Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra – Mia Couto

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capa Um rio chamado tempo

Capa: Divulgação

 

Trecho:

“Juca Sabão era para mim uma espécie de primeiro professor, para além da minha família. Foi ele que me levou ao rio, me ensinou a nadar, a pescar, me encantou de mil lendas. Como aquela que, nas noites escuras, as grandes árvores das margens se desenraizam e caminham sobre as águas. Elas se banham como se fossem bichos de guelra. Regressam de madrugada e se reinstalam no devido chão. Juca jurava que era verdade.

As lembranças me surgem velozes como nuvens. Recordo aquela vez em que Sabão se encomendou de uma expedição: queria subir o rio até à nascente. Ele desejava decifrar os primórdios da água, ali onde a gota engravida e começa a missanguear do rio. Juca Sabão muniu-se de mantimentos e encheu a canoa com os mais estranhos e desnecessários acessórios, desde bandeiras a cornetas. Demorou umas tantas semanas. Regressou e fui o primeiro a recebê-lo, nas escadas do cais. Olhou-me cansado, e disse:

– O rio é como o tempo!

Nunca houve princípio, concluía. O primeiro dia surgiu quando o tempo já há muito se havia estreado. Do mesmo modo, é mentira haver fonte do rio. A nascente é já o vigente rio, a água em flagrante exercício.

– O rio é uma cobra que tem a boca na chuva e a cauda no mar.

Assim proferindo, Juca Sabão me pediu que me aproximasse. Seus dedos me fecharam as pálpebras como se faz aos falecidos. Certas coisas vemos melhor é com os olhos fechados. Neste momento, é como se ainda sentisse suas mãos sobre o meu rosto.” (pg. 61)

 

Publicado originalmente em 2002, Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, do moçambicano Mia Couto (1955), vencedor do Prêmio Camões de 2013, é um livro que impressiona pela beleza que o próprio título já parece antecipar.

No livro, o narrador, o estudante Mariano, retorna à sua terra natal, a ilha de Luar-do-Chão, para enterrar o avô paterno, Dito Mariano, o patriarca da família (munumuzana, na língua nativa). Há muito tempo longe do lugar, os modos de Mariano parecem os dos brancos da cidade (mulungos), o que o faz um estranho aos olhos da maioria dos habitantes da localidade, inclusive para seus parentes.

Os hábitos de luto também parecem muito estranhos ao rapaz – como retirar o telhado da casa da família (nyumba-kaya) durante o período de velório, que pode durar dias.

A escolha de Mariano, feita pelo próprio avô antes de sua morte, para ministrar as cerimônias fúnebres, cria uma série de desconfortos e intrigas na família, sobretudo entre seu pai, Fulano Malta, sua avó, Dulcineusa, e seus tios Abstinêncio, Últimio e Admirança. Cada qual com os seus motivos – inveja, rancor, medo, vergonha -, fazem da cerimônia, naturalmente dolorosa, a antecipação de uma disputa pelo poder de uma família fragmentada prestes a se desintegrar de vez.

No entanto, mais do que a intriga familiar, ainda agravada por misteriosas cartas anônimas recebidas pelo rapaz, algumas delas assinadas até por seu avô defunto, um misterioso fenômeno ocorre impedindo que o corpo de dito Mariano seja enterrado e que o velho possa finalmente descansar em paz. O fenômeno, aparentemente sobrenatural, ao que tudo indica, foi causado por um segredo que envolve a morte da mãe de Mariano, Mariavilhosa, ocorrida há muitos anos.

No entanto, o segredo pode ser ainda mais antigo e a morte de sua mãe pode ter sido apenas algo pequeno diante da verdade que envolve a família de Mariano. Caberá a ele, então, descobrir o motivo pelo qual se torna impossível o sepultamento do avô.

Misturando fantasia a uma prosa profundamente poética, Mia Couto recria um espaço fantástico numa África pós-colonial, onde as tradições ancestrais de um povo – em que a crença que as forças da natureza, como a água ou a terra, atuam para premiar os bons ou punir os maus indivíduos -, se digladiam com as novas e prementes necessidades de sobrevivência num mundo cada vez mais hostil ao homem.

Mia Couto faz de Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra uma brilhante saga familiar, ao melhor estilo do colombiano Gabriel Garcia Márquez (1927-2015), amparada sobre uma poesia narrativa, inspirada numa de suas principais influências literárias, o brasileiro Guimarães Rosa (1908-1967), que também se tornou uma das principais características deste autor que, hoje, é um dos maiores prosadores de língua portuguesa.

 

Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra

Mia Couto

Companhia das letras

262 pgs.

 

Trecho:

“(…) E eu vou ficando calado. Mesmo aos domingos de manhã: fico calado. Assim, silencioso, vou rezando. Que a gente reza melhor é quando nem sabemos que estamos a rezar: O silêncio, doutor. O silêncio é a língua de Deus.

Era o silêncio que me assistia quando visitava meu primo Carlito Araldito, sapateiro de profissão. Eu permanecia sentado contemplando seus ofícios. À saída, lhe dizia: minha vida, sabe, Araldito, minha vida é um sapato desses, usado de velho. A gente pode voltar a calçar, o cabedal pode voltar a brilhar, mas somos nós que já não brilhamos. Entendeu? Uma coisa assim em segunda mão. Em segundo pé, no caso. Ríamos, mas era sem vontade. Eu e Araldito. Falávamos de nós como se de amigos já falecidos. Estávamos assistindo ao nosso próprio funeral.

Assinado e reconhecido: Dito Mariano. (pg. 150)”

 

 

Pilatos – Carlos Heitor Cony*

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Pilatos capa

Capa: Divulgação

 

Trecho:

“Vi a mesinha-de-cabeceira bem ordinária, dessas de hospital. Havia um copo com água empoeirada, um pedaço de linóleo cuja ponta estava presa pela gaveta. No centro do tampo, um vidro de geleia. Geleia não. Eu conhecia aqueles vidros, eram de compota. Compota Colombo, de pêssego. Muito comum nas padarias, nos mercados: os pêssegos dourados, espremidos uns contra os outros, alagados na calda cor de ouro.

Para que me deram aquela compota? Devia ser uma compota velha, quase estragada, a calda estava escura e vermelha. As freiras – eu conseguia raciocinar com nitidez – haviam me dado aquilo de presente, eram caridosas por profissão ou temperamento, cada sujeito que aparecia na enfermaria, estropiado e doído, recebia um doce para amenizar os dias de convalescença. Por isso elas me olhavam – e olhavam para o vidro de compota.

Desejavam avisar que haviam trazido um doce para mim, talvez esperassem o meu agradecimento ou outra forma de retribuição. Ia murmurar: obrigado. Mas preferi olhar outra vez. A verdade é que não gosto de compotas, muito menos de pêssegos, que me parecem afrescalhados, sobremesa de veado.

Achei que havia ganho um pepino. Um pepino em conserva. Sim, lá estava, enorme, rodando em torno de seu eixo como um totem desgovernado, um pepino murcho. Por que haviam me dado um pepino? Talvez as freiras gostem de pepinos e tenham me dado um, em conserva, de fabricação caseira, eu percebia que a tampa de vidro não era a de origem, havia o esparadrapo fazendo um círculo em volta do bocal.” (pgs. 17-18).

 

Após ser atropelado por um ônibus, um homem tem o pênis amputado e assim começa, a partir dessa tragédia pessoal, as aventuras desse Pilatos, romance do jornalista e escritor Carlos Heitor Cony (1926), publicado em 1974.

Sobre o próprio livro, o seu nono romance, o autor chegou a dizer que era o seu preferido e quase havia desistido da literatura, pois, após o seu lançamento, foi publicar um novo romance mais de vinte anos depois, em 1995, com Quase memória. “Pilatos é a minha visão do mundo, e acho que vou morrer com ela”.

Seguindo uma ancestral tradição masculina – desde a sua descoberta como uma parte quase autônoma do homem -, o órgão sexual protagonista do romance é batizado como Herodes, nome escolhido por seu dono em homenagem a Herodes, o Grande (73 a.C – 4 a.C), Tetrarca de Jerusalém, e não ao seu filho, o ignóbil Herodes Antipas (20 a.C – 39), que governava a Galileia na época em que Jesus viveu.

O Herodes de Pilatos passará a circular pelas ruas do Rio de Janeiro, protegido por seu proprietário, dentro de uma compota de pêssego em calda, sendo quase que o tempo todo confundido com os mais variados e suculentos petiscos – salsichas, linguiças, pepinos em conserva – e, por isso, com o iminente risco de ser comido pelos mais variados tipos humanos – vagabundos famélicos, vigaristas, charlatões e donos de botecos de má fama – que cruzam o caminho de seu infeliz dono, um ex-revisor com dificuldade em reencontrar emprego e expulso da pensão onde morava por falta de pagamento durante os três meses que passou internado depois do acidente que o mutilou.

Lá pelas tantas, descobrimos que o eunuco se chama Álvaro Picadura, mas não sabemos se este é, de fato, o nome do proprietário do heroico Herodes, que passará por inúmeras aventuras (e desventuras) em sua luta pela sobrevivência e para salvar o seu querido e vulnerável “membro” das mãos de coroas virgens e aproveitadores inescrupulosos, interessados em tirar algum prazer ou algum lucro da inusitada situação.

O fato é que Cony cria um fantástico ambiente de nonsense em pleno período de ditadura militar brasileira. Em 1974, ano em que o romance foi publicado, ninguém notou uma crítica política e social ao regime militar que ainda teria mais onze anos pela frente e dois generais ocupando a presidência do País – Ernesto Geisel (1974- 1979) e João Baptista Figueiredo (1979-1985).

A certa altura, por exemplo, após uma grande confusão num restaurante, Herodes, seu dono e seu amigo Dos Passos – um vigarista, já passados dos sessenta anos, mas com um grande apetite sexual e uma imaginação fora do comum para arquitetar golpes e criar folhetins eróticos – são presos e levados para um quartel.

Encarcerados, o trio é surrado com frequência – Herodes, na verdade, é poupado do suplício, já que os guardas não reparam na sua presença – assim como seus companheiros de cela: o Grande Arquimandrita, espécie de guru megalomaníaco, que se intitula Procurador Geral do Patriarca Máximos IV, chefe da Igreja Católica Ortodoxa; um mendigo, quase senil e mudo, que recebe a alcunha de Sic Transit pelo Grande Arquimandrita (por conta da expressão latina Sic transit gloria mundi, Assim passa a glória do mundo!), que pouco faz além de tentar roubar a compota de pêssego de seu companheiro de cela para comer Herodes, a quem acredita ser uma salsicha; e Otávio, um jovem “maconhado”, preguiçoso e inerte, que passa os dias dormindo indiferente às discussões políticas – principalmente entre Dos Passos, um fascista assumido, contrário a qualquer tipo de manifestação democrática, e o Grande Arquimandrita, defensor ferrenho do regime democrático, desde que ele esteja no poder ou, pelo menos, ao lado dele -, às brigas de seus colegas de prisão e aos castigos corporais impingidos pelos guardas.

Pilatos é um dos romances mais escrachados e mordazes da moderna literatura brasileira, especialmente a escrita a partir dos anos 1960. Espécie de fábula moral, romance picaresco e peça satírica, percebemos certa semelhança na sua construção com novelas clássicas dos grandes satiristas como Cândido, de Voltaire (1694-1778), ou O nariz, de Gógol (1809-1852) – em termos de Brasil, Pilatos estilisticamente tem muita proximidade com Macunaíma, de Mário de Andrade (1893-1945), e Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antonio de Almeida (1831-1861) -, além da alta dose de escatologia.

O humor desbragado do livro parece purgar as mazelas e vícios subjacentes à história e até fazer com que o leitor esqueça que a narrativa se passa em um dos períodos mais tristes da história do Brasil. Um período em que a população vivia sob o jugo de uma ditadura que não poupava esforços para eliminar qualquer oposição.

Nesse sentido, Pilatos pode ser considerado um livro subversivo ao extremo, ao dar vazão à crítica por meio da arte e do humor, sem que seus alvos percebessem, é um trabalho atualíssimo, sobretudo se levarmos em consideração o que dele escreveu o jornalista e escritor Mário Prata, que assina a orelha da edição de 2001:

“Pilatos é a cara do Brasil. Um Brasil de 1974, dos anos 80 e de hoje. Um Brasil sem tesão, um Brasil explorado. Pilatos é a energia arrancada do corpo do brasileiro por militares, bispos e ociólogos, como diria Millôr”.

 

Pilatos

Carlos Heitor Cony

Companhia das letras

219 pgs.

 

Trecho:

“As freiras cultivavam pepinos, plantavam nos fundos do hospital, faziam conservas para uso próprio e para presentear os doentes quando tivessem alta. Mas eu não teria alta tão cedo, pelo menos enquanto estivesse com aquele enorme esparadrapo grudado no meu corpo.

Não cheguei a me assustar. A mão deslizou sobre o remendo lá embaixo. Apalpei-me e senti um vazio no justo lugar onde esperava encontrar uma resistência carnosa e inerte, uma saliência habitual e minha. Não havia nada ali. A minha mão sabia.

As freiras deixaram de olhar para a mesinha-de-cabeceira. Olhavam agora para mim, sem pena nem interesse, porém com certo estupor. Elas também sabiam. Então, só para conferir, olhei com atenção o vidro de compota; aquilo não era calda, mas álcool, sujo de sangue.

Imerso nele, boiando como um peixe sem vísceras – e cego: ele.” (pg. 18)

 

*A edição de Pilatos lida para esta resenha foi a da Companhia das letras, publicada em 2001. Atualmente a obra de Carlos Heitor Cony está sendo editada pela Alfaguara.

 

 

O clube das quintas-feiras

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A primeira vez que o vi, foi quando veio à livraria procurar Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe. Ele não sabia nada sobre o livro, além de que na época de seu lançamento, no início do século XIX, ou fim do século XVIII, havia causado uma onda de suicídios em seus infelizes e jovens leitores.

– Você já leu? me perguntou, assim que lhe entreguei a edição de bolso que pediu.

– Sim, há muito tempo… respondi, sem muita empolgação.

– E o que achou?

Falei que havia gostado do livro, o que não era verdade – tinha achado a leitura bem maçante -, mas que não lembrava muito do enredo da história, apenas que era escrito na forma de diário pelo personagem principal, Alberto, e que falava de sua paixão pela namorada do seu melhor amigo, numa espécie de triângulo amoroso platônico, o que lhe causava muitos tormentos e aflições.

Apolônio, este era o nome do cliente, um senhor de uns setenta anos, forte e lépido para a sua idade, me ouviu com interesse e, procurando saber minha opinião sobre outros livros, ficou quase uma hora conversando comigo. Despediu-se levando apenas o livro que viera buscar e deixando a pilha de livros que fui lhe oferecendo ao longo da conversa, a maioria de clássicos de bolso, em cima do terminal de consulta.

Na semana seguinte apareceu novamente. Dessa vez não me perguntou sobre nenhum livro em especial, nem mencionara se havia lido o Goethe da semana anterior – acredito que não.

– Você conhece algum livro bom que fale mal da religião? me perguntou, logo após me cumprimentar. Era uma pessoa objetiva, pouco afeita a preâmbulos.

– Livro que fale mal de religião? perguntei sem entender muito bem o que ele queria.

– É! Pode ser um desses baratinhos, de bolso.

– Ficção ou não-ficção?

– Pode ser ficção. Só queria um que mostrasse uma visão contrária à religião. Tô meio de saco cheio desse negócio de “Graças a Deus!” pra cá, “Graças a Deus!” pra lá. Agora até técnico de futebol parece que oferece vitória do time pra Deus em vez de falar que foi por causa do trabalho de equipe… não aguento isso, rapaz!

Lembrei-me de A relíquia, do Eça de Queiroz, que, por sorte, havia em edições de bolso e comecei a contar a história do personagem principal, Teodorico Raposo, o Raposão, e sua vida dupla de pândego e beato. Dos malabarismos que era obrigado a fazer para enganar a tia adotiva, Patrocínio das Neves, a Titi, para demonstrar o quanto era um carola tão ardoroso quanto ela e de como a convenceu a bancar sua peregrinação à Terra Santa para que pudesse lhe trazer uma relíquia sagrada, mas cujo verdadeiro objetivo era fazer com que Raposão esquecesse uma desilusão amorosa.

Apolônio, de olhos vidrados, parecendo ver o que lhe dizia desenrolar-se diante de si, perguntou ao final da minha narrativa:

– Você já leu muitos livros, não é?

– Sim, um pouco.

– Eu sabia. Você já leu todos esses livros aqui? perguntou, apontando as estantes.

– Não, claro que não, respondi, modesto. – Ler tudo é impossível. A gente só lê uma pequena parte e gosta de uma parte ainda menor do que lê… Mas acho este livro fantástico! Extraordinário mesmo.

– Eu preciso lhe apresentar a um amigo, disse meio enigmático.

Foi embora com o livro e, antes de ir, ainda ficou mais uma hora circulando pela loja. Não disse se voltaria, mas eu tinha certeza que isso aconteceria, só não esperava que já viesse na semana seguinte e com o tal amigo que disse que precisava me conhecer.

Quando o vi entrar na loja com o outro, um senhor de uns setenta anos como Apolônio, só que bem mais magro, que andava meio curvado, e com uma grande calva que lhe deixava uns poucos resíduos de cabelos nas laterais e na parte de trás da cabeça. O tempo tinha sido bem mais generoso com o meu cliente do que com seu amigo.

– Lourival, esse é o rapaz que lhe falei. Sabe tudo de livro, disse Apolônio, animado.

Lourival me estendeu a mão branca e ossuda e a apertou tão frouxamente que me pareceu que uma criança de quatro anos seria capaz de fazer aquele simples gesto com muito mais firmeza.

– Prazer, falei, mas, de fato, sentia tanto prazer em conhecê-lo quanto teria de conhecer um fantasma. Aliás, o próprio Apolônio já estava me incomodando um bocado, o que dirá então do seu amigo de quem sequer simpatizei à primeira vista.

Apesar de seu aspecto frágil, Lourival tinha um olhar esperto e vivaz, dando a entender que, da dupla, era ele o elemento dominante. Ao menos, foi isso o que me pareceu durante a conversa que tivemos. Apolônio era mais expansivo e falante, mas era Lourival que, mais cauteloso e introspectivo, analisava as situações, emitia os vereditos e direcionava a conversa que, mais uma vez, versou sobre livros.

Lourival também me pareceu mais lido do que Apolônio. Quer dizer, ao menos conhecia autores, livros, e os citava de cabeça, apesar de não parecer conhecê-los completamente.

– Você tem algum livro que possa me indicar ou algum autor parecido com o Kafka? Acabei de ler O castelo e gostei muito.

Não tinha, mas me lembrei de O deserto dos tártaros, de Dino Buzzati. Falei que era um livro que estava esgotado no momento, que não conseguiria nem por encomenda, mas que ele poderia encontrar em qualquer sebo. Expliquei que, para muitos, o livro era considerado uma das melhores obras escritas no século XX e que seu autor havia sido considerado uma espécie de Kafka, por trabalhar seus temas de forma alegórica.

Foi falando sobre este livro que descobri que Apolônio era um militar aposentado – chegou até o posto de sargento do Exército. Aquilo me pareceu revelador por explicar em parte algumas opiniões radicais que havia dado durante as nossas conversas.

Mais interessante que essas revelações, porém, foi ele ter me dito que havia “devorado” o livro do Eça que havia levado na semana anterior e que havia “arrebentado” de tanto rir. Havia gostado tanto d’A relíquia que pensara em me ligar para agradecer assim que o fechara, mas achou melhor esperar para fazer isso pessoalmente e aproveitar para trazer o amigo para me conhecer.

Naquela ocasião, nosso encontro foi mais curto. Lourival tinha um compromisso e não podia ficar muito tempo. Não levaram nenhum livro, mas Apolônio disse que viria na semana seguinte com mais tempo para conversarmos, o que me deixou numa aflição dos diabos, sem saber o que aquela estranha dupla queria, de verdade, comigo.

A espera pelo reencontro foi mais tormentosa. O motivo foi que o pessoal da livraria havia notado as visitas de Apolônio – uma pessoa que lhe procura três vezes seguidas e com quem você conversa durante mais de uma hora, de fato, não se pode dizer que é alguém a quem as pessoas podem deixar de notar, especialmente numa livraria cujo movimento não é dos maiores.

E, além de notar, começaram a fazer brincadeiras de mau gosto sobre o assunto, principalmente depois que o Alcides, o outro vendedor, havia ouvido Apolônio prometer que viria com mais tempo para conversarmos.

Então, durante uma semana, pelo menos três vezes tive que aguentar as gracinhas do meu colega, um grande babaca, coisas do tipo: “e aquele seu cliente veio?” ou “aquele tiozão gostou mesmo de você, né?” ou “ontem eu vi um coroa parecido com o seu cliente em tal lugar” (e o “tal lugar” era um conhecido ponto de prostituição de travestis).

Pior que nem pude dizer nada, falar o quanto aquela situação me irritava, porque estava realmente preocupado com aquilo. O incômodo de ver Apolônio aparecer às quartas-feiras – foi aí que me chamou a atenção ele sempre vir no mesmo dia da semana, certamente era um sujeito metódico – para tomar uma hora de meu tempo e me ouvir falar sobre livros.

Então, na quarta-feira, sem falta, o homem apareceu como prometido e, objetivo, foi logo fuzilando:

– O Lourival gostou muito de você, rapaz!

– Ah, foi? Tudo bem? falei, apertando a mão que me estendia. Só que, ao contrário do amigo, seu aperto era firme, forte, do tipo que pode esmagar os dedos de uma pessoa desatenta.

– Sim. Gostou muito. Ele e o pessoal me autorizaram a lhe fazer uma proposta.

– Pessoal?! Proposta?! falei, quase num grito de surpresa.

– Sim, proposta.

– Proposta de quê? E que pessoal é esse, senhor Apolônio? perguntei enquanto sentia o chão se abrir sob meus pés.

– Proposta para entrar para o nosso clube, disse ele, com um sorriso malicioso.

Respirei fundo, olhei ao redor para ver se alguém nos observava – não havia ninguém por perto, apenas uma cliente olhava a mesa de gastronomia e o Alcides, no fundo, se entretinha com uma lista de devolução – e falei de forma pausada, tentando me acalmar:

– Que clube, senhor Apolinário? Que pessoal?

Ele sorriu novamente, olhou em torno como eu fizera, e respondeu:

– Não posso falar deles aqui, agora. Você precisa se encontrar com a gente, comigo, com o Lourival e uns amigos, amanhã, pra falarmos dele pessoalmente.

Quase sem forças, mas louco de vontade de partir para cima daquele velho idiota, insisti:

– O senhor está brincando, né? Que… clube… é… esse? Diga… por favor.

– Não posso, rapaz. É sério – disse ele, desta vez, quase em tom de desculpa. – Amanhã é sua folga, não é?

Confirmei balançando a cabeça como um autômato, lembrando vagamente que, em alguma das nossas conversas, devo ter lhe dito que folgava às quintas-feiras e ele, como sujeito metódico que era, deve ter guardado a informação.

– Então, amanhã, às sete da noite, vá até este endereço – disse, me entregando um papel. – A gente estará esperando você lá e falaremos sobre o clube.

Olhei para o fundo da loja e vi que o Alcides nos observava.

– Vá até lá. Você não vai se arrepender, disse, depois saiu.

Confesso que pensei muito se devia ou não ir até ao tal clube. Aquela estória estava realmente me dando nos nervos e Apolônio, há muito, havia ultrapassado o limite da conveniência com suas visitas à loja. Na verdade, eu estava decidido a não comparecer ao encontro, mas, pouco antes do horário marcado, mudei de ideia. O endereço não era muito longe de casa, o que facilitou a minha decisão de ir até lá na última hora e descobrir do que, de fato, se tratava aquela bobagem de clube para o qual havia sido convidado.

O endereço ficava numa rua pequena e meio morta, que começava numa avenida movimentada e terminava numa rua paralela, cerca de duzentos metros adiante. Era uma casinha azul, antiga, de muro baixo, com cerca de um metro de altura, e que, pela aparência, remetia há tempos bem mais tranquilos do que os atuais. Sob um precário toldo preto de metal, descansava um fusca branco bem conservado, que aumentava ainda mais a minha sensação de que aquela rua devia ter parado uns trinta anos ou mais no tempo.

Não havia qualquer campainha à vista, bati palmas e, para minha surpresa, quem veio atender foi uma senhora de uns sessenta e poucos anos, bem vestida, numa camisa de estampa florida e uma calça marrom escura.

– Sim, pois não…

– Ah… olá! Me deram este endereço… hesitei, considerando que poderia ter me enganado.

– Sim!

– Não sei se estou certo, mas é aqui que mora o Apolônio?

– Ah, não, mas ele está chegando, disse a mulher abrindo um sorriso. – Você é o rapaz da livraria, né?!

– Isso!

– Ele me disse que você viria. Pode entrar, por favor.

Chamava-se Irene e era amiga do militar aposentado. Lourival já estava na casa, que parecia até mais espaçosa por dentro do que dava a impressão de fora, e, a muito custo, tentou me fazer ficar mais à vontade em meio aquela gente estranha.

Na verdade, além dele e da dona da casa, havia mais um casal, Aguiar e Amália, que beirava os oitenta anos, e que apenas balançavam a cabeça, assentindo ou não com algo, quando Irene lhes fazia alguma pergunta. Lourival não lhes dava qualquer atenção, parecia ter acabado de conhecê-los também.

Ficamos na sala, onde havia uma ampla mesa de centro, com vinho e canapés que me ajudaram a ficar mais relaxado, e dois sofás grandes. Apolônio apareceu quinze minutos depois da minha chegada e, como de hábito, louvou meus conhecimentos literários, pedindo para que eu falasse sobre alguns lançamentos literários que havia gostado.

Lourival aproveitou para dizer que havia comprado O deserto dos tártaros num sebo do centro, mas ainda não havia começado a ler por falta de tempo. Descobri que era contador e que estava muito sobrecarregado com as declarações de imposto de renda dos clientes.

Ao final da noite, a anfitriã, muito simpática, me fez jurar que voltaria na semana seguinte para falar sobre mais “livros maravilhosos”.

– Não é todo dia que temos a oportunidade de ter uma aula como a que você nos deu, arrematou.

Lisonjeado, prometi que certamente voltaria, pois a noite havia sido bastante agradável. Fui realmente sincero, já que até o Lourival, para minha surpresa, se mostrou um sujeito bastante divertido depois do terceiro ou quarto copo de vinho.

Com o tempo e a maior intimidade que adquirimos, além de um pouco de habilidade da minha parte, pedi para Apolônio não aparecer mais no trabalho. Disse ao “meu cliente” que estava sendo desconfortável ter de explicar às pessoas por que ele ficava tanto tempo conversando comigo sendo que não comprava quase nada – não queria falar a ninguém sobre o clube. Ele não gostou muito, mas acabou aceitando diminuir as idas à livraria, pois continuaríamos a nos encontrar às quintas-feiras.

Da minha primeira visita até agora, quase seis meses depois, o número de frequentadores do clube só fez aumentar. Além dos quatro daquele dia, agora há mais cinco fixos e três esporádicos – todos senhores e senhoras ávidos por descrições e opiniões sobre livros que nunca vão ler ou que nunca sequer ouviram falar -, com grandes chances de aumentar ainda mais pela propaganda que eles próprios fazem do clube e isso me faz ter grandes planos.

Acredito que poderei deixar a livraria, me dedicando exclusivamente ao meu mestrado, quando o clube chegar a quinze sócios fixos, mais uns sete esporádicos. Até lá, talvez, tenhamos de encontrar outro local de encontro, já que a casa da Irene não está preparada para receber tanta gente.

Depois de saber quanto eu ganhava no meu emprego, Apolônio, por iniciativa própria, mas contra a minha vontade, propôs aos sócios uma “ajuda de custo” para que eu continuasse indo, todas as quintas, falar sobre livros.

– Rapaz, você tem um grande talento! Não pode desperdiçá-lo num lugar que não lhe dá o menor valor, diz meu novo amigo, assim que coloca discretamente o dinheiro no bolso da minha camisa, todas às vezes que nos despedimos com um fraternal abraço.

Quanto a isso, não há duvida: ele tem toda razão.

Tia Julia e o escrevinhador – Mario Vargas Llosa*

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capa tia julia

Capa: edição Círculo do livro

 

Trecho:

 

“– Os amores de um bebê e uma anciã que, ainda por cima, é algo assim como sua tia – disse tia Julia, enquanto atravessávamos o Parque Central. – Sob medida para uma novela de Pedro Camacho.

Lembrei-a que era apenas minha tia afim e ela me contou que, na novela das três, um rapaz de San Isidro, belíssimo e grande surfista, tinha relações nada menos que com sua irmã, a quem, que coisa horrorosa, engravidara.

– Desde quando ouve novelas? – perguntei.

– Peguei o costume de minha irmã – respondeu. – A verdade é que essas da Rádio Central são fantásticas, uns dramalhões que partem a alma da gente.

Então me confessou que às vezes ela e tia Olga ficavam com os olhos cheios de lágrimas. Foi o primeiro indício que tive do impacto que a pena de Pedro Camacho causava nos lares limenhos. Recolhi outros, nos dias seguintes, em outras casas da família. Aparecia na casa de tia Laura e ela, mal me via no umbral da sala, me ordenava silêncio com o dedo nos lábios e permanecia inclinada sobre o rádio como se quisesse não apenas ouvir, mas também cheirar, tocar a (trêmula ou ríspida ou ardente ou cristalina) voz do artista boliviano. Aparecia na casa de tia Gaby e as encontrava, a ela e a tia Hortensia, desmanchando um novelo com dedos distraídos, enquanto acompanhavam um diálogo cheio de palavras esdrúxulas e de gerúndios de Luciano Pando e Josefina Sánchez (…)”

 

Esta semana, no dia 28 de março, o peruano Mario Vargas Llosa (1936) completa 81 anos. Último autor latino-americano a receber o Nobel de Literatura, em 2010, Llosa tem uma vasta produção – seu primeiro livro são os contos de Os chefes, publicado em 1959 – que vai desde romances e contos até ensaios, teatro e títulos infantis, além de ter exercido o jornalismo e ter sido professor em grandes universidades da Europa e dos Estados Unidos.

Ao lado do colombiano Gabriel Garcia Márquez (1927-2014), Llosa foi (e é) um dos expoentes da geração latino-americana dos anos 1960. Uma geração que ficou conhecida como “Boom latino-americano”, que veio revigorar a produção literária não apenas local como estender sua influência por uma grande parte do planeta e maravilhar gerações de leitores, apesar das grandes diferenças de estilo e temática entre seus autores.

Publicada em 1977, Tia Julia e o escrevinhador é uma das principais obras deste peruano de Arequipa e, segundo o próprio autor, seu livro mais lido. O romance mistura memória e ficção, ao retratar o período em que o autor, em meados dos anos 1950, conheceu sua primeira esposa, Julia Urquidi, quatorze anos mais velha, desquitada e irmã da mulher que se casou com o seu tio.

O livro

Marito, para a família, ou Varguitas, para os amigos, é um jovem de dezoito anos que ainda mora com os avós maternos e divide seu tempo entre a rádio Panamericana, onde trabalha como chefe de redação do noticiário, os bancos da faculdade de Direito da Universidade San Marcos, onde quase nunca aparece antes dos exames finais, e a tentativa quase sempre frustrada de escrever um conto com o material que aparece na redação do noticiário ou alguma história ouvida de amigos.

No entanto, com a chegada de tia Julia, vinda da Bolívia após separar-se do marido, para morar com sua irmã Olga e Tio Lucho – irmão da mãe do rapaz -, ambos se apaixonam e começam um romance. Porém, como é de se esperar, é preciso ter cuidado para não gerar um escândalo no seio da grande família conservadora e o segredo da relação cria um ambiente ainda mais excitante.

Ao mesmo tempo em que descobre o amor romântico, Varguitas também conhece pessoalmente o primeiro escritor que merece esta definição: Pedro Camacho, o escrevinhador de radionovelas.

Boliviano como tia Julia, Pedro é contratado pelos Genaros (pai e filho) para escrever e dirigir os dramalhões que vão ao ar pela Rádio Central, emissora mais popularesca da dupla de empresários do ramo da comunicação de Lima, que funciona no mesmo prédio da Panamericana.

O intuito inicial dos empresários era o de diminuir os custos com a importação das novelas cubanas, mas as radionovelas de Pedro, surpreendentemente até, pela falta de conhecimento que o autor tem pelo público local, se tornam um sucesso estrondoso. O boliviano escreve os folhetins radiofônicos sem parar e acompanha de perto as transmissões ao vivo dos capítulos.

Figura histriônica e pedante, de aparência frágil embora com uma autoestima gigantesca, os dramas, romances e tragédias que saem da pena do escrevinhador boliviano tomam proporções espantosas, mobilizando quase toda a audiência de Lima, enquanto o trabalho lhe toma praticamente dezesseis horas diárias de dedicação, segundo estimativas feitas por Varguitas.

Os lucros dos Genaros vão às alturas com a enxurrada de patrocinadores interessados em vincular suas marcas às obras radiofônicas de Camacho, apesar de um ou outro problema ocasional que o artista boliviano causa, principalmente devido a uma implicância mal explicada em relação aos argentinos, à qual ele faz questão de reiterar em todo novo episódio de suas novelas.

Nesses momentos, os patrões recorrem a Varguitas para tentar controlar o escriba do altiplano. A confiança dos patrões de que o jovem repórter seria capaz de deter o ímpeto antiportenho do outro se dá por motivos meio enviesados: os Genaros o consideram algo como um artista, por ter publicado um conto num suplemento dominical, e ter certa proximidade com o boliviano – eles tomam um cafezinho juntos de vez em quando; Pedro, na verdade, bebe chá de ervas.

No entanto, o excesso de trabalho acaba causando problemas de saúde ao escrevinhador, tumultuando ainda mais sua mente já propensa aos excessos e às manias, e leva Camacho a um colapso que se refletirá em seu trabalho.

Pretenso candidato a escritor e literato, Varguitas se comove e se encanta com a capacidade de produção de seu colega, embora se assuste com o total alheamento deste com qualquer coisa que não seja a sua obra.

Enquanto sonha em morar numa água-furtada em Paris ao lado de tia Julia, onde imagina se tornar um escritor, driblando a curiosidade dos familiares e conversando com Pedro Camacho sobre a sua assombrosa produção artística, o jovem jornalista vive sua própria história de sonho, romance e delírio, muito parecida com os enredos mirabolantes das radionovelas do boliviano sem, no entanto, a menor perspectiva de futuro para os seus problemas e inquietações.

Tia Julia e o escrevinhador traz muito humor, algo não tão comum dentro da obra de Vargas Llosa, exceção feita a Pantaleão e as visitadoras, publicado um ano depois. Se num primeiro momento a temática do livro se mostra convencional, a alternância da narrativa da história principal com as novelas de Pedro Camacho, cria uma sensação no leitor de que a narrativa real do romance é influenciada pelos folhetins radiofônicos do boliviano. Talvez seja este um dos segredos para o sucesso do livro: a forma magistral como Vargas Llosa realiza essa articulação entre os planos narrativos, que passou, inclusive, a se constituir uma das características de toda a sua produção literária.

Os personagens coadjuvantes do romance contribuem para que esse clima engraçado permaneça por toda a obra: Javier, o amigo meio intelectual de Marito e sua lealdade extrema para com ele, além de seu amor incondicional para a voluntariosa prima Nancy; e a dupla de redatores da rádio, Pascual, um aficionado por tragédias grotescas e sangrentas que poluem o noticiário da rádio, quando Varguitas não está por perto para censurá-lo, e enchem a redação de reclamações dos ouvintes mais sensíveis, e o Grande Pablito, espécie de faz-tudo da rádio, que acaba designado por Genaro filho para auxiliar na redação do noticiário, apesar de ser analfabeto. Todos eles cúmplices na tentativa de levar o casal Varguitas e tia Julia para o caminho da felicidade.

Tia Julia e o escrevinhador é um livro sobre pessoas comuns, que vivem, amam, sofrem, sobretudo por amor, seja por alguém (tia Julia/Marito) ou por algo, um trabalho ou uma vocação (Pedro Camacho/Varguitas) e como a própria ficção age para amenizar essa angústia. Portanto, também pode ser considerado um livro de amor à ficção escrito por um dos maiores escritores de sua época. Um romance marcante, inesquecível para aqueles que amam a ficção tanto quanto o seu autor.

 

Trecho:

“(…) Na minha própria casa, meus avós, que sempre tiveram ‘gosto pelas novelinhas’, segundo a avó Carmen, haviam agora contraído uma autêntica paixão radioteatral. Acordava de manhã ouvindo os acordes do prefixo da rádio – preparavam-se com uma antecedência doentia para o primeiro radioteatro, o das dez -, almoçava ouvindo o das duas da tarde, e a qualquer hora do dia que voltasse, encontrava os dois velhinhos e a cozinheira metidos a um canto da salinha de visitas, profundamente concentrados no rádio, que era grande e pesado como um aparador e que para nossa infelicidade, punham sempre a todo volume.

– Por que a senhora gosta tanto das novelas? – perguntei um dia à avozinha. – Que é que têm que os livros não têm, por exemplo?

– São uma coisa mais viva, ouvir falar as personagens, é mais real – explicou, depois de pensar. – E depois, na minha idade, os ouvidos se comportam melhor que os olhos.

Tentei uma pesquisa parecida nas casas de outros parentes e os resultados foram vagos. Tias Gaby, Laura, Olga, Hortensia gostavam de novelas porque eram divertidas, tristes ou fortes, porque as distraíam e faziam sonhar, viver coisas impossíveis na vida real, porque ensinavam algumas verdades ou porque a pessoa tinha sempre seu pouquinho de espírito romântico. Quando lhes perguntei por que gostavam mais de novelas de que livros, protestaram: que bobagem, como se podiam compará-los, os livros eram a cultura; as novelas, simples divertimento para passar o tempo. O certo, porém, é que viviam grudadas no rádio e que jamais vira nenhuma delas abrir um livro. Em nossas andanças noturnas, tia Julia resumia alguns capítulos que a haviam impressionado e eu lhe contava minhas conversas com o escriba, de modo que insensivelmente Pedro Camacho passou a ser componente de nosso romance.”

 

*A edição lida para esta resenha foi a do Círculo do livro traduzida por Remy Gorga, filho, e publicada nos anos 1980. Atualmente, no Brasil, a obra de Mario Vargas Llosa é publicada pela Alfaguara e Tia Julia e o escrevinhador tem a tradução de José Rubéns Siqueira.

O espírito da ficção científica – Roberto Bolaño

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capa O espírito da ficção científica

Capa: Divulgação

 

Trecho:

“Acendi um cigarro. Era agradável caminhar sem ter que arrastar a moto. Tínhamos enveredado por um bairro de ruas pequenas, com árvores raquíticas e prédios com mais de três andares.

– Gostaria de ir embora daqui de uma vez por todas – disse José Arco. – Com a moto e minha bandeira mexicana.

– Diga do que não gostou do dr. Carvajal.

– Da sua cara de caveira – pronunciou cada palavra com uma fé cega. – Parecia um esqueleto de Posada tirando o pulso dos pobres poetas jovens.

– É – falei -, agora que penso nisso…

– Era o esqueleto de Posada, merda, que enquanto dança tira o próprio pulso do próprio país.

De repente senti que nas palavras de José Arco havia uma parte correta verdadeira. Tentei recompor o rosto do dr. Carvajal, a sala da casa, os objetos corriqueiros, a maneira de nos cumprimentar e de se levantar para buscar as revistas, seus olhos talvez escrutassem outra coisa fora dali, enquanto falávamos.

– Percebi quando você estava contando o caso dos jogos ianques. Ele não percebeu que eu percebi.

– Percebeu o quê?

– A maneira de olhar para a gente, de te olhar, como se tudo o que você dissesse fosse arquiconhecido por ele… Por um instante pensei que sim, que o sacana sabia de tudo…

Sem nos darmos conta, tínhamos parado de andar. O céu havia experimentado uma mudança súbita: em alguma parte do DF chovia e, a julgar pelas trovoadas e relâmpagos, a água ia cair em cima de nós sem mais tardar. Meu amigo sorriu, tinha se sentado no selim da moto e parecia esperar a chuvarada.

– Só de pensar me dá medo – falei.

– Não é para tanto. Parece que vai chover.

– Tinha cara de esqueleto, é verdade – falei.

– Bom, depois pensei que não era que ele soubesse de tudo, mas que estava cagando para tudo aquilo.

– Pode ser que sim, pode ser que não.” (pgs. 140 -141)

 

Romance escrito no início dos anos 80, O espírito da ficção científica conta de forma não linear, episódica, meio caótica, ao melhor estilo do chileno Roberto Bolaño (1953 – 2003), a história dos jovens chilenos Remo Morán – primeiro alter ego criado pelo autor – e Jan Schrella que vivem na cidade do México (DF).

Remo é um poeta iniciante que vaga pela capital mexicana em busca de aventuras e inspirações para os seus versos enquanto seu companheiro, Jan, passa os dias trancado no apartamento que dividem em permanente estado de delírio escrevendo cartas para seus autores preferidos de ficção científica.

Não há um fio condutor na narrativa, fato que não deixa de ser estranho em se tratando de uma narrativa de Bolaño, o chileno que se tornou um ícone de sua geração e foi saudado como um dos grandes autores latino-americanos, sobretudo após a sua morte em 2003. O chileno foi um autor que viveu intensamente a literatura, mas que, infelizmente, não teve em vida o devido reconhecimento por seu trabalho.

Excetuando-se a publicação de alguns poucos livros como A pista de gelo (1993), A literatura nazi na América (1996), Estrela distante (1996), Noturno do Chile (2000) e Os detetives selvagens (1998) que lhe valeram certo renome, alguns prêmios e quase nenhum dinheiro, a maior parte de seus livros foram editados após o seu falecimento, como o monumental 2666 (2012), considerado por muitos sua obra-prima, ao lado de Os detetives selvagens, o instigante Terceiro Reich (2011), o frenético As aventuras do verdadeiro tira (2013) e agora este O espírito da ficção científica.

Violência, política, humor, muita metaliteratura (a literatura que fala sobre si mesma) em narrativas de suspense policial são algumas características desse autor que, mais do que o reconhecimento da crítica e do público, passou a ser reverenciado pelos próprios escritores.

No entanto, seu falecimento precoce acabou atraindo em torno de sua obra e de sua personalidade pouco convencional uma aura quase de mito literário: um gênio incompreendido que escrevia para leitores que estavam muito à frente do período em que escreveu.

Embora os romances de Bolaño sejam realmente de grande qualidade, com enredos fortemente influenciados pelas narrativas policiais, demonstrando ser o autor um leitor voraz, de sólida cultura literária, e um amplo domínio tanto dos temas abordados quanto das técnicas literárias, os livros inéditos que têm sido publicados parecem diminuir a aura de qualidade indiscutível desta obra, que passou a ser referência para uma geração inteira de novos autores latino-americanos. E, infelizmente, O espírito da ficção científica confirma essa tendência.

No livro, em alguns momentos, notamos assuntos abordados pelo chileno em seus romances posteriores: alguns deles surgem quando Remo e seu amigo José Arco visitam o Dr. Ireneo Carvajal, mecenas literário e diretor do Boletim lírico do Distrito Federal, conversam sobre vários assuntos como a revolução na América Latina (quase todos os livros de Bolaño tratam mais ou menos sobre isso ou, mais exatamente, sobre a reação a uma revolução marxista na América), citando de passagem encontros de aficionados em jogos de tabuleiro que servem para reuniões de neonazistas (Terceiro Reich) e uma sociedade de poetas militantes de esquerda visceralmente contra o establishment literário da época e de seu principal símbolo, o poeta mexicano Octávio Paz (1914-1998), futuro Prêmio Nobel de literatura em 1990 (Detetives selvagens).

Outro momento em que O espírito da ficção científica descortina um caminho que Bolaño viria a explorar aparece no último capítulo do livro, intitulado Manifesto mexicano, em que narra as aventuras sensuais de Remo e sua namorada Laura pelos banhos públicos do DF e os encontros com vários personagens curiosos, frequentadores desses lugares, que tanto têm de sensual quanto de sórdido. Em muitos aspectos, os trechos antecipam o que o autor desenvolveu em As agruras de um verdadeiro tira.

De alguma forma é realmente interessante perceber quanto certos temas eram recorrentes quase que à obsessão a Bolaño e, de fato, sob o ponto de vista de um estudo literário profundo sobre a obra deste chileno, que marcou a literatura produzida numa parte considerável do planeta no século XXI, a publicação do que tem sido encontrado em seu espólio é algo que se justifica.

No entanto, no geral, O espírito da ficção científica surge mais como um romance incipiente, de um escritor que ainda buscava o seu caminho dentro do universo ficcional do que uma obra que o seu autor autorizasse a publicação depois de ter se tornado um ícone geracional.

A partir dessa questão – se Bolaño autorizaria a publicação de O espírito da ficção científica caso estivesse vivo -, outra pergunta torna-se igualmente pertinente: será que a própria publicação destas obras embrionárias – as quais o próprio autor pode ter notado o seu caráter experimental e menor dentro de seu projeto literário – vem atender uma demanda de apaixonados pela literatura de Bolaño ou suprir o vácuo comercial de novos títulos de um autor genial que deixou de produzir por conta de seu desaparecimento precoce?

Talvez as duas respostas sirvam para esta questão, dependendo do lado do balcão onde está quem tenta respondê-la, e, sendo assim, Bolaño não seria o primeiro revolucionário a ter o seu legado apropriado pelo “Deus Mercado” que soube fazer um bom uso dele.

 

O espírito da ficção científica

Roberto Bolaño

Companhia das letras

Tradução: Eduardo Brandão

182 pgs.

 

Trecho:

 

“- Está cheio de gente assim. Chamam-se a si mesmos de filhos da Revolução mexicana. São interessantes, mas na verdade são uns filhos da grande puta, não da Revolução.

– Pode ser que sim, pode ser que não – falei enquanto olhava para o céu escuro, negríssimo. O temporal vai pegar a gente.

– Não tenho raiva deles, ao contrário, me assombra ver o quanto aguentam a solidão – José Arco estendeu as mãos com as palmas para cima. – De uma forma muito, mas muito contorcida mesmo, se saíram com esta: são os país anônimos da pátria. Já caiu uma gota em mim. – Ele levantou a palma da mão até o nariz e a farejou como se a chuva tivesse, e tem, um cheiro.

– O que você quer que eu diga… Maldita moto de merda, vamos ficar ensopados…

 – Eu não poderia.

– Não poderia o quê? – As gotas de chuva começaram a quicar na carroceria escura de um Ford dos anos 50 parado em frente a nós e que até então não havíamos visto: era o único carro na rua vazia.

– Não poderia estar tão só, tão silencioso, tão acertado comigo mesmo e com meu destino, se me permite a licença.

– Pô…

No rosto de José Arco apareceu um sorriso largo e brilhante.

– Vamos embora, aqui perto tem a oficina de um amigo. Vamos ver se conserta a moto e nos convida para um café.” (pgs. 141-142)

 

Um amor – Dino Buzzati*

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capa Um amor

Capa: Divulgação

 

Trecho:

“Esperou quatro dias, agora no escritório a campainha do telefone subia, espiralando, pelas suas costas e o eco se propagava, cortando-lhe a respiração. Sim, pensa ele, com todo o dinheiro de que dispõe agora vai aguentar firme por muito tempo, isso porque está certa de tê-lo sempre às ordens, ela deve estar rindo, aposto, e pensa no sofrimento de Antonio, pode-se dar ao luxo de acordar a qualquer hora da noite e dizer pronto agora nesse exato momento ele está pensando em mim, que satisfação isso deve lhe dar.” (pg. 229)

 

Antonio Dorigo é um arquiteto de quarenta e nove anos, sócio de um escritório rentável em Milão. A estabilidade financeira, o renome que tem em sua área de atuação e um cômodo celibato fazem um exemplo de um solteirão convicto burguês de meia-idade.

Para os momentos em que a solidão ou o desejo apertam, Dorigo recorre à casa de Dona Ermelina, cafetina discreta que atende homens de alguma condição financeira, que não podem comprometer suas vidas e famas de bons cidadãos.

E é numa das visitas à casa de encontros de Dona Ermelina que Dorigo conhece Laide, uma bailarina de dezoito anos do teatro Scala, vinda de uma cidadezinha interiorana, que vende o corpo para reforçar o orçamento enquanto aguarda ser guindada para o estrelato devido apenas ao “seu talento”.

Embora bonita e firme de corpo, principalmente em seu belíssimo par de coxas, o que encanta o arquiteto, Laide não apresenta nada demais em relação à média das mulheres de sua idade quanto à beleza ou à inteligência, qualidades que chamariam a atenção de não somente de um cinquentão vivido e escolado nas peças que a vida costuma pregar, mas de qualquer pessoa medianamente sensata de qualquer idade. Então, há de se reconhecer que é apenas a juventude da voluntariosa Laide que atrai Dorigo como o sangue novo atrai o vampiro.

Mas o que parecia ser apenas mais uma aventura passageira entre um homem experiente e uma jovem ambiciosa torna-se uma obsessão para o arquiteto e uma descida ao inferno das paixões arrasadoras.

Em pouco tempo, Dorigo se vê enredado pelas mentiras de sua amante, passando por vexames diversos para além do limite do tolerável – como ser apresentado como tio dela para as mais variadas pessoas, inclusive para os supostos amantes de Laide, que, por sua vez, nega veementemente tê-los, e perder dias de trabalho e reuniões importantes no escritório por conta de um capricho da moça -, porém, sem forças para reagir de forma enérgica ou coragem para pôr fim ao seu sofrimento.

O fato de Dorigo poder acabar com o relacionamento a qualquer momento sem maiores consequências não parece diminuir a sua angústia, aliás, pelo contrário. Quando a própria Laide, em certo momento, lembra ao arquiteto que se ele a abandoná-la nunca mais a verá, seu desespero e terror pela afirmação parecem aniquilá-lo, o que leva a bailarina a afirma categoricamente que Dorigo é dela.

Os papeis, então, se invertem – o objeto (Laide) torna-se “proprietário de seu dono” – e o anúncio com que ele se dá é tão eloquente, por ser enunciado pelo próprio objeto amoroso, que suas consequências são devastadoras.

Durante toda a vida, o italiano Dino Buzzati (1906-1972) se dedicou ao jornalismo e à ficção. Em Um Amor, ele criou uma história de amor agônica, transformando algo banal – o pagamento por serviços sexuais entre um homem mais velho e uma mulher mais nova –, na consciência do ocaso por parte de um homem de meia-idade, tido como exemplo em termos de realização pessoal e financeira, transformado num mero brinquedo de uma oportunista, que representaria o oposto do que prega uma sociedade moralista, mas que, no fundo, baseia suas relações na aparência e na troca hipócrita de interesses.

Publicado em 1963, Um amor é um livro bem diferente de O deserto dos tártaros, publicado vinte e três anos antes, considerado sua obra-prima, e que levou Dino Buzzati a ser comparado a Franz Kafka (1883-1924), por fazer de seu romance uma alegoria da própria vida e de sua falta de sentido.

(Em O deserto dos tártaros, Giovani Drogo é um jovem tenente deslocado para um forte isolado por um deserto numa fronteira remota do país – que nunca é nominado, pois, localizá-lo geograficamente, seria acabar com o sentido universal da matéria com que Buzzati trabalha – onde nada acontece, a não ser a expectativa que uma lendária invasão de um povo inimigo – os tais tártaros – ocorra.

Assim os dias de Drogo e seus companheiros de caserna vão se consumindo em meio ao vazio e ao absurdo de se aguardar que uma promessa de um passado remoto venha dar sentido àquela espera infinda e, quiçá, transformar a todos em heróis, mesmo que lhes custe suas vidas. Mas a vida, na verdade, Drogo é forçado a reconhecer, já foi perdida na própria espera inócua de que algo aconteça.)

Sobre Um amor, o autor chegou a dizer:

“Não é um livro calculado, construído. Eu o escrevi com a mesma espontaneidade de O deserto dos tártaros. Ele expressa o meu estado de espírito e a minha experiência. Mas carreguei um pouco nas tintas. E respondo aos que o acusaram de ser totalmente autobiográfico dizendo que a protagonista não existe, e que, se a ela atribuí alguns traços da moça que amei, também lhe dei outros, de outras mulheres.”**

Ao reconhecer as fortes tintas autobiográficas, Buzzati mostra ser um autor bastante eclético, capaz tanto de trabalhar com a autoficção – fenômeno que hoje infesta as prateleiras de literatura, especialmente as produzidas no Brasil – quanto a construir um cultuado romance alegórico, incluído em muitas listas dos melhores livros de ficção do século XX. Um escritor como poucos e que sempre se pode reler, especialmente hoje em dia, quando a qualidade literária do que é publicado parece muito questionável.

Trecho:

“Pois bem ele vai aprender direitinho comigo: não vou telefonar durante pelo menos um mês, dinheiro eu tenho e assim no fim do mês ele virá lamber meus pés mais manso do que antes (…) então vou enlouquecê-lo de ciúme, já sei o que está imaginando, meu titio querido acha que estou tendo um homem atrás do outro e fica pálido só de pensar acende um cigarro atrás do outro e o desespero deve ser tanto que resolve procurar umas garotinhas na esperança de sentir algum prazer e poder esquecer Laide por algumas horas pelo menos e no entanto será muito pior para ele ah ah! Primeiro porque garotas como Laide há muito poucas por aí (…) Assim Antonio reconstrói os pensamentos de Laide e a odeia porque sabe que tudo é verdade, antes, é pior. Porque Laide nos seus cálculos estratégicos leva em conta apenas seus atributos físicos e não tem noção do que representam para Antonio o seu porte, o seu jeito de andar, de falar, de mexer os lábios, de rir, de fazer caretas, de beijar, aquela sua deliciosa pronúncia típica de Milão, com aquele peculiar erre aristocrático.” (pg.229- 230)

 

Um amor

Dino Buzzati

Nova Fronteira

Tradução: Tizziana Giorgini

295 pgs.

 

*A edição lida para a resenha foi a da 2ª edição, publicada em 1985 pela Nova Fronteira. No momento, no Brasil, este livro se encontra esgotado.

** Trecho extraído da orelha da 2ª edição brasileira do livro publicada pela nova Fronteira.

O tribunal de quinta-feira – Michel Laub

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Capa: Divulgaçaõ

 

 

Trecho:

“Todo fascista julga estar fazendo o bem. Todo linchador age em nome de princípios nobres. Toda vingança pessoal pode ser elevada a causa política, e quem está do outro lado deixa de ser um indivíduo que era como qualquer indivíduo, em meia dúzia de atos entre milhares praticados ao longo de quarenta de três anos, para se tornar sintoma vivo de uma injustiça histórica e coletiva baseada em horrores permanentes e imperdoáveis. Nesse sentido, os quatro dias desde o último domingo têm sido gloriosos para Teca: aqui temos o homem com quem ela foi casada, exposto em público em sua indiscrição e covardia, e cada pedra jogada nele é uma declaração pública de que não praticamos nem toleramos nada parecido com o que ele fez. O que, evidentemente, não inclui a indiscrição de entrar numa conta de e-mail alheia. Nem a escolha de encaminhar as mensagens para outras pessoas. Nem a consciência de que pessoas acabarão vazando as mensagens. Nem que o vazamento mudará a vida de todos os envolvidos, e para sempre carregarão o peso da reação que você sabe que esse tipo de mensagem acarretará em 2016, e por um segundo você pensou que em alguns casos essa reação possa ser injusta, ou desproporcional, e que no instante seguinte a isso tudo não haverá mais chance de voltar atrás. Teca selecionou os trechos mais chocantes dos textos, na ordem que mais fazia sentido e mais potencializava o escândalo, a tarde toda do domingo para montar esse dossiê com método, e depois me ligou para falar em maturidade, em respeito, em empatia, em boa vontade.” (pg. 72)

 

O novo romance do gaúcho Michel Laub (1973), O tribunal da quinta-feira, é um livro que aborda um assunto ao qual a maioria das pessoas está exposta nos dias de hoje, ao menos aquelas que utilizam as redes sociais: as consequências dramáticas que um fato, verdadeiro ou falso, pode ter ao ser repercutido nas redes sociais e de como essa repercussão pode afetar a vida de um indivíduo para sempre.

Narrado em primeira pessoa e em capítulos curtos, o livro conta a história do publicitário José Victor, quarenta e três anos, que tem suas trocas de e-mails com um amigo vazadas nas redes sociais pela ex-mulher, Teca, arquiteta com a mesma idade do marido.

O amigo com quem José Victor troca as mensagens, Walter, também é publicitário e da mesma idade do casal, homossexual e soropositivo. O conteúdo das conversas entre os amigos, que se conhecem há vinte e cinco anos, trazem todos os ingredientes de uma troca de mensagens entre pessoas que se conhecem há tanto tempo e para as quais quase não há segredos devido à liberdade e à intimidade que construíram ao longo dos anos.

Falam indiscriminadamente sobre sexo – com certo gosto pela escatologia por parte de Walter -, e outros temas tabus, com muitas piadas pesadas e opiniões preconceituosas que, numa época em que impera o politicamente correto, são intoleráveis para a maioria das pessoas de “bom senso” e partidárias da boa convivência entre os indivíduos.

No entanto, ao ter suas conversas expostas na rede, a vida de José Victor, Walter e Dani, a namorada de José Victor – redatora-júnior de vinte anos da agência onde o publicitário trabalha – e o suposto motivo pelo qual Teca, traída e abandonada após quatro anos de casamento, realiza a edição dos e-mails entre o ex-marido e seu amigo para colocá-la na internet e tornar a vida dos envolvidos um inferno.

A tolerância (ou a falta dela) é um dos temas principais do livro. Laub levanta uma discussão sobre o que ele chamará de “fascismo do bem”*: a defesa de temas naturalmente meritórios e pertinentes – o fim da homofobia, do sexismo, estes presentes nas discussões causadas pelo vazamento das conversas virtuais entre os amigos José Victor e Walter -, mas feita de uma forma violenta e igualmente intolerante por parte dos usuários da rede contra os defensores do discurso que eles atacam.

Outro ponto levantado pelo livro é o limite entre a vida privada e a pública: aquilo que você discute em particular com um amigo, com quem tem uma liberdade de convivência que lhe permite utilizar clichês e jargões socialmente inapropriados, deve ser utilizado, às vezes fora do contexto, para condená-lo publicamente? E mais: isso faz de você um ser desprezível, execrável, merecedor de um linchamento virtual ao qual fatalmente será submetido se tal diálogo for divulgado de forma exponencial?

Talvez seja até o caso de relembrar a frase atribuída ao jornalista e dramaturgo Nélson Rodrigues (1912 – 1980), outra pessoa que, se pudesse se manifestar após o advento da internet, com suas opiniões dissonantes, certamente sofreria represálias ferozes nas redes sociais: “Se cada um soubesse o que o outro faz entre quatro paredes, ninguém se cumprimentava”. O problema todo talvez esteja – verdade seja dita, como percebeu Nélson – quando o que é feito entre quatro paredes chega ao conhecimento de todos ou, na nossa época, à internet.

O julgamento e as sentenças virão de todos os lados, num lugar em que todos têm voz – até os imbecis, como afirmou Umberto Eco (1932-2016) em uma de suas últimas entrevistas para divulgação do seu romance Número Zero (2015) – e podem dar vazão a ela, aparentemente, sem grandes consequências a não ser a de um posicionamento mais firme contra alguém que infligiu uma norma social consensual. O massacre é inevitável.

Laub parece ter sua opinião, mas seu personagem, José Victor, narra de uma forma fria e desapaixonada os fatos, ao contrário dos outros elementos do tribunal (juízes, promotores, jurados e testemunhas), para que o leitor tire suas próprias conclusões.

A própria educação de Teca, feita por seus pais, pessoas de classe alta com forte consciência política (estereótipos de uma esquerda progressista e bem-intencionada) parece amesquinhar ainda mais a sua vingança. Ponto para o autor que, ao longo da obra, também lida com muitos clichês – do tipo “faça o que eu falo, não faça o que eu faço”- e consegue se sair bem. Exceção feita ao descuido do publicitário em deixar um papel com as senhas de acesso ao seu e-mail na casa da ex-mulher que parece um argumento frágil do ponto de vista romanesco para o início do seu calvário virtual.

O livro também faz um levantamento histórico do surgimento da AIDS, desde a descoberta dos primeiros casos no início da década de 80 até o momento, em que, com o devido acompanhamento médico  e o uso do coquetel de medicamentos, muitos dos soropositivos podem ter uma vida relativamente normal. Esse histórico é narrado acompanhando a visão de Walter que, ao descobrir sua homossexualidade na adolescência, recorda-se de um travesti, um pária na sua cidade natal, Bariri, no interior paulista, a primeira pessoa que conheceu vitimada pela doença.

Sétimo romance de Laub, O tribunal de quinta-feira vem antecedido de dois livros de sucesso de crítica e público do autor: Diário da queda (2011), que fala sobre o holocausto e a memória, e A maça envenenada (2013), que trata do suicídio de Kurt Cobain, ex-vocalista do Nirvana, e das consequências dramáticas da ida de um de seus fãs ao único show feito pela banda no Brasil, em janeiro de 1993.

Indiscutivelmente, o tema do romance é pertinente, pois está muito presente na vida de qualquer pessoa que faz uso das redes sociais, e a coragem em abordá-lo no momento em que ele está ainda mais evidenciado talvez seja das maiores qualidades do livro. No entanto, por incrível que pareça, isto também é o que mais impede de ver em O tribunal de quinta-feira uma obra que permaneça atual para daqui há dez, quinze ou vinte anos, o que certamente não acontecerá com os livros anteriores do autor.

Pela própria velocidade com que os assuntos ligados à rede ou à tecnologia são substituídos por outros, há o risco de que o mesmo aconteça com o romance, por ele poder ficar marcado como a crônica de uma época difícil e controversa, ainda que a volubilidade das paixões humanas seja um tema que possamos considerar atemporal.

 

O tribunal de quinta-feira

Michel Laub

Companhia das letras

183 pgs.

 

*http://www.opovo.com.br/app/opovo/paginasazuis/2017/01/02/noticiasjornalpaginasazuis,3677350/um-escritor-contra-o-fascismo-do-bem.shtml

 

 

 

 

O pai Goriot – Honoré de Balzac*

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Foto: Reprodução

“Quando eu fui pai, eu compreendi Deus” (O pai Goriot)

 

Honoré de Balzac (1799 – 1850) é considerado o pai do Realismo francês, o autor que abriu e mostrou o caminho que deveria ser seguido pelos romancistas durante o século XIX, e não apenas para os autores de seu país, como Gustave Flaubert (1821-1880), mas para autores de outras partes do mundo, tamanha a influência alcançada por sua obra.

Ao término dos estudos secundários, iniciou o curso de Direito na Sorbonne onde também descobriu sua paixão pela Filosofia. Ainda jovem demonstrou vocação literária e a família resolveu instalá-lo numa água-furtada para que se dedicasse aos seus escritos, mas a iniciativa não obteve sucesso imediato.

Após algumas tentativas fracassadas nos negócios e o acúmulo de dívidas que o perseguiriam por toda a vida, a partir de 1829, Balzac passou a se dedicar ao grande projeto literário de sua vida: a realização da Comédia Humana.

O intuito era o de escrever uma obra monumental, que reproduzisse a essência da vida humana, os desejos e decepções, as alegrias e tristezas, ambições e fracassos; um trabalho gigantesco que englobasse estudos de costumes, filosóficos e analíticos, pensado para que cada volume fosse dedicado a um aspecto marcante da vida social ou do indivíduo em si.

Balzac foi o primeiro autor a se dedicar a um projeto tão ambicioso, de forma sistemática e obsessiva, o que consumiu sua saúde de forma absurda. Também foi um precursor em utilizar seus personagens em mais de uma história, já que ao todo sua obra chega quase a cem títulos, entre romances, novelas e contos – é o que acontecerá, por exemplo, com Eugène Rastignac, um dos personagens principais de O pai Goriot, que retornará em Ilusões perdidas e Esplendores e misérias das cortesãs.

O pai Goriot foi o romance que abriu a Comédia Humana. No livro, o velho Goriot é um antigo fabricante de massas que fez fortuna, mas, já no fim da vida, teve que se abrigar na pensão da senhora Vauquer, localizada num bairro pobre de Paris, tendo uma renda mínima, o que lhe diferenciava pouco de um miserável.

Submetendo-se estoicamente às brincadeiras de mau gosto e humilhações dos demais inquilinos de Madame Vauquer, e da própria senhoria, o “pai Goriot”, como é chamado de forma irônica por todos, tem um único orgulho que mantém em segredo: o amor pelas filhas, Anastasie e Delphine, respectivamente a condessa de Restaud e a esposa do senhor de Nucingen, um banqueiro alemão.

A desconfiança sobre a relação entre o simplório fabricante de massas e as nobres damas da sociedade é gerada pelas visitas discretas que ambas fazem ao velho Goriot na pensão. Mas a paternidade só é descoberta quando o jovem e ousado Eugène Rastignac – um estudante de direito de vinte e dois anos, candidato à alpinista social -, vê Goriot sair da casa da condessa pela porta dos fundos. Aquela seria a primeira visita que o rapaz faria à casa da condessa com o objetivo de que as portas da sociedade parisiense lhe fossem abertas com a ajuda dela.

No entanto, o plano dá errado, pois ao revelar ao casal de Restaud que era vizinho de Goriot na pensão da senhora Vauquer, nunca mais será recebido por eles. Rastignac, então, é introduzido no que há de mais cruel e hipócrita na grande sociedade de Paris, ao lhe ser revelado o segredo do pai Goriot – em parte por sua prima distante, a viscondessa de Beauséant, a quem ele recorre para ser introduzido na sociedade parisiense; em parte pela senhora de Nucingen, Delphine, a outra filha do velho Goriot, de quem se torna enamorado, e desta vez é correspondido, até por não cometer o mesmo erro que cometera ao tentar travar conhecimento com a irmã mais velha da moça; e, por fim, com o próprio Goriot, de quem se aproxima e descobre ser verdadeiramente um homem de bem, muito melhor do que qualquer outro que conhecera em sua vida.

A história à qual o estudante é inteirado: o pai Goriot renunciara a toda sua fortuna em benefício das filhas, para que elas, com o dote fabuloso que receberam, conseguissem um casamento com um nobre (no caso de Anastasie) e com um homem rico (Delphine). O problema é que, em pouco tempo, devido à sua origem humilde e seus hábitos vulgares, o sogro passou a ser um incômodo para os genros e estes exigiram que suas esposas não mais o recebessem ou se encontrassem com o pai. Pedido ao qual elas obedeceram prontamente – exceção feita a alguns casos em que precisavam de uma ajuda financeira urgente.

Para não causar problemas às filhas, Goriot também aceitou a imposição com resignação. Nos momentos em que o afastamento mais o afligia, o velho fabricante de massas passou a recorrer à ajuda dos empregados das casas das filhas para saber onde encontrá-las durante o dia. Assim, mesmo que à distância, poderia observá-las e regozijar-se em seu sentimento paternal quase doentio.

Ao saber da história do vizinho, Rastignac se dá conta das próprias maldades e de seu egoísmo exacerbado: fizera seus pais, modestos proprietários rurais, e as irmãs mais novas lhe enviarem todas as economias para que pudesse se vestir melhor – o cúmulo das frivolidades e da vida de aparência – e ter acesso aos teatros e às óperas de Paris, em vez de continuar estudando, já que a subida social que almejava não passava necessariamente por se tornar advogado como era o anseio de sua família.

Eugène, então, conscientiza-se de sua abjeção ao saber da história ainda mais infame de seu infeliz vizinho. Como remissão do pecado, a aproximação do jovem com o pai Goriot é inevitável. O rapaz se torna um defensor do velho na pensão Vauquer, gerando atrito entre eles, a avarenta dona do estabelecimento, com o velhaco Vautrin e os outros inquilinos, enquanto Goriot se torna um aliado das intenções de Rastignac em relação à filha Delphine. (No fundo, mesmo com as melhores das intenções, Balzac parece querer dizer que a sociedade parisiense de sua época nunca deixou de ser uma disputa de salão que terminaria inevitavelmente numa alcova)

Com um agudo senso de observação da sociedade parisiense, Balzac inaugurou sua Comédia com um romance que reúne a mais sórdida abjeção com o fervoroso desejo de perdão dos pecados cometidos. Um livro que podemos classificar de demasiado humano, apesar dos exageros, como o autor queria que fosse toda a sua obra. Em O pai Goriot, Balzac alcançou seu intento e demonstrou porque, posteriormente, sua obra passou a ser referência para os estudos da sociedade francesa de sua época.

 

O pai Goriot

Honoré De Balzac

221 pgs.

Ediouro

Tradução: Sérgio Rubéns

 

*Por se tratar de uma obra de domínio público, existem muitas edições da obra de Balzac disponíveis no mercado com destaque para a reedição completa da Comédia Humana realizada pela editora Globo e organizada por Paulo Rónai. A edição lida para esta resenha, de 1994, encontra-se esgotada no momento.

O primeiro homem – Albert Camus

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Foto: Albert Camus (1944), Henri Cartier-Bresson.

Trecho:

“A memória dos pobres já é por natureza menos alimentada que a dos ricos, tem menos pontos de referência no espaço, considerando que eles raramente saem do lugar onde vivem, e tem também menos pontos de referência no tempo de uma vida uniforme e sem cor (…) Só os ricos podem reencontrar o tempo perdido. Para os pobres, o tempo marca apenas os vagos vestígios do caminho da morte.”

 

O franco-argelino Albert Camus (1913 – 1960) é um dos autores mais celebrados e respeitados do século XX, não apenas pela importância de sua obra literária, mas também pelo fato de ter conseguido aliar ao longo de sua breve e intensa vida aquilo que poucos são capazes de fazer: densidade intelectual e engajamento.

Romancista, dramaturgo, jornalista e pensador foi um homem consciente de seu tempo e de seu papel como intelectual, tendo participado da Resistência Francesa durante a ocupação nazista, quando foi um dos editores do jornal clandestino Combat.

Falecido em 4 de janeiro de 1960, num acidente automobilístico, na valise em que carregava foi encontrado o manuscrito de O primeiro homem, que seria publicado apenas em 1994, graças ao emprenho de sua filha, Catherine.

Livro inacabado, de cunho memorialístico, o romance narra em terceira pessoa a história de Jacques Cormery, que, após se tornar um escritor de sucesso na França, retorna à sua Argélia natal em busca de um anonimato que a vida na Europa já não lhe permite. O retorno à paisagem de seus primeiros anos traz de volta os momentos de extrema dificuldade e pobreza vividos por sua família durante a sua infância.

Em suas lembranças, a perda do pai, Henri, em combate na Primeira Guerra Mundial, quando Jacques tinha um ano, parece um dos fatores determinantes para a escassez de alegria e recursos durante a infância do protagonista. Um impacto que se materializa de forma consciente – numa das cenas mais conhecidas do livro – quando o escritor visita o túmulo do pai e, espantado, verifica que este vivera apenas 29 anos, enquanto ele chegara à maturidade, aos quarenta anos.

A partir da perda trágica do pai, que sequer conheceu, se origina uma série de infortúnios aos quais a mãe, analfabeta e semissurda, de origem espanhola – o pai era francês da região da Alsácia – tem de enfrentar para criar ele e o irmão, quatro anos mais velho. Ainda com os três viveria a avó de Jacques – mulher austera e rígida – e o tio, Éttiene (Ernest), quase mudo, embora com grande força física e vitalidade descomunal, que trabalhava numa oficina fabricando tonéis.

No entanto, também há espaço para boas lembranças como as do professor primário Monsieur Bernard, que, durante boa parte da infância, se torna o substituto da figura paterna para o menino Jacques, e que via grande potencial no menino, incentivando-o a estudar e o auxiliando nos preparativos para a prova de entrada para o Liceu. O carinho era recíproco por parte do professor, uma vez que M. Bernard, assim como Henri Cormery, havia servido o exército francês durante a guerra, e considerava sua obrigação ajudar o filho de um companheiro morto no conflito.

Bernard é um personagem baseado no professor de Camus, Monsieur Germain, com quem o escritor manteve intensa correspondência e visitas até o fim da vida, inclusive foi a primeira pessoa para quem Camus escreveu quando foi agraciado com o Nobel de literatura em 1957 – a carta está publicada no final da edição.

O futebol também é uma das boas lembranças da época da escola e uma das poucas alegrias da infância: a principal delas quando se tornou goleiro titular do time do Liceu.  Uma das rusgas com a avó era ela proibir-lhe de jogar porque os sapatos eram destruídos e eles tinham que providenciar o conserto. A paixão pelo esporte, assim como pela liberdade de pensamento e pela literatura, foi algo que acompanharia Camus por toda vida.

O primeiro homem é um romance profundamente denso e evocativo, por vezes até sentimental, fugindo do estilo que marca a obra de Camus – um estilo mais sóbrio, contido e racional e que permeia seus livros mais conhecidos como O estrangeiro, A queda e A peste. Livros estes que também tinham em comum o tema do absurdo, que marca não só a obra ficcional como a ensaística do autor francês como em O mito de Sísifo.

As grandes cenas descritivas da vila nos arredores de Argel onde a família viveu – do clima, do ambiente, da casa, da escola – dão um tom quase naturalista ao livro, além de envolver o leitor num sentimento de extrema emotividade. Os trabalhadores e estudantes, a mistura de povos da região – franceses e árabes – e a descrição de um ambiente onde impera a extrema pobreza reforçam essa veia naturalista do livro, o que não quer dizer que o autor busque a compaixão do leitor por seus personagens, aliás, pelo contrário.

Em trecho extraído do prefácio de O avesso e o direito, o próprio autor explica o que significou para ele ter tido uma vida de privações na infância:

“Sei que minha fonte está (…) nesse mundo de pobreza e de luz em que eu vivi durante tanto tempo, e cuja lembrança me preserva ainda dos dois perigos contrários que ameaçam todo artista: o ressentimento e a satisfação. (…) A pobreza nunca foi uma desgraça para mim: a luz espalhava nela suas riquezas.”*

Por se tratar de um romance inacabado, não se tem a exata noção do que Camus cortaria para ter em mãos uma obra que pudesse considerar concluída. Certamente a obra ainda passaria por muitas revisões até ser considerada terminada, e muita coisa se perderia, já que seus livros mais conhecidos primavam por uma linguagem depurada, enxuta de excessos, e seus trabalhos eram curtos quanto à extensão. Mesmo incompleto, o manuscrito de O primeiro homem é bem maior do que O estrangeiro e do que A queda, tendo o tamanho aproximado de A peste.

Por ter sido toda ela transcrita do manuscrito original, há muitas lacunas no texto final, por conta da incompreensão de certos trechos, o que acaba por truncar a leitura, embora sem a perda de sua totalidade. Apesar desses problemas, o romance não deixa de ser uma referência literária, por seu autor ter sido um dos mais importantes da França no século XX.

Mais do que legado póstumo do autor, o romance pode ser considerado como um inventário da formação de Camus como homem. De como teriam nascido as posições filosóficas e as convicções políticas de um dos escritores mais engajados da história da literatura e de como compreender que, para Camus, literatura e vida estavam profundamente interligadas desde o início.

 

O primeiro homem

Albert Camus

Saraiva/Nova Fronteira

Tradução: Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca e Maria Luiza Newlands Silveira

293pgs.

 

*Uma ficção autobiográfica sobre a impossibilidade da memória, apresentação de Manuel da Costa Pinto.

 

 

Pneu furado (O preço de um homem)

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O garçom limpava uma das mesas da calçada quando o barulho do metal contra o asfalto o assustou. O automóvel, um modelo popular e novo, saiu da rua, avançou pela calçada, indiferente aos transeuntes, e parou a dois metros de onde ele estava.

– Preciso correr senão perco o horário, disse uma mulher gorda, sessenta anos, vestida de maneira espalhafatosa, saltando do carro. – Depois você me encontra lá, Aguiar.

Aguiar era o motorista: um velho que beirava os setenta anos, que usava óculos de aros grossos, cabelos tingidos de preto, e vestido como quem fosse jogar golfe com os amigos. Desceu do carro mal-humorado para verificar o tamanho do estrago. Além do pneu, a roda de alumínio parecia um pouco danificada. O carro andou quase duzentos metros com o pneu furado antes de estacionar.

– Furou o pneu, chefia? perguntou, solícito, um homem de cabelos brancos com um colete enorme onde se lia: “Compra-se cartuchos. Pagamos o melhor preço”.

Aguiar não lhe deu atenção e continuou a vistoriar o carro em busca de mais algum prejuízo. O outro não se importou com a frieza do dono do carro e também fez uma rápida inspeção.

– Foi só o pneu mesmo. O senhor teve sorte, foi o parecer do homem, que emendou: – Tem macaco e estepe?

– Tenho.

– Estacione na rua que eu troco pro senhor.

Aguiar encarou-o pela primeira vez, adivinhando qual a verdadeira intenção daquela cordialidade. O homem tinha o rosto ruborizado, o olhar um pouco paralisado e, como notara, a língua solta. Teve a impressão que o outro estava alcoolizado, mas não quis chegar muito perto para ter certeza.

Percebendo a desconfiança do motorista, o homem tentou ser educado.

– O senhor podia tirar o carro, por favor? disse, com um gesto vago, mostrando que os pedestres precisavam desviar do carro para seguirem caminho.

Aguiar, mesmo contrariado, fez o que o outro lhe pedia, estacionando junto ao meio-fio.

– Tem que ser rápido. Tenho que pegar minha mulher no médico, disse, seco, abrindo o porta-malas, entupido de sacolas de compras.

– Vai ser rapidinho.

– Pode colocar as sacolas no banco traseiro, ordenou.

O homem o olhou espantado, como se aquilo não tivesse sido combinado, mas obedeceu. Após carregar as compras, pegou o estepe, a chave de roda e o macaco.

– Agora, pode deixar comigo, disse.

Aguiar trancou o carro e se sentou à mesa da lanchonete mais próxima do carro. Acendeu um cigarro e ficou observando o serviço do outro. O garçom se aproximou.

– O senhor deseja beber alguma coisa? perguntou.

O dono do carro balançou a cabeça de forma negativa e fez um gesto impaciente como se a pergunta fosse despropositada. O garçom saiu irritado.

A troca de pneu foi mais demorada que o homem esperava. Os parafusos estavam bem apertados e precisou pedir a ajuda de um jovem para tirar dois deles que mal se moviam.

– Tem algum problema aí? perguntou Aguiar, sem se levantar da cadeira, ao ver o outro pedir ajuda.

– Não, não. É só um parafuso que tá mais difícil de tirar, mas não é nada.

Terminado o serviço, deu o último aperto nos parafusos e reparou que o dono do automóvel olhou o relógio.

– Pronto! Tá novo! se apressou em dizer.

Aguiar levantou-se da cadeira e veio direto conferir se o serviço estava bem-feito.

– Hum, hum, resmungou sem encontrar nada de errado.

– Quer que guarde as compras? perguntou o homem, orgulhoso pelo bom trabalho.

– Sua mão não tá suja? perguntou Aguiar.

– Eu lavo ali na lanchonete. É rapidinho!

Guardou as ferramentas, o pneu furado e correu lavar as mãos no banheiro da lanchonete. Ainda voltou a tempo de ajudar o dono do carro a arrumar as compras no porta-malas. Esperava receber uma boa gorjeta – pelo menos metade do que recebia por dia como homem-placa e entregador de papéis. Ficou apreensivo quando levou as últimas sacolas e não percebeu qualquer iniciativa do outro em pegar a carteira. Terminou de carregar as sacolas e, fingindo descontração, disse:

– Pronto pra outra!

Aguiar observou o monte de sacolas, mexeu nelas, procurando ver se faltava alguma, e fechou o porta-malas. Olhou de novo para o homem que, com uma expressão ansiosa, parecia aguardar por sua recompensa. Hesitou um instante, pôs a mão no bolso e andou em direção à porta. O homem arregalou os olhos, assustado, pensando que ele fosse embora sem ao menos lhe agradecer, e foi atrás dele.

– Estou sem trocado, disse Aguiar, abrindo a porta do carro, com a carteira na mão.

A irritação do outro era visível. Aguiar sentou-se no banco do carro e puxou uma cédula do monte que tinha.

– Toma, disse estendo a nota de cinco reais.

O homem agarrou-a depressa, como se ela pudesse lhe escapar por entre os dedos, e rosnou um obrigado automático.

Depois que o carro partiu, o homem-placa foi conversar com o garçom e lhe mostrou o pagamento pelo serviço.

– Olha o que aquele velho pão-duro filho da puta me deu!

– É! É sempre assim, meu amigo… disse o garçom como se o consolasse.

– Pois é! Devia tê-lo deixado sujar a roupa pra ver o quanto é bom, falou com raiva. – Mas não ia adiantar nada: ia aparecer outro otário pra ajudar aquele miserável.

Guardou a nota no bolso e voltou a entregar os papéis. De repente, parou, enfiou a mão no bolso e puxou a nota para vê-la mais uma vez. Seu rosto se contraiu numa careta como se tivesse tomado um trago de uma bebida tão amarga quanto a própria vida.