… Silvia, está falando sério? Se eu…

Silvia balançou a cabeça com raiva e escondeu o rosto nas mãos, para interrompê-lo.

Repentinamente, sentiu vergonha e asco de seu fingimento, vendo que ele, no fundo, se comprazia: vergonha e asco, porque lhe pareceu que ela também, agora, começasse a zombar dele como os outros, pelo espetáculo dessa leviandade.

Em seguida, acreditando abalá-lo fortemente, para salvá-lo e salvar-se, fazendo cair a venda de seus olhos, prorrompeu:

– Por quê, por que você quer que riam? De você e de mim? Mais? Não percebe que a Barmis ri  de você e sempre riu? E os outros todos riem com ela, todos! Você não percebe?

Giustino não titubeou minimamente com esse ímpeto de raiva da esposa. Olhou-a com um sorriso de compaixão e levantou uma das mãos num gesto, mais do que de desprezo, de filosófica indiferença.

– Riem? Sim, faz tempo… – disse. – Mas faça as contas, minha querida, e veja se são tolos aqueles que riem ou eu que… veja bem, fiz tudo isso e coloquei seu nome em alta! Deixe-os rir. Vê? Eles riem, e eu aproveito para conseguir deles o que quero. Estão aqui, estão aqui, todas as risadas deles…

Agitou as mãos olhando ao redor do quarto, como que dizendo:

‘Está vendo em quantas coisas belas se transformaram?’.

Silvia deixou cair os braços e ficou olhando-o de boca aberta.” (pgs 152-153)

 

O italiano Luigi Pirandello (1867 – 1936) foi sempre um arguto observador social e, por consequência, das relações humanas. Em toda a sua obra dramática – foi um dos fundadores do teatro moderno com peças como Seis personagens a procura de um autor (1921) – e literária – com seus romances, novelas e contos -, o ganhador do Nobel de Literatura de 1934 tratou com humor a opressão vivida por seus personagens em momentos cruciais de suas vidas, em que o dilaceramento psicológico, causado pela obrigação social, se torna irreversível. Essa mistura de humor e drama, dentro da obra de Pirandello, resultou a tragicomédia, a forma expressiva à qual o italiano mais recorreu para dar forma às suas ideias, tornando-o, para muitos, um mestre do gênero.

Publicado originalmente em 1911, o romance O marido dela (Suo marito) é um exemplo da forma como Pirandello observava meticulosamente essas relações sociais opressivas, embora, como pano de fundo, no livro haja também outro importante tema abordado – a mercantilização da arte.

Silvia Roncella é uma jovem escritora de talento que deixa a sua Taranto natal para arriscar a vida na capital Roma. Com algumas obras publicadas e até traduzidas no exterior, é recebida com entusiasmo e curiosidade por um grupo de autores, editores e jornalistas, já na primeira cena do livro – no capítulo intitulado O banquete.

Sua primeira peça, A nova colônia – aliás, uma peça realmente escrita por Pirandello – teve uma boa repercussão nos meios intelectuais, mas ainda aguarda sua primeira montagem, que, todos esperam, seja um sucesso e em Roma. Para completar as boas novas, Silvia também está grávida e, em breve, o filho nascerá para coroar esse momento tão extraordinário pelo qual a jovem de talento passa.

No entanto, Silvia não está feliz e o motivo é o seu marido, Giustino Boggiolo, um ex-funcionário do Arquivo Notarial que abandonou o emprego para administrar a carreira da esposa. A ideia inicial de Giustino era ficar com o “trabalho chato” para que a esposa pudesse apenas se dedicar à produção artística, mas seu intento não foi alcançado, ao menos aos olhos da moça.

A infelicidade de Silvia é notória assim como a forma exagerada com que Boggiolo se dedica ao seu ofício de guardião da obra da esposa. A tensão é crescente entre ambos e a relação se desgasta a ponto de se tornar insuportável – o auge será exatamente no dia da aclamada estreia de A nova colônia , com o aumento da pressão por parte de Giustino para que Silvia produza com mais frequência, já que ele a poupa de todo o trabalho enfadonho que seria as tratativas com editores, tradutores e outras pessoas indesejáveis do meio editorial e literário.

Pirandello é mestre em transformar a tragédia particular de Silvia, aprisionada dentro de uma relação conjugal terrível e sob a tutela de um marido despótico, quase que numa comédia, com os exageros retóricos e trejeitos cômicos de Giustino, que se vê como um injustiçado, por ninguém reconhecer toda a sua abnegação por desistir de um emprego estável para cuidar dos interesses da esposa.

Apesar de tiranizar Silvia, e ainda servir de motivo de piada para o séquito que acompanha de perto o casal, Boggiolo ainda encontra uma desculpa para si, para agir e ser como é, mesmo no momento em que é questionado pela esposa dos motivos que o levam a continuar agindo da forma mais vergonhosa e cruel (ver trechos).

O descompasso entre expectativa e realidade e a descoberta dos personagens de que, invariavelmente, estão atuando em uma farsa, representando um papel em vez de serem quem de fato são, é uma característica da obra de Pirandello, presente tanto em seu teatro quanto na sua literatura.

Em outro romance do italiano, O falecido Mattia Pascal, publicado em 1904, o protagonista encontra a chance de ter uma vida totalmente nova, inclusive adotando uma nova identidade (Adriano Meis), quando descobre que sua esposa, com quem havia se casado por obrigação, após engravidá-la, reconheceu um corpo desfigurado numa praia próxima à sua aldeia como sendo o seu.

A descoberta de Mattia Pascal se dá por acaso, quando o guarda-livros, sem avisar ninguém, decide passar uma semana em Monte Carlo. Durante a viagem de trem, retornando para casa, com uma boa quantia em dinheiro conseguida nos cassinos, lê num jornal local a notícia de sua morte. O problema é que, ao contrário do que Mattia desejava, nem o dinheiro, nem o anonimato que procura levar em Roma como Adriano Meis, podem lhe dar uma “vida nova” e livre de problemas.

Entre a publicação de Mattia Pascal e O marido dela há sete anos de intervalo. O primeiro talvez seja uma tragicomédia mais cômica, enquanto que o segundo, mais sombria e, em alguns momentos, pesada e maçante; porém, ambas protagonizadas por dois anti-heróis de um arrivismo patético e que provam que seu autor era um gênio capaz de tirar sentenças profundamente filosóficas de histórias completamente banais.

 

Trecho:

 

“Ah, então ele já sabia? Já percebera? Continuava indiferente, e ainda queria continuar? Não lhe importava nada que rissem dele e dela? Oh Deus, mas então… – se ele estava seguro, seguríssimo que a fama dela era obra sua unicamente, e que toda essa sua obra, no fundo não era mais do que fazerem rir dele, para depois converter as risadas em grandes ganhos, naquele palacete ali, nos belos móveis que o adornavam – o que queria dizer? Talvez quisesse dizer que para ele a literatura era coisa para rir, uma coisa em que um homem de critério, sagaz e precavido, não poderia se intrometer senão assim, isto é, para tirar proveito dos tolos que a levavam a sério?

Queria dizer isso? Não!

Continuando a olhar o marido, Silvia logo reconheceu que ela, pensando assim, não o via como realmente era. Não, não! Ele não queria o ridículo de que se valera. Desde que, lá em Taranto, chegaram aqueles trezentos marcos para a tradução de Albatrozes, ele começara a levar a literatura a sério, pois besteira para ele era apenas não se importar com os lucros que a literatura, como qualquer outro trabalho – se bem administrado -, poderia render… E começara a administrar, a administrar com tal fervor, aliás, com tanto afinco, que chegou a atrair o riso de todos. Não provocara risos intencionalmente, por razões comerciais, mas fora obrigado a suportá-los, e agora os considerava tolos só porque ele, mesmo entre eles e com eles, conseguira seu intento.” (pg. 153)

 

O marido dela

Luigi Pirandello

Coleção Folha Grandes Nomes da Literatura

Tradução: Francisco Degani

252 pgs.

 

P.S: Só queria registrar que a Publifolha poderia ter um pouco mais de cuidado com a revisão ortográfica do livro. Não sei se com outros livros desta coleção aconteceu o mesmo, mas contei pelo menos seis erros ortográficos durante a leitura.

 

 

 

Kafka à beira-mar – Haruki Murakami

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capa Kafka à beira-mar

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Trecho:

“O hotel, grande, é tipicamente um estabelecimento de segunda classe. Na recepção, registro no livro de hóspedes nome, endereço e idade falsos e pago adiantado o valor correspondente a um pernoite. Estou um pouco tenso. Contudo, ninguém me olha com desconfiança, nem esbraveja: ‘Não tente impingir esses dados falsos, malandro! Sei que você tem 15 anos e fugiu de casa!’ Providências são tomadas de maneira burocrática e eficiente.

Subo ao sexto andar num elevador que range sinistramente. Quarto estreito, cama pouco convidativa, travesseiro duro, escrivaninha minúscula, televisão pequena, cortinas queimadas de sol. O banheiro tem o tamanho de um armário embutido. Não vejo xampu nem creme. Da janela se enxerga apenas a parede do prédio vizinho. Mas eu devo dar graças pela água quente que jorra da torneira pelo teto sobre a cabeça. Ponho a mochila no chão, sento-me na cadeira e procuro adaptar o corpo ao quarto.

Sou livre, penso. Fecho os olhos e considero por instantes a ideia de liberdade. Não consigo entender direito o que significa ser livre. Entendo apenas que, neste momento, estou sozinho. Estou sozinho em terra estranha. Como um explorador que perdeu bússola e mapa. Ser livre é isso? Não sei. Desisto de pensar.” (pgs. 57-58)

 

Kafka Tamura é um garoto introspectivo de quinze anos, que foge de sua casa em Tóquio por conta de desavenças com o pai, um famoso escultor. Além do problema pessoal com o pai, o rapaz guarda também uma grande mágoa por ter sido abandonado pela mãe que, ao fugir de casa, levou consigo apenas a filha, pouco mais velha que Kafka. Ao sair de casa, ele busca encontrá-las, embora não tenha qualquer pista ou informação concreta sobre o paradeiro delas.

Em sua andança pelo Japão, acaba por chegar a uma biblioteca particular – a Biblioteca Memorial Komura – na cidade de Takamatsu, onde conhece seus dois misteriosos responsáveis – o andrógino bibliotecário Oshima e a silenciosa diretora Sra. Saeki. A dupla irá simpatizar com Kafka e deixá-lo passar longos períodos na biblioteca e, na medida do possível, conforme descobrem a sua verdadeira história, auxiliá-lo com questões mais urgentes, como alimentação, moradia e trabalho.

Em paralelo, Murakami irá narrar a história de Satoru Nakata, um homem de sessenta anos que, durante a infância, sofreu um estranho acidente que o deixou incapaz de ler e escrever e sem qualquer memória do período anterior ao acidente. No entanto, após o trauma, Nakata desenvolve a capacidade de conversar com gatos (!), o que lhe garantirá boas oportunidades para tirar uma renda extra como caçador de gatos perdidos, para aumentar um pouco seus parcos recursos de pensionistas do “Governador” como ele mesmo diz – ou seja, um pária.

Nakata também sairá de Tóquio, após um acontecimento que mudará seu destino, e, sem saber por quê, seguindo apenas os seus instintos, com a ajuda de Hoshino – um jovem caminhoneiro meio atrapalhado – chegará a Takamatsu.

Entre várias outras, essas são algumas das “esquisitices” do livro de Haruki Murakami (1949). Os relatos sobre os dois personagens vão se alternando entre a realidade objetiva da narrativa e mundos paralelos; chuvas de peixes e sanguessugas e pedras enormes que, se movidas, abrem portais para outros mundos e os diálogos entre Kafka e o seu alter ego, o Menino Corvo (kafka em tcheco significa corvo), estão entre essas “esquisitices”, sem deixar de lado também sua enorme cultura musical.

Quem conhece outros livros de Murakami e aprecia o seu estilo fantástico, onírico, talvez goste de Kafka à beira-mar, que traz, em relação a outros títulos seus, um excesso de situações paranormais. Já para quem não o conhece, e não é um aficionado de literatura fantástica, a leitura pode se tornar bastante aborrecida, uma vez que se estenderá por quase seiscentas páginas.

Murakami tem um enorme fã-clube, tanto dentro quanto fora do Japão, e sempre há uma enorme expectativa quanto à escolha do seu nome para receber o Prêmio Nobel de literatura; porém, a verdade é que a sua literatura está mais próxima do best-seller e de um estilo que agrada ao público de jovens leitores do que o cânone, ao qual a Academia Sueca costuma premiar, apesar das surpresas ocorridas nos últimos anos.

 

Kafka à beira-mar

Haruki Murakami

Alfaguara

Tradução: Leiko Gotoda

571 pgs.

 

 

 

A trilogia de Nova York – Paul Auster

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capa A trilogia de Nova York

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Trecho:

 

“Não pretendo me alongar a respeito desse assunto. Mas as circunstâncias que levam uma vida a mudar de curso são tão variadas que parece impossível dizer qualquer coisa sobre um homem até que esteja morto. Não só a morte representa o único árbitro autêntico da felicidade (pensamento de Solon), como também estabelece a única medida pela qual podemos julgar a vida em si mesma.” (O quarto fechado, Paul Auster)

 

Publicada originalmente em 1987, A trilogia de Nova York, do norte-americano Paul Auster (1947), foi o livro que alavancou a carreira do autor e levou seu nome a estar entre os principais escritores contemporâneos de seu país. Antes dele, Auster havia publicado apenas dois livros: Squezee Play (1982), um romance policial publicado sob o pseudônimo de Paul Benjamin, e A invenção da solidão (1982), espécie de livro de memórias e ensaio, cujo tema principal é a paternidade, partindo da sua experiência pessoal de perder o pai aos 30 anos, três meses antes do nascimento do seu primeiro filho.

Em suas primeiras obras, Paul Auster já define as características mais marcantes da sua Trilogia de Nova York e que farão do livro um de seus principais best-sellers: um suspense noir bem construído com pitadas de ensaio e autorreferência.

O livro é formado por três novelas policiais que se entrelaçam, mas que podem ser lidas de forma autônoma. Na primeira, Cidade de vidro, Quinn é um obscuro escritor de livros policiais que, tarde da noite, por engano, recebe um telefonema. Do outro lado da linha, um homem aflito procura por um investigador particular chamado… Paul Auster! Apesar de Quinn afirmar que não é o investigador e que não o conhece, nas duas ou três noites que se seguem, os telefonemas persistem, até que o escritor, curioso para viver aventuras semelhantes àquelas que inventa, decide levar aquela história até as últimas consequências: confirma ser, de fato, Paul Auster, aceita o pedido de ajuda e começa a investigar um professor universitário, Stillman, que jurou vingança contra o próprio filho, Peter, após passar treze anos na prisão por causa dele.

A segunda novela, Fantasmas, Blue é contratado por White para espionar Black, porém, o serviço aparentemente monótono e inócuo, vira-se contra Blue quando ele tenta descobrir quem de fato é White, porquê o contratou e, principalmente, se não é ele próprio quem está sendo observado. A impessoalidade dos nomes das personagens pode causar alguma confusão no momento da leitura, mas também aprofunda o efeito de perplexidade que a história causa conforme se aproxima de seu desfecho.

Por fim, O quarto fechado é a história chave da trilogia e que ilumina parte do entendimento das anteriores em retrospectiva. Na novela, Fanshawe é um desconhecido candidato a escritor que, apesar do brilhantismo que todos preconizam sobre o seu futuro, desaparece deixando mulher e um filho recém-nascido.

A história é narrada por um amigo de infância de Fanshawe, escolhido, pelo próprio desaparecido, para avaliar o seu legado literário – três romances e quatro livros de poemas.

Procurado por Sophie, esposa do desaparecido, o narrador consegue publicar o material e transformar a obra em um “best-seller póstumo”, além de se envolver com a mulher de Fanshawe e assumir a paternidade de Ben, o filho do casal. No entanto, quando tudo parece bem, os “fantasmas do passado” surgem para atrapalhar o futuro promissor que parecia estar a caminho.

Como já foi dito, as três novelas noirs que fazem parte da trilogia são muito bem construídas, mas percebe-se que, para o autor, o clima e a tensão criados para envolver o leitor na trama são mais importantes do que o desfecho delas ou a resolução de um mistério que as perpassa. Talvez por isso, o leitor pode ter a sensação de que todas as histórias, na verdade, são uma única, contada sob pontos de vista diferentes.

O acaso, a solidão e, claro, a cidade de Nova York parecem se unir nas tramas sombrias de Auster de uma forma que o perigo é menos físico do que psicológico. A vida parece ser algo que corre menos risco de ser perdida do que a própria sanidade – o que acaba dando no mesmo -, conforme o leitor avança nas tramas. Há também um tema que se repete na Trilogia, ao menos em duas das novelas – Cidade de vidro e O quarto fechado – e que parece recorrente na obra de Paul Auster, como em seu último livro lançado no Brasil, Sunset Park (2010): as relações familiares complicadas e traumáticas.

A trilogia de Nova York de Paul Auster é um livro que pode servir de ponto de partida para quem quer conhecer a obra de um dos mais importantes autores norte-americanos contemporâneos. Para quem já o conhece, pode servir como peça fundamental para o entendimento de sua obra e o aprofundamento do conhecimento em suas temáticas e obsessões.

 

A trilogia de Nova York

Paul Auster

Companhia das letras

Tradução: Rubens Figueiredo

337 pgs.

 

 

O mestre e Margarida – Mikhail Bulgákov

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Trecho:

“Daí, bem na saída para a Brônnaia, ergueu-se do banco, na direção do editor, aquele mesmo cidadão que, à luz do sol, moldara-se a partir do calor gorduroso. Só que agora ele não era mais feito de ar, mas normal, de carne, e, no começo do crepúsculo, Berlioz distinguiu nitidamente que ele tinha um bigodinho como penas de galo, olhinhos diminutos, irônicos e meio embriagados, e calças xadrez tão curtas que dava para ver as meias brancas sujas.

Mikhail Aleksándrovitch até recuou, mas se confortou imaginando que se tratava de uma coincidência estúpida e, de qualquer forma, ele não tinha tempo para pensar naquilo.

– Está procurando a catraca, cidadão? – indagou o tipo de xadrez, com voz de tenor rachada. – Por aqui, por favor! Em frente, e verá para onde deve ir. Por essa indicação, deveria me dar um quarto de litro… para encher a barriga… um ex-regente de coro – curvando-se, o sujeito retirou o quepe de jóquei com um gesto largo.

Berlioz não deu ouvidos à afetação pedinte do regente, correu até a catraca e colocou a mão nela. Ao girá-la, estava a prestes a ir até os trilhos quando, em sua cara, jorrou uma luz vermelha e branca: na caixa de vidro acendera-se a inscrição ‘Cuidado com o bonde!’.

Imediatamente o bonde veio voando, girando pela linha recém-construída que ia da Iemoláievski para a Brônnaia. Depois de fazer a curva e se aprumar, ele de súbito acendeu a luz elétrica interna, uivou e acelerou.

Cuidadoso, Berlioz, embora tivesse em segurança, resolveu passar para trás da barreira, colocou a mão na catraca e retrocedeu um passo. E sua mão escorregou de imediato e escapou, uma perna deslizou irresistivelmente pelo calhau da ladeira que ia dar nos trilhos, como se fosse gelo, a outra perna virou para o ar, e Berlioz foi atirado nos trilhos.

Tentando se agarrar em alguma coisa, Berlioz caiu de costas, batendo levemente a nuca no calhau, e conseguiu ver, no alto, mas já sem saber se à esquerda ou à direita, a lua dourada. Conseguiu virar-se de lado com um movimento furioso, encolhendo no mesmo instante as pernas e a barriga e, ao se virar, vislumbrou o rosto completamente branco de pavor e a braçadeira escarlate de condutora, avançando em sua direção com velocidade irrefreável, Berlioz não gritou, mas, a seu redor, gritos desesperados de mulheres esganiçaram-se por toda a rua. A condutora puxou o freio elétrico, o vagão embicou o nariz no chão, depois, em um instante, deu um salto, e com o estrondo e um tinido, o vidro voou de suas janelas. Daí, no cérebro de Berlioz, alguém gritou, desesperado: ‘Será?’. Mais uma vez, a última, a lua brilhou, mas já se desfazendo em estilhaços, e depois ficou escuro.

O bonde acertou Berlioz e, por debaixo das grades da alameda do Patriarca, um objeto escuro e redondo foi lançado na ladeira de calhau. descendo a ladeira, foi quicando pelo calhau da Brônnaia..

Era a cabeça de Berlioz.” (pgs. 52-53)

 

 

Entre 1928 e 1940, o russo Mikhail Bulgákov (1891-1940) escreveu O Mestre e Margarida, uma sátira política ao regime soviético comandado à época por Josef Stálin (1879-1953), sabendo que, caso o manuscrito fosse descoberto, correria sério riscos de retaliação – ou coisa pior – e que, possivelmente, nunca veria sua obra publicada. Em seus últimos dias de vida, quase cego e diagnosticado com neuroesclerose hipertônica, o que dificultava seus movimentos, dedicava-se febrilmente à revisão do livro com o auxílio da terceira esposa, Ielena Serguêievina, que lhe inspirou a heroína da obra, imaginando que deixaria um grande legado à literatura russa. Praticamente todas as suposições de Bulgákov se confirmariam no futuro.

Publicado mais de vinte anos após a morte de seu autor – a primeira publicação do livro, com alguns cortes, saiu em folhetim numa revista soviética em 1966 enquanto que a edição completa seria publicada em 1973 -, O Mestre e Margarida é um desses livros que lemos num misto de espanto e admiração, de incredulidade e arrebatamento, diante do encanto por uma obra que supera a nossa expectativa em termos de criatividade, sensibilidade e imaginação a tal ponto que passamos a nos questionar se o texto que temos nas mãos se trata realmente de algo feito por um ser humano.

No livro, Satã, ou Woland, como é chamado, surge com seu séquito infernal para pôr a Moscou dos anos 30 de pernas para o ar. Ao lado de Behemot, um gato preto gigante, chegado a uma boa vodka e uma patuscada, Korôviev (Fagote), um espigado e atento secretário de pince-nez rachado, Azazello, o assustador nanico, de ombros largos e aparência horrível, com seu olho branco, responsável pelos trabalhos sujos, e Hella, a empregada de olhos incandescentes e que passa o tempo todo nua, Woland é especialista em magia negra e se instala na casa Mikhail Aleksándrovitch Berlioz, editor de uma revista de artes e “presidente do conselho de uma das maiores associações literárias de Moscou”, depois da celebridade literária pró-regime morrer tragicamente decapitada por um trem num acidente banal.

O problema é que Berlioz morre logo após um encontro fortuito com Woland, após ele sugestionar – e descrever em detalhes – que algo como um acidente terrível como aquele poderia acontecer a qualquer momento com qualquer pessoa. O jovem poeta Ivan Ponyriov (cujo pseudônimo é Bezdômny), que acompanhava Berlioz, quando foram abordados pelo “misterioso cidadão” na conversa de ambos sobre a existência de Deus, é testemunha daquele presságio sinistro e da morte do amigo e persegue Woland pelas ruas da capital soviética, com direito a um mergulho de ceroulas no rio Moscou e o sumiço de suas roupas que havia deixado com um velho que estava à margem do rio.
Ao ser encontrado pela polícia, e confiirmar suas informações com um relato coerente, apesar de inverossímil aos olhos de quem não presenciou os prodígios daquela alucinante perseguição, Bezdômny é encaminhado para o hospício. O local passará a ser o ponto de encontro entre todos os que tiveram algum contato com o grupo infernal, será para lá que acabarão indo, mais cedo ou mais tarde, até que alguém se dê conta que algo realmente estranho está acontecendo em Moscou naqueles quatro ou cinco dias, que é o tempo de duração da história.

O relato da primeira parte de O mestre e Margarida é baseada nas peripécias dessa trupe diabólica e é capaz tanto de fazer gargalhar ao leitor mais austero quanto de arrepiar de horror ao leitor mais frio. Na segunda parte, o foco passa a ser o casal que dá título à obra.

Mestre é o autor de um romance sobre Pôncio Pilatos, o governador romano da Judéia, responsável pela condenação de Jesus Cristo. O romance escrito pelo Mestre é duramente criticado pelos literatos oficiais, uma vez que o regime é ateu, e, após uma campanha difamatória, ele acaba por queimar o manuscrito, destruindo um trabalho ao qual dedicou vários anos (no romance de Bulgákov, alguns capítulos do livro são transcrições do “romance” escrito pelo Mestre, como a conversa entre Pilatos e Jesus que antecede o julgamento, assim como a morte de Judas e a própria cena da crucificação, e têm excelente qualidade literária, fazendo dos trechos grandes exemplos de metaliteratura).

Como afirma o tradutor Irineu franco Perpétuo no posfácio da edição brasileira, publicada ano passado pela editora 34, muito da perseguição sofrida pelo mestre é baseada na própria experiência de Bulgákov, cujas obras literárias e peças teatrais eram alvo de artistas e de críticos pró-regime desde a publicação, em 1925, da novela de ficção científica, Os ovos fatais.

Durante a guerra civil de 1917, Bulgákov, que era médico de formação, serviu no Exército Branco, partidário do regime czarista, contra o Exército Vermelho, por isso sua obra satírica sempre foi acompanhada de perto pelo regime, inclusive tendo sido ela recolhida pela polícia, em 1926, juntamente com seus diários, para depois ser devolvida, após os documentos terem sido copiados.

Já Margarida, a ex-amante do Mestre, se casa com um homem que não ama, depois que seu amado é internado, cerca de um ano antes, no mesmo hospício para o qual são encaminhados as vítimas do séquito de Woland. Lá, o mestre acaba conhecendo o jovem poeta Bezdômny, e acreditando em sua assustadora história, enquanto que Margarida, apenas sonha com o momento em que poderá vê-lo novamente. Oportunidade que surgirá graças à intercessão de Woland, mas que não iremos antecipar.

Influenciado pelo Fausto de Goethe (1749-1832) e pela adaptação para a ópera da obra, escrita pelo francês Charles Gounod (1818-1893), à qual Bulgákov assistiu mais de quarenta vezes, O mestre e Margarida guarda grandes semelhanças com uma ópera-bufa, com cenas memoráveis e magistrais desenvolvidas por Bulgákov, como o espetáculo de magia e ilusionismo feito para a nata moscovita em um grande teatro e a festa de arromba que Woland dá para seus convidados do “outro mundo”, onde a dramaticidade e a comicidade das cenas vão se alternando, dando ao livro as dimensões de uma obra-prima multiartística.

As descrições de Moscou, principalmente no voo que Margarida faz pela cidade, pouco antes de seu encontro com Woland, e a narrativa do mestre sobre Pilatos e Jesus reforçam a sensação do leitor de se estar diante de um narrador de incrível talento, que lutou com todas as suas forças contra as dificuldades que o cercavam para construir uma obra grandiosa.

Nem é preciso chegar ao fim de O mestre e Margarida para perceber a dimensão artística que seu autor conseguiu alcançar na realização da obra, mas saber de todo o processo que envolveu a sua construção faz com que essa grandeza que ele alcançou se amplie ainda mais.

 

O mestre e Margarida

Mikhail Bulgákov

Editora 34

Tradução: Irineu Franco Perpétuo

401 pgs.

 

O selvagem da ópera – Rubem Fonseca*

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Monumento túmulo de Carlos Gomes em Campinas -SP.

Monumento túmulo de Carlos Gomes em Campinas -SP. (Imagem: Conservatório Carlos Gomes)

Trecho:

“O ELOGIO DOS TOLOS E A INVEJA DOS ZOILOS

Um ou dois dias depois. Casa de Nadina. Ela e Carlos estão no salão da casa. Jornais espalhados pelos sofás.

Nadina, lendo: ‘Aplaude-se sem reservas ao mancebo ousado, que sem incerteza e tentâmen, ganhou um dia a coroa artística tão invejada, que tantos gênios têm banhado com suores de sangue e angústia’. (Pausa. Pega outro jornal) ‘Vê o que diz este: Gomes é filho de si mesmo; nada viu, estudou ainda pouco e adivinhou tudo. A noite do castelo não é a obra perfeita que derrube um Fidelio de Beethoven, um Don Giovanni de Mozart, um Guilherme Tell de Rossini, mas embora sendo da mesma escola, não tem nenhuma imitação servil e sua inspiração guarda bem toda a originalidade de sua individualidade artística. É belo triunfar assim aos vinte anos.’ Pausa. ‘Vinte anos!’ (Na verdade ele tem vinte e cinco.) Nadina acariacia o rosto de Carlos: ‘És um menino’.

Mas não apenas de elogios a Carlos estão cheias as gazetas.”(pg. 26)

 

Desde que surgiu no cenário literário nacional, com a publicação da coletânea de contos Os prisioneiros (1963), Rubem Fonseca (1925) sempre teve seu nome ligado a narrativas de forte cunho urbano, tendo a violência como um dos principais temas dos enredos de seus romances e contos, e o uso incessante da linguagem coloquial em seus diálogos.

Foram essas características encontradas em sua obra literária que o consagraram, por mais de vinte anos, como uma das vozes narrativas mais importantes do Brasil. No entanto, em 1990, Fonseca publicou Agosto, um livro que misturava personagens reais e imaginários para contar a sua versão de um dos momentos políticos mais dramáticos da história do Brasil – a crise política que culminou com o suicídio de Getúlio Vargas (1883-1954) naquele fatídico mês do ano de 1954 – e se tornou um de seus livros mais conhecidos, um best-seller que, inclusive, foi adaptado para a TV, em forma de uma minissérie.

Publicado quatro anos depois de seu maior sucesso, O selvagem da ópera (1994), seguiu, em parte, a estratégia que havia dado certo com Agosto, ao basear seu enredo em um personagem histórico, porém, escrito de uma forma diferente e até inusitada: como um texto que serviria de base para o roteiro de um filme – que, diga-se, até hoje não foi realizado.

O livro conta a história do maestro e compositor Antônio Carlos Gomes (1836-1896), autor de óperas de sucesso como O guarani (1870) – adaptado do romance homônimo de José de Alencar (1829 – 1877) – e Fosca (1873), único autor não nascido na Europa a fazer sucesso no restrito e sofisticado mundo da ópera na segunda metade do século XIX.

Nesta obra híbrida, meio romance, meio biografia, o texto é rico em imagens e detalhes, como vestimentas e cenários, e todo escrito na forma passiva, com trechos curtos, fragmentados, onde poucas sequências, sobretudo as que são realizadas em momentos cruciais, como o ensaio ou apresentação de uma ópera, ou uma cena que requer mais dramaticidade, como uma briga ou uma crise de ira doméstica de Gomes, se estendem por mais de quatro páginas. Às vezes, Fonseca chega ao preciosismo de indicar de qual forma a câmera deve enquadrar a cena ou o personagem.

Muitos dos trechos do livro são extraídos da extensa produção epistolar do maestro, que, mais do que óperas, hinos e músicas populares, foi um prolífico missivista, tendo inúmeros correspondentes, dos quais se destacam o engenheiro André Rebouças (1838-1898) e o engenheiro, romancista e músico Alfredo D’Escragnolle de Taunay, o Visconde de Taunay (1843-1899), amigos, admiradores e defensores da obra de Carlos Gomes.

Nascido em Campinas, interior de São Paulo, Carlos Gomes foi para a corte do Rio de Janeiro aos vinte e três anos, em 1859 – aqui se inicia O selvagem da ópera -, tentar a sorte como compositor, após alguns amigos de famílias abastadas, que conheceu em São Paulo, prometerem que o ajudariam a ter uma conversa com o imperador Dom Pedro II (1825-1891), um reconhecido apreciador e mecenas das artes em geral, para que este lhe conseguisse uma bolsa de estudo em um instituto de música europeu.

A conversa reservada entre Gomes e Dom Pedro ocorre, graças à intercessão da condessa do Barral (1816-1891), que lhe é apresentada pelo pai de um amigo. Deste encontro, entre o monarca e o músico, nasce uma profunda simpatia do primeiro para com o segundo, além de uma grande idolatria do segundo para com o primeiro, mas não a bolsa que tanto Gomes esperava conseguir.

Recebe, sim, uma indicação do imperador recomendando-o para o diretor do Conservatório Nacional, Francisco Manuel da Silva, onde passará praticamente cinco anos aprimorando suas técnicas musicais e estudando para deixar de ser apenas um jovem provinciano compositor de marchinhas e canções populares.

Após o sucesso e a aclamação de duas óperas, escritas e apresentadas durante o seu período no Rio de Janeiro – Noite no castelo (1861) e Joana de Flandres (1863) -, Gomes consegue finalmente o subsídio imperial para estudar e trabalhar em Milão, onde chega no início de 1864. No entanto, aquilo que todos pensavam ser apenas o começo da consagração internacional de um talento incontestável, mostra-se o começo de uma atribulada carreira de altos e baixos.

Muito dessa instabilidade na vida pessoal e profissional, também se deve ao temperamento instável de Carlos Gomes, sujeito a períodos de intenso trabalho e outros períodos, ainda mais longos, de grande melancolia e prostração, fazendo com que sua obra seja bastante irregular e incipiente.

Apesar de mais de trinta anos de carreira,  Carlos Gomes produz somente nove óperas, desistindo ou até destruindo outras tantas, e, embora algumas tenham feito grande sucesso, sua produção é bem inferior às obras produzidas por seus contemporâneos Giuseppe Verdi (1813-1901) e Richard Wagner (1813-1883).

O casamento com a pianista italiana Adelina Peri também não foi capaz de apaziguar o espírito irascível de Carlos Gomes. Apesar da devoção da esposa e o desejo de se casar com o “selvagem brasileiro”, como era tratado Gomes pela família da pianista, por causa de sua cor bronzeada e os cabelos revoltos, que o compositor insistia em alisar com ferro quente. No livro, Fonseca mostra como o maestro gradualmente vai perdendo o interesse por Adelina, preferindo a companhia de outras mulheres da sociedade, encantadas com seu porte e exotismo, e se entregando a outros prazeres que viria a descobrir na Europa, como o fumo e a bebida.

A perda de quatro filhos ainda nos primeiros anos de vida, embora não determinante, pode ter sido um fator desencadeador da inimizade que nasceu entre o casal ao longo do tempo. Apenas dois filhos, Carletto e Ítala, chegaram à vida adulta; embora Carletto, de saúde frágil, tenha falecido aos vinte e cinco anos, pouco depois do pai.

Na Itália e no Brasil, muitos amigos influentes tentaram auxiliar Gomes em sua carreira, para que ele apenas pudesse se dedicar à criação artística. Rebouças, Taunay e o próprio Dom Pedro II, tentavam interceder junta à Câmara de deputados para que uma verba ou pensão fosse concedida ao maestro, mas as dificuldades políticas, com as campanhas abolicionistas e republicanas em andamento, sempre se mostravam um problema a mais para que conseguissem o auxílio para um artista que sempre se mostrou protegido de um governante cada vez mais fraco, além de quase que totalmente esquecido por seus compatriotas e, pior, improdutivo – Gomes passou dez anos, de 1879 a 1889, sem produzir uma única ópera.

Mesmo não sendo o foco principal de O selvagem da ópera, Rubem Fonseca, em linhas gerais, apresenta esses problemas que afetavam o País, naquele momento, e foram determinantes para a queda do Império, mais do que as tentativas frustradas em salvar a vida financeira e pessoal de um artista que se mostrava inapto para as coisas simples da vida, como garantir a própria sobrevivência e a da sua família através de seu trabalho.

Orgulhoso ao extremo, Gomes sofria ao pedir para que seus amigos intercedessem por ele. Também por essa ambiguidade entre o orgulho pelo talento e pela obra e a humildade por sua origem provinciana, reside boa parte dos problemas pessoais do maestro brasileiro e que o marcaram por toda a vida. Assim como a sua vontade de ser aceito, adorado e aclamado pelo público, sofrendo enormemente quando isso não acontecia, e de ser igualmente reconhecido pela crítica ou por outros compositores contemporâneos.

Seu caiporismo persecutório, um caboclo que fez sucesso na corte graças a um talento eminentemente elitista – a música erudita -, o “selvagem brasileiro” que é ovacionado nos grandes salões de ópera europeus, como o Scala de Milão, por trazer novidades e uma nova roupagem ao extravagante e seleto mundo da ópera da segunda metade da segunda metade do século XIX, de alguma forma, devia incomodar muita gente que não gostaria de o vê-lo circulando por ali, num mundo que não lhe pertencia, onde imperava a vaidade e onde qualquer resquício de fraqueza ou de uma origem duvidosa era pago com a humilhação.

Como um bom herói operístico, no fim da vida, Carlos Gomes termina por sucumbir aos seus problemas, pessoais e financeiros, perdendo a batalha para os seus inimigos, reais e imaginários, acabando no ostracismo, após viver momentos de glória e fortuna.

Ao contar a vida de um artista que, como tal, mais do que sofrer com o dilema que tantos outros passaram – o de agradar ao público e à crítica e/ou criar uma obra original e permanente ou um mero pastiche -, o mérito de Fonseca é conseguir mostrar não apenas essa dicotomia, mas ligá-la a um País ou, a um regime político, que vivia seus estertores, sem se preocupar com o futuro incerto que batia à porta, mas apenas com a imagem que fazia de si mesmo e, claro, o que por vezes se tornava mais importante, a imagem que queria que os outros fizessem de si.

Enfim, talvez tenha sido esse dilema que atormentou Carlos Gomes durante toda a vida e ao qual, já no início do livro, Fonseca alerta o leitor: “Isto é um filme, ou melhor, o texto de um filme que tem como pano de fundo a ópera, como principal personagem um músico que depois de amado e glorificado foi esquecido e abandonado, um filme que pergunta se uma pessoa pode vir a ser aquilo que ela não é, um filme que fala da coragem de fazer e o medo de errar”.

 

O Selvagem da ópera

Rubem Fonseca

246 pgs.

 

Trecho:

“Cena no Conservatório, no mesmo dia. Sala de Francisco Manuel da Silva. Entra Azarias.

 ‘Olha cá o artigo da Gazetilha do Jornal do Commercio sobre a estreia de Carlos Gomes: Música ora insinuante, ora arrebatada; ora gamebunda e trovejante; ora vaga e indecisa; ora precisa e retumbante…’

Azarias, interrompendo: ‘Ele está falando bem ou mal de nosso Carlos?’.

Francisco: ‘Mal, o sucesso faz medrar a inveja, sabemos bem’.

Azarias: ‘Andam apregoando que a ópera foi de fato composta por Giannini e, como o italiano está morto, Carlos se apossou facilmente dela’.

Francisco: ‘Outros difundem que o maestro Pagani fez correções tão extensas na composição de Gomes que praticamente escreveu uma outra ópera inteiramente diferente. Mas o que ele é, só a Deus e a si o deve”.

Azarias: ‘Isto é muito vago, maestro. Uma besta deve o ser besta só a Deus e a si”.

Francisco, surpreso com o retrucar de Azarias: ‘Tu estás entre aqueles que dizem estranhar como possa ter saído do cérebro de um contrapontista novato uma partitura do quilate de A noite do castelo?’

Azarias: ‘Claro que não. Sou o maior defensor de Carlos. Repito, isso que dizem não passa de inveja. Chamam-no de analfabeto devido a algumas deficiências de sintaxe e ortografia nas cartas que o jovem maestro escreveu aos jornais. Ele é um músico, não um gramático. São artiguetes anônimos das gazetas. Rosnar de zoilos despeitados. Este é um tributo pago por todos aqueles que se elevam acima dos comuns’.”(26-27)

 

*No Brasil, a última edição de O selvagem da ópera foi publicada pela Nova Fronteira em 2011 e se encontra indisponível no momento. A edição lida para a resenha é a primeira publicada pela Companhia das letras em 1994.

 

 

Drummond, Henry Miller e as pancadas que a vida nos dá

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Estátua de Carlos Drummod de Andrade em Copacabana

O niilista feliz

 

No início de Trópico de Câncer, Henry Miller afirma que aquilo que escreve, o texto que viria a se tornar o seu mais famoso livro, é “um pontapé no traseiro de Deus, do Homem, do Destino, do Tempo, do Amor, da Beleza… e do que mais quiserem”. Além de blasfema, cômica e revelar bem o caráter anárquico e niilista do autor, a frase não deixa de demonstrar certa influência antirreligiosa de origem germânica que teve, entre outros representantes, Goethe, Nietzsche e (por que não?) Marx.

Exagero à parte, descendente de alemães, embora norte-americano de nascimento, Miller, um misantropo assumido e que reservava muito pouca consideração para com seus semelhantes, tinha grande admiração por seu avô – admiração revelada em seu outro igualmente conhecido livro, Trópico de Capricórnio, publicado em 1939, cinco anos depois de Trópico Câncer -, um sapateiro alemão que nunca falou uma palavra de inglês, mesmo vivendo muitos anos em Nova York.

Ao escrever sua obra-prima, o que Miller faz, na verdade, é “uma vingança contra a realidade”, na forma como está explicitada na célebre definição de Flaubert. Tendo passado muitos percalços em sua vida, o escritor norte-americano foi para Paris já perto dos quarenta anos, esperando viver de sua própria arte (e conseguiu, ao contrário do que se poderia esperar para alguém que não tivesse a sua obstinação).

Ainda em Trópico de Câncer, pouco antes da afrontosa blasfêmia, o autor indica o motivo que lhe fez fazer tal afirmação contra o Criador: a consciência de ser um artista e de que nada em contrário que qualquer pessoa pudesse dizer poderia demovê-lo daquela opinião.

 

“Não tenho dinheiro, nem recursos, nem esperanças. Sou o mais feliz dos homens vivos. Há um ano, há seis meses, eu pensava em ser um artista. Não penso mais. Eu sou. Tudo quanto era literatura se desprendeu de mim. Não há mais livros a escrever, graças a Deus.”*

 

De bravata em bravata, de provocação em provocação, devolvendo todo seu rancor e frustração acumulados até então, em suas páginas o autor vai desconstruindo e destruindo tudo aquilo que possa diminuí-lo artisticamente, fazendo de sua arte profissão de fé, quase como um camicase, um verdadeiro “terrorista das letras”, cuja defesa de seus princípios e dons artísticos parecem os principais – na verdade, únicos – objetivos capazes de mobilizá-lo.

Não por acaso, o peruano Vargas Llosa, em As verdades das mentiras, um livro de ensaios em que o Nobel de Literatura lista e analisa as 25 melhores obras literárias do século XX, na sua opinião, classifica Miller como o “Niilista feliz”. Nada deixaria Miller mais feliz do que derrubar todo tipo de obstáculo, fosse ele artístico ou não, para edificar entre os destroços apenas a sua concepção de arte.

 

Palavras que ressoam

 

No primeiro dia do ano, fazendo uma viagem curta de ônibus, me lembrei do início de Trópico de Câncer, e aquelas palavras, tão cruéis quanto cômicas – “um pontapé no traseiro de Deus”, encontraram ressonância numa antologia de poemas de Carlos Drummond de Andrade** que escolhi para me fazer companhia em minha primeira viagem do ano.

A primeira parte da antologia, denominada “Um eu todo retorcido”, traz poemas com alto teor crítico e um amargor contundente que atingem um homem na casa dos quarenta anos, ou seja, mais ou menos no meio do caminho existencial, e com poucos problemas resolvidos, como uma “bomba”.

Poemas como os clássicos “José”:

 

“E agora, José?/A festa acabou,/a luz apagou,/o povo sumiu,/a noite esfriou,/e agora, José?/e agora, você?/você que é sem nome,/que zomba dos outros,/você que faz versos,/que ama, protesta?/e agora, José?”

 

Ou “A flor e a náusea”:

 

“Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta./Melancolias, mercadorias, espreitam-me./Devo seguir até o enjôo?/Posso, sem armas, revoltar-me?”

 

E outros poemas menos conhecidos, mas igualmente dolorosos, como “Consolo na praia”, que aqui segue inteiro:

 

“Vamos, não chores./A infância está perdida./A mocidade está perdida./Mas a vida não se perdeu./O primeiro amor passou./O segundo amor passou./O terceiro amor passou./Mas o coração continua. Perdeste o melhor amigo./Não tentaste qualquer viagem./Não possuis carro, navio, terra./Mas tens um cão./Algumas palavras duras,/em voz mansa, te golpearam./Nunca, nunca cicatrizam./Mas, e o humour?/A injustiça não se resolve./À sombra do mundo errado/murmuraste um protesto tímido./Mas virão outros./Tudo somado, devias/precipitar-te, de vez, nas águas./Estás nu na areia, no vento…/Dorme, meu filho.”

 

Coincidentemente, os três poemas são de uma mesma época, em que o poeta itabirano, mostrava-se mais sensível a textos de cunho social e existencialista: “José” foi publicado em 1942, no livro Poesias, enquanto que “A flor e a náusea” e “Consolo na praia” foram publicados em A rosa do povo, de 1945.

Da mesma forma que todos eles caem sem piedade sobre escombros de sonhos de juventude em meio a uma vida vazia de realizações, afetos e sentido, Drummond – nascido em 1902 -, assim como Henry Miller, estava na casa dos quarenta anos e certamente muito do que colocava em seus textos eram suas angústias pessoais como homem e como artista, uma vez que não devia ter ideia do significado que sua obra adquiriria ao longo do tempo.

Drummond surge na primeira manhã do ano como uma espécie de Henry Miller mineiro que, se não tem a ousadia de atacar Deus de frente, provocando-o e insultando-o, por outro lado, não tem o menor pudor de tripudiar sobre o homem de meia-idade, que ele também era na época da escrita desses poemas, e que se mostra aquém dos seus desejos mais verdadeiros e secretos.

Se a idade e as proeocupações inerentes a ela, como homem e artista, une a ambos, algo bem diverso é a postura que cada um adquire diante de toda a problemática levantada. Enquanto Miller se arroga ao direito de se afirmar artista diante de todas as adversidades encontradas, mesmo que isso não passe de uma convicção pessoal, sem qualquer sustentação aparente no mundo real – uma vez que nada, realmente nada, em sua vida de então lhe dava a certeza de ser reconhecido como tal, a não ser a própria obra que produzia numa solidão e num ambiente totalmente desfavoráveis -, Drummond se apega a uma humildade quase indigente do homem, num estado de solidão e de abandono quase desesperadores diante da derrota, seja ela iminente ou consumada, para, a partir daí, pensar em algo que possa redimi-lo de tamanha desolação.

Talvez a humildade e o desespero dos versos Drummond sejam apenas aparentes, não passando de sua estratégia para a vitória que, sem dúvida, ele próprio alcançaria no fim da vida – e com justiça; nem a arrogância e a temeridade de Miller fossem verdadeiramente o que sentisse diante do cenário do submundo parisiense, no qual se debruçava para escrever o seu libelo contra Deus.

De qualquer forma, se observarmos ambas as estratégias pelo prisma de um analista de RH, Miller foi bem mais assertivo do que Drummond, embora a sua soberba possa causar muita antipatia, ao que ele certamente não daria a mínima. Em todo caso, ao final, ambos se mostraram grandes vencedores, apesar de seguirem caminhos totalmente diferentes tanto na literatura quanto na vida.

O poeta mineiro não teve uma vida tão aventureira quanto o escritor norte-americano, nem uma verve tão niilista e anárquica. Funcionário público de carreira, chegou até a ser chefe de gabinete do Ministro da Educação do primeiro governo de Getúlio Vargas (1930-1945), Gustavo Capanema, e contentou-se com uma vida pacata e a segurança mínima que um assalariado do governo pode contar enquanto exercia a sua verdadeira vocação: a poesia.

No entanto, apesar de poeta, nunca deixou de observar com atenção as mazelas públicas e as frustrações privadas que um homem medíocre de classe média pode acumular ao longo da vida. Este sentido de observação aguda, que também se estende para as pequenas coisas do cotidiano, faria com que Drummond se tornasse um dos grandes cronistas de sua época. Por muitos anos, o poeta também se dedicou à crônica, escrevendo para os principais jornais do País, o que lhe garantiu uma renda extra até o fim da vida.

Se Henry Miller, com Trópico de Câncer, de maneira metafísica e bravateira, atinge um belo “pontapé no traseiro de Deus”, Drummond não deixa por menos, e acerta outro belo “chute no saco do homem de meia-idade” tirando-o de combate por algum tempo, sem fôlego e sem ânimo, diante da pequenez da vida pregressa que carrega e da que vislumbra para o futuro. E descobrir este fato numa época de tanto pessimismo e reflexão, não deixa de ser um golpe baixo. Mais um que a vida nos dá.

 

*Trópico de Câncer, Henry Miller, Biblioteca Folha de S. Paulo, 2003, tradução Aydano Arruda.

**Antologia poética, Carlos Drummond de Andrade, José Olympio, 1978.

O tango da velha guarda – Arturo Pérez-Reverte*

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capa O tango da velha guarda

Capa: Divulgação

Trechos:

 

“- Um amigo meu dizia que existem tangos para sofrer e tangos para matar. Os originais eram do segundo tipo.

Mecha Inzunza havia apoiado um cotovelo na mesa e o rosto ovalado na palma da mão. Parecia ouvir com extrema atenção.

– Alguns o chamam de Tango da Velha Guarda… – disse Max. – Para diferenciá-lo do novo. Do moderno.

– Belo nome – comentou o marido. – De onde vem?

Seu rosto não estava mais inexpressivo. Outra vez a expressão amável, de anfitrião atencioso. Max balançou as mãos como se quisesse salientar uma obviedade.

– Não sei. Um antigo tango se chamava assim: ‘La Guardia Vieja…’ Não saberia lhes dizer.

– E continua… obsceno? – perguntou ela.

Um tom opaco, o de Mecha Inzunza. Quase científico. O de uma entomologista perguntando, por exemplo, se era obscena a cópula de dois escaravelhos. Supondo, concluiu Max, que os escaravelhos copulassem. Que, certamente, sim.

– Dependendo do lugar – confirmou.

Armando de Troeye parecia encantado com tudo aquilo.

– O que está contando é fascinante – disse. – Muito mais do que imagina. E altera algumas ideias que eu tinha na cabeça. Gostaria de presenciar isso… Vê-lo em seu ambiente.

Max fez uma careta, evasivo.

– Não é tocado em locais recomendáveis, naturalmente. Não que eu saiba.

– Conhece lugares assim em Buenos Aires?

– Conheço alguns. Mas não se pode dizer que sejam adequados. – Olhou para Mecha Inzunza. – São lugares perigosos… Impróprios para uma senhora.

– Não se inquiete com isso – disse ela com muita frieza e muita calma. – Já estivemos em lugares impróprios.” (pgs. 60 – 61)

 

Aventura, amor, traição, personagens complexos e fascinantes e um intrincado enredo que perpassa quase quarenta anos da História do século XX. Tais características seriam um belo resumo para uma novela de sucesso do horário nobre, mas aliadas à grande sofisticação e à ambição literária tornam-se um extraordnário romance, o que, de fato, é O tango da velha guarda, do espanhol Arturo Pérez-Reverte.

O livro se inicia em 1928, com o embarque do compositor de tango Armando de Troeye, espanhol de 43 anos, para Buenos Aires, no transatlântico Cap Polônio, em busca de material para novas composições e o desejo de conhecer a fundo o gênero que lhe deu sucesso e notoriedade na Europa, apesar do quase completo desconhecimento do tango e do papel dele dentro da cultura argentina.

De Troeye é um bon-vivánt que, por um golpe de sorte, alcançou o sucesso, se inebriou com ele, e tem dificuldades em abandonar a vida de prazer e luxo extremos a que se acostumou ao lado de sua jovem esposa, Mecha Inzunza, mulher belíssima e sedutora.

Já a bordo do Cap Polônio, o casal conhece Max Costa, jovem dançarino de tango, contratado pelo navio para entreter as mulheres, sejam elas jovens inocentes ou senhoras elegantes e finas, que tenham algum interesse em aprender a dançar. Nascido em Buenos Aires, onde viveu até o início da adolescência antes de perambular por parte da Europa e norte da África como legionário, Max é um arrivista sedutor que coleciona suveniers caros de seus casos (vítimas) e, depois de algum tempo, se desfaz deles para, com o dinheiro conseguido, incrementar o vestuário e mudar de endereço, principalmente de cidade, uma vez que seu verdadeiro trabalho sempre ocasiona problemas com a polícia.

A atração do casal por Max e deste para Armando e Mecha é imediata. De Troeye tem a chance de conhecer os antros mais sombrios de Buenos Aires onde, segundo o dançarino, ainda é praticado o famoso “tango da velha guarda”, espécie de dança primitiva, ainda mais dramática e sensual que a praticada em lugares socialmente aceitáveis.

Max, por sua vez, tem a chance de tirar um bom dinheiro do casal, de uma forma lícita, e, pela gratidão que teriam para com ele, ainda ter abertas as portas de um mundo em que circula clandestinamente, à margem, quase como uma pária, para depois se refugiar em buracos indignos de um sujeito com seus modos, educação e inteligência.

Mas Mecha, uma espécie de mulher-enigma, digna representante das Capitus literárias, tem outros planos que são seguir a risca o que o marido lhe pede para fazer e lhe dar o máximo de prazer possível em qualquer que seja a situação. Ela será o pivô da frustração dos planos de Max, que acaba se apaixonando e contrariando o que reza sua cartilha.

Depois de dez anos, Max reencontra Mecha, em Nice, na França.  A Europa está em polvorosa com vários países centrais sob regimes ditatoriais – Alemanha, Itália, União Soviética -, e a sangrenta Guerra Civil na Espanha é só o início do que virá no ano seguinte. Graças à tensa situação do continente, e também à fama alcançada no submundo europeu, Max é contratado por dois italianos para fazer um serviço na casa da milionária Suzi Ferriol.

Durante uma recepção na casa da milionária, onde consegue entrar como convidado de uma nobre russa vigarista, Max encontra Mecha sem Armando, que, por problemas políticos, por ter se postado contra o governo de Franco, polemizando em jornais e em suas aparições públicas, permanece preso e incomunicável na Espanha.

Desconfiada das intenções do ex-dançarino, Mecha exige saber o que o levou até a casa da amiga, caso contrário, ameaça desmascará-lo em pleno jantar, o que ocasiona mais um contratempo na missão já difícil de ser executada e, pior, ainda terá que lidar com a lembrança das feridas abertas há dez anos.

Enquanto o relato de Buenos Aires será feito na primeira parte do livro, os acontecimentos de Nice ficam na segunda parte e, entre ambos, há uma terceira narrativa, que atravessa todo o romance, e fechará a história e o destino de Max e Mecha: um torneio de xadrez em Sorrento, Itália, em 1966, que antecipa o torneio mundial, entre o atual campeão, o russo Mikhail Sokolov e o canadense, Jorge Keller.

Keller é um promissor jogador de 28 anos e é filho de Mecha Inzunza com um diplomata canadense que ela conheceu na França. Acompanha o filho desde criança em todos os torneios e é figura fácil do séquito do rapaz, o que leva Max, agora trabalhando como chofer de um médico suiço, a reconhecê-la numa transmissão de televisão e ir ao seu encontro.

Max está com 64 anos e, apesar dos anos, ainda mantém a elegância e o charme da juventude, apesar da disposição não ser mais a mesma; Mecha, três anos mais nova, parece ter mudado mais com o tempo, mas a dedicação integral ao filho também lhe consumiu muito da energia e da beleza de outrora.

O que parece não ter mudado durante os anos são a atração explosiva que um sente pelo outro e o gosto pelo risco e o perigo. Além do tango, o xadrez também é um ingrediente importante na trama, já que com o declínio físico os personagens precisam dispor de estratégias – astúcia, sagacidade –  para alcançar seus objetivos, principlemente Max, que, desafiado por Mecha, terá que provar que não se fazem muitos homens como ele, neste ou em qualquer outro tempo.

Pérez-Reverte dedicou vinte e dois anos para escrever O tango da velha guarda e parece ter acertado em cheio ao esperar tanto tempo para dar vida ao seu carismático casal de “sem-vergonhas”, e construir um romance como pouco se vê hoje em dia, com um estilo que agrada tanto aos fãs de um bom folhetim como os de alta literatura. Grande leitura.

 

O tango da velha guarda

Arturo Pérez-Reverte

Record

Tradução: Luís Carlos Cabral

392 pgs.

 

*Esta resenha foi publicada pela primeira vez em 2013, no blog O Espanador, e revista para nova publicação.

Reflexões noturnas

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Ele continua gritando:

– B…!B…!

Não me deixa dormir e, no entanto, não consigo descer para dar-lhe uns safanões ou mesmo gritar do alto da janela e mandá-lo procurar o caminho de casa, de um modo mais agressivo e contundente, nem sequer ameaçá-lo dizendo que vou chamar a polícia.

Qualquer coisa que eu fizer não irá adiantar, pois ele continuará gritando. Pode até parar por alguns minutos, e talvez ir embora, mas depois – amanhã mesmo – estará de volta e ainda mais alucinado.

Sei que seus insultos não são para mim, nem sabe que existo, só que me incomodam profundamente. Se soubesse que estou tentando dormir, porque tenho que trabalhar cedo, ele poderia parar de gritar.

Todos respeitam um trabalhador e acredito que até esta pessoa, por mais indigna e revoltante que seja a sua situação, deve saber como é difícil levantar cedo para conseguir uns trocados para sobreviver, pois imagino que um dia este homem – se é que posso chamá-lo assim, pelo menos agora – teve família.

Família, aliás, que não tenho – graças a Deus! – e que nunca foi problema para mim, já que sempre soube que a melhor maneira de conseguir “alguma coisa na vida” é trabalhando. Desde os catorze anos trabalho e, se não sobrou tempo para estudar ou constituir família, posso afirmar, com orgulho, que os poucos bens que consegui foram através do suor do meu rosto.

Claro que não é muito. Até gostaria de ter um filho, embora não me agrade a ideia de casamento. Não sou estúpido para ainda acreditar que essas duas coisas permaneçam interligadas. Encontrar alguém que se importe com você – nem digo amar – não é fácil, principalmente quando não pode lhe oferecer nada além de honestidade, sinceridade e dedicação.

Se fosse casado neste momento, talvez minha mulher já tivesse me mandado dar um jeito nesse sujeito. Ainda tenho uma vantagem sobre os outros: não sou obrigado a fazer nada que não queira, pelo menos não em casa.

Na verdade, nem no trabalho! Lá é diferente. Faço o que meu chefe pede, sim, porque ele não manda em ninguém. Falando sério, imagino que até o cachorro da casa dele não o obedece. Sei disso porque um colega de serviço, que é seu vizinho, me contou. Ele é, como se costuma dizer, um perfeito banana! Aqui, digo, no escritório, posa de chefe, de líder e em casa é um fracasso. Palhaço! Mas, nas horas vagas, nos vingamos. É só o careca virar as costas que começamos a debochar dele, imitá-lo. Aquela cara de nazista; o bigodinho ridículo, a voz esganiçada de adolescente. Que sujeito horroroso! Só não gosto quando o pessoal começa a falar que eu o bajulo e me chama de puxa-saco.

– Faço apenas o meu trabalho – é o que respondo, me controlando para não demonstrar minha irritação.

– B…!B…!

Faz mais de duas horas que essa pessoa está gritando. Parece que não vai parar nunca. Daqui a pouco ele dorme, são três horas! Mas por que dormiria?! Não é obrigado a acordar cedo, bater o ponto, ser motivo de piada dos colegas, receber um salário de fome, às vezes, ser humilhado, ouvir aquelas baboseiras de ‘colaboradores pra cá, colaboradores pra lá’, como se todos trabalhassem voluntariamente, irmanados num único objetivo, e eles realmente se importassem conosco, com a nossa saúde física ou mental, por exemplo, e não com os lucros exorbitantes que alcançam a cada dia.

Está bêbado e qualquer carro que passa é motivo para voltar a xingar. Vou ter que tomar alguma providência. Acho que vou descer. Talvez seja a única coisa que o faça parar. É isso, vou descer.

 

***

 

Ouviu meus passos na escada e parou.

Ficou com medo, tenho certeza. Quantas vezes não deve ter sido enxotado da porta de outras casas? Quantas vezes já não lhe bateram simplesmente por farra? Quantos sacos de urina não lhe atiraram? Quantas vezes não tentaram lhe atear fogo? Parou porque pensou que fosse acontecer novamente.

Eu poderia muito bem ter feito qualquer uma dessas coisas – ninguém veria – e talvez fizesse bem ao meu ego. Entretanto, antes de chegar à metade dos trinta degraus que separam a rua daqui de onde estou, ele me ouviu, pois a noite está tranquila, com exceção dos seus gritos que não me deixam em paz.

Poderia bater-lhe, chutá-lo, apedrejá-lo, enfim, massacrá-lo, mas não consigo sequer encará-lo, nem lhe dirigir a palavra daqui de cima, da minha própria casa, onde estou protegido. Posso matá-lo e acabar de vez com esta situação estúpida. Afinal, é só um andarilho, um mendigo, um coitado, um pobre-diabo, um nada.

A esta hora da madrugada ninguém me veria e poderia lhe dar, no mínimo, umas pauladas para aprender a não incomodar uma pessoa honesta e digna como eu. Não seria punido, talvez até me elogiassem. É verdade! Todos se colocariam no meu lugar e me dariam razão. Se o matasse não seria condenado. Sou um trabalhador, alegaria que não me deixou dormir e, quando pedi que parasse com os palavrões, tentou me agredir.

– Legítima defesa, sabe, doutor?

Diante da argumentação e das evidências uma condenação seria absurda. Mas não vou precisar fazer nada. Parou de gritar. Sabia que não seria necessário mandá-lo parar.

Ouço passos. Está indo embora. Posso ouvir o barulho do saco de bugigangas balançando… sim, sim, está indo embora… mas são quase quatro horas da manhã!… para onde será que vai?

Deve ser um demente. Perdeu o cérebro curtido em álcool. Ninguém irá importuná-lo. Apenas rirão dele – mas isso já fazem com todos: homem, mulher, trabalhador, vagabundo, mendigo, louco, ninguém está a salvo da grande piada em que transformaram as nossas vidas. Não me importo. Sei apenas que não conseguirei dormir.

Será que ele volta? Talvez… vou esperá-lo!

Ainda tinha tantas coisas a dizer, mas sem a sua presença é impossível. Ficarei esperando a sua volta, só por hoje…