Suicidas – Raphael Montes

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Capa Suicidas

Capa: Divulgação

Trecho:

“Naquela época, a casa não era tão importante para mim. Eu corria pelos corredores perseguido por uma infeliz que ganhava um salário mínimo. Depois, chorava porque queria brincar no parquinho, e então chorava porque tinha brigado com Zak. Acho que minha infância pode ser resumida em choro. Não de tristeza, mas de pirraça. Eu chorava e conseguia o que queria. Era feliz daquele jeito.

Só a partir dos três anos a arquitetura do lugar começou a fazer sentido para mim, como um mapa se formando em minha mente infantil. A grande porteira de ferro já gasta. O caminho de terra até o casarão. O parquinho com balanços e gangorra onde eu me divertia com Zak. O tímido jardim na entrada, fazendo frente à convidativa varanda. E, na parte de dentro, uma infinidade de quartos, banheiros, cozinhas, salões… Daria para vinte famílias morarem ali. Mas não, Cyrille’s House era apenas a casa de campo para a família Vasconcellos receber os amigos nas férias de julho.

É interessante perceber como o tempo passa. Aos nove, eu e Zak curtíamos soltar pipa, jogar videogame, bater uma bola no campo dos fundos. Com os anos, Zak se tornou o exemplo perfeito de filhinho de papai criado na zona sul carioca: malhado, com roupa de marca, carro do ano (uma Hilux prata de dar inveja), garanhão entre meninas na faculdade. Já eu… Virei o nerd do grupo, que gosta de escrever, curte cinema nacional e acha Machado de Assis um gênio da literatura brasileira. O estranho é que continuamos amigos. Não importa quanto o destino cisme em romper o tênue fio que nos une, os laços da infância não se desfazem.

Hoje é a primeira vez que pisaremos em Cyrille’s House sem nossos pais. Também não poderia ser diferente. Não estamos indo para brincar no balanço ou nadar na piscina enquanto nossas mães conversam sobre a última moda em Paris. Dessa vez, vamos por algo muito mais sério. Nós decidimos nos matar.”  (pgs. 10-11)

 

Nove jovens se reúnem no porão de uma casa de campo no interior de Minas Gerais para fazerem uma roleta-russa. A regra do jogo é: são nove balas e o último sobrevivente pode escolher entre desistir de se matar ou seguir o caminho dos outros. A partir desse mote macabro é que se constrói a narrativa de Suicidas, livro de estreia de Raphael Montes, publicado originalmente em 2012, pela editora Benvirá, quando o autor tinha vinte e dois anos – terminou de escrever o livro aos dezenove.

Além da pouca idade do autor quando da publicação do romance, chama a atenção do leitor a sofisticação da narrativa que é feita em três planos: o primeiro, o áudio de uma reunião entre a delegada do caso, Diana Guimarães, e as mães dos jovens suicidas após o encontro das anotações de Alessandro, estudante de direito de vinte anos, um dos suicidas, uma espécie de livro, escrito em tempo real sobre os acontecimentos do porão enquanto ocorria a roleta-russa – a reunião teria acontecido um ano após o episódio; o segundo plano, as próprias anotações do livro, lidas pela delegada durante a reunião e, por último, as anotações de Alessandro encontradas logo após a roleta-russa esclarecendo acontecimentos que antecederam o episódio: uma espécie de diário que descreve também todos os personagens envolvidos na carnificina, sob o ponto de vista de Alê, e que joga luz sobre os motivos que teriam levado cada um deles a querer acabar com a própria vida.

Tudo leva a crer, pelas investigações anteriormente realizadas e pelo relato escrito por Alessandro, que a ideia para o suicídio coletivo partiu de Zak, amigo de infância e colega de faculdade de Alê, pois a casa onde ocorreu o fato pertencia à família de Zak e a perda traumática dos pais, num acidente de carro, ocorrido uma semana antes, teria fragilizado ainda mais o rapaz, já emocionalmente instável.

No entanto, a cada novo capítulo, sempre avançando nos três planos do romance, a narrativa criada por Raphael Montes traz uma surpresa e um fato novo surge para causar uma dúvida em relação ao desfecho e aos papéis exercidos por cada personagem na história, como num clássico romance investigativo, ao melhor estilo Agatha Christie (1890-1976) e Arthur Conan Doyle (1859-1930).

Não que não haja problemas em Suicidas; talvez, por questão lógica, o principal deles seja crer que alguém fosse capaz de ficar indiferente a um jogo de roleta-russa, sendo inclusive um de seus participantes, a ponto de escrever um relato em tempo real de tudo o que acontece num porão onde nove pessoas estão prestes a se matar, mas impressiona a forma como Montes articula o três planos da história em seu livro de estreia sendo tão jovem.

Outro fato que conta a favor do autor é a forma como consegue fazer uma boa história. Apesar de ser um pouco cansativo e repetitivo, especialmente nas passagens da reunião entre a delegada e as mães, trabalhando bem com clichês de personagens estereotipados – a maioria das mães e alguns dos participantes do suicídio coletivo não passam de máscaras de um perfil muito comum da classe-média brasileira, enquanto outros, inseridos na narrativa, denotam certos papéis padrões de romances policiais -, mas os personagens principais, Alessandro e Zak, são bem construídos psicologicamente, e, no geral, o livro consegue manter o interesse do leitor até o fim de suas mais de quatrocentas páginas.

Não por acaso, hoje, aos vinte e sete anos, Raphael Montes tem sido apontado como o novo grande autor de romances policiais nacionais, com a venda do direito de seus livros já negociados para o cinema e para o teatro e começando a ser traduzido em outros países. Prenuncio que, por algum tempo, ainda deve-se ouvir falar muito dele.

Suicidas

Raphael Montes

Companhia das letras

432 pgs.

 

 

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As coisas que perdemos no fogo – Mariana Enriquez

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Capa As coisas que perdemos no fogo

Capa: Divulgação

Trecho:

“A cerimônia foi ao entardecer. Silvina usou a função vídeo de uma câmera fotográfica: os telefones estavam proibidos e ela não tinha uma câmera melhor, também não queria comprar uma, porque eram rastreadas. Filmou tudo: as mulheres preparando a pira, com enormes galhos secos das árvores do campo, o fogo alimentado com jornais e gasolina até alcançar mais de um metro de altura. Estavam campo adentro – um arvoredo e a casa ocultavam a cerimônia da estrada. O outro caminho, à direita, ficava distante demais. Não havia vizinhos nem peões. Não mais, àquela hora. Quando caiu o sol, a mulher escolhida caminhou para o fogo. Lentamente. Silvina pensou que a garota ia se arrepender, porque chorava. Tinha escolhido uma canção para sua cerimônia, que as demais – umas dez, poucas – cantavam: ‘Aí vai teu corpo ao fogo, aí vai/ Consome-o logo, acaba com ele sem o tocar.’ Mas a mulher não se arrependeu. Entrou no fogo como se numa piscina de natação, mergulhou, disposta a submergir: não havia dúvida de que o fazia por vontade própria; uma vontade supersticiosa ou incitada, mas própria. Ardeu apenas por vinte segundos. Cumprindo esse prazo, duas mulheres protegidas por amianto a tiraram das chamas e a levaram às pressas ao hospital clandestino. Silvina interrompeu a filmagem antes que fosse possível ver o edifício.”  (As coisas que perdemos no fogo)

 

Em As coisas que perdemos no fogo, da argentina Mariana Enriquez (1973), logo no início, nota-se a presença do absurdo e do surreal nos contos da coletânea.  Mas, no fundo, também se percebe que as narrativas guardam uma incômoda proximidade com a realidade. Talvez resida nessa ambivalência entre o real e o irreal dentro da ficção, que dificulta o discernimento dos personagens e até do próprio leitor, o principal trunfo do livro.

Há, sim, um quê de sobrenatural que perpassa algumas histórias, cuja origem pode ser um desequilíbrio mental ou emocional de algum personagem, causado por uma situação-limite conflituosa, mas, independentemente do que seja, realidade ou alucinação, o fato é que coisas estranhas – muito estranhas – sempre acontecem nos contos de As coisas que perdemos no fogo.

Tudo pode ser explicado logicamente, por uma depressão ocasionada por uma demissão e a deterioração natural de um casamento – como no caso de Paula, a assistente social narradora de O quintal do vizinho -, ou por um trabalho exaustivo e algo sinistro, que absorve as forças do indivíduo, atuando sobre uma mente impressionável, como no caso de Pablo, o guia turístico que passa a ser perseguido pelo fantasma de um serial killer de crianças que vivia em Buenos Aires no início do século XX (Pablito clavó um clavito: uma evocação do Baixinho Orelhudo).

E, por incrível que pareça, ainda é possível que uma explicação supersticiosa, mística ou paranormal ainda seja preferível a qualquer tipo de tentativa de racionalizar o entendimento de certas situações que ultrapassam nossa compreensão – como em O menino sujo, que abre a coletânea.

Desde as histórias com temas mais genéricos, como as que tratam do fim de um relacionamento amoroso – Nada de carne sobre nós e Teia de aranha -, ou as que trazem lembranças traumáticas e impactantes ocorridas na infância ou na juventude – A hospedeira, Os anos intoxicados e A casa de Adela – são permeadas por fatos insólitos que rompem a lógica e abrem uma zona nebulosa, onde qualquer explicação pode ser insuficiente, tanto para o personagem quanto para o leitor.

Os contos de Enriquez também trazem discussões bastante contemporâneas e, em duas delas, pelo menos, estão os melhores contos da coletânea. A primeira, no conto que dá título à coletânea, As coisas que perdemos no fogo, que trata de uma onda de crimes praticados contra mulheres por seus maridos e parceiros. Em todos os casos de violência, as vítimas têm seus corpos queimados – numa espécie de “holocausto feminino”, se levarmos em conta a origem grega da palavra holocausto, “sacrifício pelo fogo”.

Em represália, algumas mulheres organizam um grupo chamado Mulheres Ardentes, passando a recrutar voluntárias para praticar a autoimolação, como forma de protesto contra os crimes e contra a inércia das autoridades e da sociedade em punir os agressores. Evidente que o grupo passa a ser perseguido pela polícia e pelas autoridades e o conto adquire um ar de distopia, de uma metáfora sinistra sobre a condição feminina na sociedade, num exemplo de requintada ironia que somente a boa literatura pode dar.

Outro conto impactante pelo tema, e pela realidade sombria que traz à tona, é Verde vermelho alaranjado em que a jovem narradora relata o caso de seu amigo Marco, que decidiu se trancar em seu quarto e abrir mão de qualquer contato humano e convívio social. Marco torna-se assim um hikikomori: termo japonês que designa as pessoas que, por não suportarem a pressão cotidiana de uma vida cheia de obrigações, abandonam trabalho, estudo e vida social para serem cuidadas pelas famílias.

Marco passa a se relacionar apenas através da internet – as cores do título do conto revelam a disponibilidade do usuário de um chat para o bate-papo – e a viver aos cuidados da mãe que, por sua vez, apenas recebe orientações dele por SMS, e tenta saber algo a mais sobre o filho através das notícias de sua amiga, com quem o rapaz conversa com alguma frequência na web.

De um modo geral é difícil terminar a leitura dos contos de Enriquez sem que seus personagens e seus estranhos enredos permaneçam por um bom tempo na memória.  Narrativas que denotam uma grande influência do mestre do terror contemporâneo, Stephen King (1947), da estranheza dos contos de outro argentino, como a autora, Julio Cortázar (1914-1984), sobretudo de Bestiário (1951), seu livro de estreia e, claro, do mestre de ambos, Edgar Allan Poe (1809-1849), o pioneiro das histórias de suspense e suas narrativas de personagens perturbados vagando por um mundo comum.

Aliás, de um mundo assustadoramente comum, como nas histórias de Enriquez, em que um dia ruim ou um simples descuido pessoal podem se mostrar fatais para a sanidade de qualquer indivíduo.

 

As coisas que perdemos no fogo

Mariana Enriquez

Intrínseca

Tradução: José Geraldo Couto

190 pgs.

 

Trecho:

“Ela me pergunta se ele fala comigo. Digo a verdade: que sim, que mais propriamente entra num chat – porque cada vez fala menos, está desvanecendo na rede, Marco é letras que pulsam, às vezes desaparece sem esperar uma resposta -, mas que nunca me conta o que lhe acontece, o que sente, o que quer. E isso é horrivelmente distinto do que ocorria antes do enclausuramento. Antes falava obsessivamente de sua terapia, dos remédios, dos problemas de concentração, de quando tinha deixado de estudar porque não conseguia se lembrar do que lia, de suas enxaquecas, da falta de fome. Agora fala do que quer. Em geral, da Deep Web e do quarto vermelho e dos fantasmas japoneses. Mas não digo isso à mãe dele: invento que discutimos livros e filmes que ele vê e lê on-line. Ah, suspira ela, não posso cortar a internet então, é a única coisa que o conecta à vida.

Ela diz coisas assim, conectar à vida, seguir em frente, é preciso ser forte; é uma mulher estúpida.(…)” (Verde vermelho alaranjado)

 

 

 

O barril mágico – Bernard Malamud

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Capa O barril mágico

Capa: Divulgação

 

Trecho:

“Não faz muito tempo vivia em um bairro miserável de Nova York, em um quartinho quase miserável atulhado de livros, Leo Finkle, aluno da Yeshivah University, onde estudava para se tornar rabino. Ao final de seis anos de estudos, Finkle preparava-se para ser ordenado em junho e havia sido informado, por um conhecido, de que seria mais fácil conseguir uma congregação se ele fosse casado. Como não tinha então nenhum plano de casamento, depois de dois dias de aflição com essa ideia a perturbar-lhe a mente, solicitou os préstimos profissionais de Pinye Salzman, agente matrimonial cujo anúncio de duas linhas ele havia lido no Forward.” (O barril mágico)

 

Filho de judeus russos, Bernard Malamud (1914-1986) pode ser considerado um dos grandes escritores representativos da comunidade judaica norte-americana, ao lado de Saul Bellow (1915-2004) e Philip Roth (1933).

Seu principal livro, o romance The fixer*, de 1966 traduzido no Brasil como O faz-tudo e editado pela Record -, que recebeu o Man Booker Prize e o National Book Award de 1967, retrata as injustiças e atrocidades sofridas por um jovem judeu russo acusado de matar uma criança num período pouco anterior à queda do czar Nicolau II, revelando a face cruel do antissemitismo na Rússia pré-soviética.

A angústia do personagem principal e daqueles que acreditam na sua inocência, e lutam ao seu lado para provar que ele não é um criminoso, são narradas com maestria pelo autor. O clima de opressão causado pelo livro, por vezes, chega a ser intolerável ao leitor, numa narrativa tão incômoda quanto às obras de Franz Kafka (1883-1924), porém, sem a aura de alegoria deste último.

De um modo geral, a injustiça pode ser apontada como principal tema dos contos de Malamud em O barril mágico. Seja a injustiça cometida pelos homens ou pela vida, neste caso, creditado por algo que, os mais crédulos, chamam de Deus e outros, mais céticos, de destino.

Publicado originalmente em 1958, e vencedor do National Book Award – primeiro prêmio que receberia por sua obra -, os treze contos da coletânea trazem a marca de um autor profundamente ligado à comunidade judaica de Nova York – cidade onde nasceu –, em que a tentativa de reconstrução de novos lares por indivíduos recém-chegados de uma Europa destroçada pela Segunda Guerra Mundial, e a criação de novos laços familiares e amorosos, faz parte do cotidiano de quem tenta se reerguer em meio aos escombros da guerra e do exílio. Seguindo esta linha temática, podemos destacar os contos mais curtos de O barril mágico, como A prisão, A conta, O selecionador de ovos e Tenha piedade.

Além da luta cotidiana pela sobrevivência, em que até o acesso a uma simples refeição decente parece estar muito acima das possibilidades das personagens, a mentira também tem um papel importante nos contos de Malamud. Desde as mentiras mais inocentes, criadas para nos safarmos de situações embaraçosas, como em Um plano de leitura para o verão – onde o personagem George Stoyonovich, um apático jovem de 19 anos, inventa um método para melhorar sua instrução, para justificar a sua falta de interesse pelo estudo formal e pelo trabalho perante os vizinhos e a família – e A dama do lago -, em que o nova-iorquino Henry Levin tenta esconder suas origens judaicas para conquistar uma nobre italiana numa viagem à Europa – ou àquelas com as quais somos acusados falsamente, sem qualquer motivo, e podem nos causar enormes prejuízos materiais ou morais como em O selecionador de ovos – onde o velho Kessler é expulso de seu apartamento pelo proprietário Gruber, após se desentender com o zelador. Nestes contos, Malamud se mostra um arguto observador humano, atento em especial ao senso de ética e de justiça.

Em suas histórias, as mentiras transformam os personagens em simples peças de um jogo viciado em que a derrota é certa, apesar dos esforços em contrário, enredando suas vítimas em acontecimentos que as levam ao desespero diante da revelação de sua impotência.

Como bom autor judeu, Malamud também não escapa da tentação de parodiar uma boa parábola bíblica, como em Os sete primeiros anos (história de Jacó) e Anjo Levine (a vida de Jó) – este ainda com um quê de sobrenatural -, nem de uma pitada de um humor autodepreciativo ainda que melancólico (Eis a chave e O último moicano). Os contos em que o humor aparece com mais força são os que têm como cenário a Itália, exceção feita ao conto A dama do lago, já mencionado e que, apesar de se passar naquele país, é dos mais melancólicos da coletânea.

A minúcia e o apego ao detalhe, até mesmo nos contos mais curtos, também são marcas de O barril mágico. Em toda a coletânea é notável como o desespero, a dor e a tristeza, presentes tanto nos indivíduos quanto nas relações que são criadas entre eles, ainda que nas mais banais situações cotidianas, dão um sentido trágico às histórias de Malamud, cuja humanidade parece transcender às páginas do livro.

 

O barril mágico

Bernard Malamud

Record

Tradução: Maria Alice Máximo

254 pgs.

 

Trecho:

“Manischevitz, alfaiate, aos 51 anos de idade vítima de muitos reveses e de muita humilhação. Antes um homem capaz de sustentar-se com certo conforto, da noite para o dia perdeu tudo que tinha quando sua loja pegou fogo e, com a explosão de um depósito de substância inflamável, transformou-se em um amontoado de destroços carbonizados. Apesar de Manischevitz ter seguro contra incêndio, processos por perdas e danos acabaram por levar-lhe até o último centavo do que recebera do seguro. Mais ou menos à mesma época, seu filho, jovem muito promissor, foi morto na guerra, e sua filha, sem sequer uma palavra de aviso, casou-se com um boçal e desapareceu com ele da face da terra.” (Anjo Levine)

 

*A primeira tradução de The fixer, no Brasil, foi feita pela editora Manchete, nos anos 1970 e o título era O bode expiatório. Foi esta que o autor da resenha leu há alguns anos. No momento, ela se encontra esgotada.

 

O arroz de Palma – Francisco Azevedo

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capa arroz de palma

Capa: Divulgação

 

Trecho:

“Na noite seguinte, logo depois do jantar, eu já impaciente, diante da cadeira de braços. Apenas a cadeira. Apenas? Claro que não. Para mim, cadeira-palco, cadeira-cortina, cadeira-cenário, cadeira-tudo. Nela, agora com luz própria, Palma – não a tia, mas a atriz. Sempre de preto, mas imprevisível. Algumas noites, solene. Outras, informal. Algumas, com o riso solto. Outras, cheia de suspense. De repente, passe de mágica, o verbo! O passado vem à tona. E eu, menino enrugado aqui nesta cozinha, ainda viajo, presente colorido do indicativo.

– Viva Maria Romana! Viva! Viva José Custódio! Viva!

Todos seguem o cortejo atrás dos noivos. Mas Tia Palma permanece ali, os olhos fixos no arroz espalhado pelo adro da igreja. Para ela, aquele extenso crochê branco e granulado não é exemplo de desperdício, mas de generosidade. Trabalho coletivo feito à mão. Prova concreta de que o bruto e insensível ser humano, mesmo que por alguns instantes, também conhece a delicadeza e a poesia. Entusiasmada, se põe a juntar todo o arroz. Não deixa sobre as pedras um só grão. Em casa, ao pesar sua colheita, se alegra com os 12 quilos reunidos na balança. Doze quilos de arroz! Está ali o presente de casamento que dará a seu irmão José Custódio e à sua querida cunhada Maria Romana. No cartão, com inteligência e má caligrafia escreve:

‘Este arroz – plantado na terra, caído do céu como o maná do deserto e colhido da pedra – é símbolo de fertilidade e eterno amor. Esta é a minha bênção.

Palma.

Viana de Castro, em 11 de julho de 1908.’” (pg. 17)

 

Aos oitenta e oito anos, Antonio está prestes a receber todos os familiares – filhos, netos, os três irmãos e suas respectivas famílias – para um almoço comemorativo. O encontro é para celebrar o centenário do casamento de seus pais – José Custódio e Maria Romana –, mortos há cinquenta anos, ocorrido em Viana do Castelo, norte de Portugal.

As lembranças e histórias da família revividas – e revividas, neste caso específico, não é apenas uma força de expressão –, e narradas de forma episódica, formam o tempero deste romance de Francisco Azevedo (1951), lançado em 2008, e que já está em sua 15ª edição.

Em 1909, um ano após se casarem, José e Maria chegam ao Brasil, acompanhados por Palma, irmã mais velha do marido. Além da juventude e da força de vontade que tem para vencer na nova terra, o trio traz poucos pertences e, entre eles, sem que o rapaz o saiba, o controverso presente de casamento dado por Palma: doze quilos de arroz que os convidados despejaram sobre a cabeça do casal durante as bodas. Presente que Maria aceita de bom grado, mas que José se recusa em receber, indignado, causando a primeira briga entre eles.

Fixam residência em Santo Antonio da União, interior fluminense, onde José Custódio consegue emprego na fazenda da família Alves Machado, propriedade também de outro jovem casal, Avelino e Maria Celeste. Apesar dos percalços, José ganha a confiança do patrão e, em pouco tempo, é encarregado da administração da fazenda, estabelecendo uma rotina feliz e quase completa.

O fator determinante para que a vida do casal não seja considerada perfeita é a falta de filhos, o que aumenta a instabilidade do humor de José Custódio, sujeito meio rabugento e enfezado – enfezado, como explica Tia Palma, vem de “fezes”: como reconhece Antonio, o pai só estava acessível aos pedidos e desejos alheios após uma ida demorada e bem-sucedida ao banheiro.

Os primeiros doze anos no Brasil, mesmo sendo de muito trabalho e até de realizações, guardam essa frustração da infertilidade do casal, que apenas Tia Palma saberá como encerrar, fazendo uso do seu presente de casamento: o arroz recolhido no adro da igreja onde José e Maria se casaram.

O resultado é o nascimento de Antonio, um ano depois. Na sequência nascem os outros irmãos: Leonor, Nicolau e Joaquim. Todos muitos diferentes em relação ao caráter e ao temperamento.

Como Tia Palma preconizava, o arroz é o receptáculo de todo o desejo de felicidade e de bons fluídos concentrados naquele momento específico – a cerimônia de casamento -, para que, nos momentos difíceis, seja utilizado. O arroz parece adquirir poderes mágicos e, por sua vez, Tia Palma, adquire quase um status de “bruxa” e a história passa a ser uma espécie de lenda familiar, mais crível para uns – Palma, Maria e Antônio – do que para outros – José Custódio e seus outros filhos.

Quando de seu casamento com Isabel, filha do casal Alves Machado, Antonio acaba herdando dos pais o presente de casamento e, com o aval de Tia Palma, torna-se o guardião da felicidade da família, o que acabará gerando conflitos e rancores, mesmo sendo o primeiro que, ao sair de casa, tentou abrir caminho para os irmãos: primeiro como ajudante de cozinha na célebre Confeitaria Colombo e, depois, como dono de restaurante.

Francisco Azevedo cria uma forte narrativa familiar ponteada por certo misticismo, que muito lembra a saga de Cem anos de solidão, do colombiano Gabriel Garcia Márquez (1927-2014). A linguagem lírica dá uma personalidade marcante de grande sensibilidade do narrador. Um belo romance que, nas palavras de Antonio, mostra como “família é mesmo prato delicadíssimo, difícil de preparar”.

O arroz de Palma

Francisco Azevedo

Record

356 pgs.

O melhor de Caio Fernando Abreu – contos e crônicas

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Capa o melhor de Caio

Capa: Divulgação

“Pausa de uma lição. Sobre o guardanapo branco do piano, chá e bolinhos. Zumbido de mosca voando, entontecida pelo calor. Teresa com os dedos que há pouco ensaiaram no teclado, sem erro, a primeira parte de Pour Élise descansados no regaço. Feliz, feliz, feliz.

– Chico – disse de repente -, nós vamos nos casar.

Silêncio. Teresa envolveu com olhar terno aquele homem pequenino demais, humilde demais – mas tão seu, o único que a vida lhe dera. A mosca zumbia mais, o calor aumentava, cinco da tarde de janeiro. Então ele olhou bem fundo nos olhos dela. Tinha uns olhos pardos, salientes, caídos, infinitamente tristes.

– Eu não posso, Teresa. Não posso casar com você. Nem com ninguém.

E foi explicando aos trancos, a voz ainda mais baixa, mais cansada.

– Foi no quartel, há muitos anos. Uma granada, você sabe, explosão, um acidente, estilhaços. Não sou homem inteiro. Só meio homem, entende, Teresa? Não me obrigue a falar nisso.

Teresa endureceu o rosto, imóvel na cadeira. Antes que ela falasse, o príncipe Sapo foi saindo exatamente como entrara: cabeça baixa, meio tropeçando no capacho. Na porta ainda parou e olhou para trás. E achou-a tão bonita ali sentada na sala clara, ao lado do piano, aquele olhar triste e irônico, os cabelos finos e lisos presos no eterno coque, as mãos cruzadas no regaço, tão bonita que não pôde deixar de sorrir.

Foi esse sorriso que doeu em Teresa. Doeu pelo resto da vida.” (O príncipe Sapo, 1966)

 

Antes de falar sobre o livro em si, gostaria de fazer um desabafo sobre algo que me incomodou, como leitor, nesta obra, para além da qualidade literária do autor e dos textos escolhidos para esta antologia.

Toda antologia tem um quê de pessoal do antologista. Em se tratando de gêneros literários como o conto, a crônica e a poesia, independente do autor ou da obra a serem garimpadas para a seleção, sempre haverá textos indiscutíveis, consagrados, dos quais não haverá nenhum reparo em sua inclusão numa antologia. No entanto, haverá outros textos que, de acordo com o gosto pessoal do responsável pela seleção, podem ou não entrar numa antologia.

Desta forma é estranho notar que na antologia de contos e crônicas de Caio Fernando Abreu (1948 – 1996), intitulada O melhor de Caio Fernando Abreu, feita pela Nova Fronteira, ninguém assine a antologia – nem na capa, nem na orelha e nem na apresentação de pouco mais de três páginas do livro -, deixando em aberto ao leitor mais atento, cuja curiosidade também passa por esses detalhes, às vezes, irrelevantes para a maioria, quem teria realizado aquele trabalho de seleção de um dos autores nacionais mais importantes entre os anos 70 e 80, sobretudo quando tratamos dos gêneros conto e crônica.

Na apresentação, em certo momento, Caio F. é apontado como um dos autores mais citados nas redes sociais (!). Não que ser citado com certa frequência nas redes sociais seja algo bom ou que, por si só, já devesse diminuir a importância de um autor. Não é disso que se trata.

No entanto, sabemos que a quantidade de citações não deveria servir como parâmetro de qualidade literária de uma obra ou de um autor, além de sabermos que boa parte dos usuários da internet não se constitui de bons críticos literários que estivessem aptos a avaliar a qualidade estética de qualquer escritor.

A menção feita na apresentação sobre as redes sociais me parece, no mínimo, desnecessária, pois coloca em dúvida se a antologia não teria sido feita para atender a este público que cita Caio Fernando Abreu na internet, mas que, de fato, conhece pouco a sua obra.

Desta forma, acredito que a apresentação poderia se ater a outros detalhes mais relevantes, como, por exemplo, trazer dados autobiográficos do autor, período histórico em que a obra foi escrita, influências literárias importantes, enfim, haveria muitas informações a se acrescentar para que o leitor pudesse ter a leitura enriquecida e não empobrecer a própria edição da obra como me parece ter acontecido.

Desabafo feito, voltemos à edição em si.

Livro

Desde os primeiros textos de Caio Fernando Abreu, parece haver uma urgência e uma quase certeza de que a felicidade não é algo com a qual o ser humano pode contar, como no conto O príncipe Sapo, primeiro trabalho do autor a ser publicado, em 1966, na revista Cláudia, quando ele tinha apenas dezoito anos.

No conto, a protagonista Teresa é a mais velha e a única de onze irmãs a não se casar; porém, quando tudo conspirava para que fosse uma “solteirona” até o fim da vida, ela conhece Francisco, um professor de piano apagado e fisicamente frágil, mas que lhe parece à altura das suas humildes pretensões sentimentais e matrimoniais, que, infelizmente, também não serão satisfeitas.

Na própria apresentação já mencionada se reconhece que o conto tem os seus defeitos, mas foi incluído na coletânea por ser considerado pelo autor como seu primeiro trabalho como escritor profissional – fato atestado pelo pequeno texto introdutório, escrito pelo próprio Caio F., e publicado em 1995 no livro Ovelhas negras.

A partir daí, os demais dezessete contos seguem uma ordem cronológica de publicação e percebe-se a evolução de Caio F. como autor até chegar à maturidade, tanto temática quanto estilística de sua obra, com a publicação de Morangos mofados, de 1982, e Os dragões não conhecem o paraíso, de 1988.

Temas como a homossexualidade, o amor e o desamor, a fragilidade humana e a busca fugaz por instantes de felicidade são encarados de forma dramática e crua em textos como Aqueles dois e Sargento Garcia, de Morangos Mofados, e Sapatinhos vermelhos, Linda, uma história horrível e Mel & girassóis, de Dragões.

Aliás, o próprio pensamento de Caio F. parece ecoar nas últimas linhas de Aqueles dois, em que dois colegas de trabalho, que se tornam muito próximos, íntimos até, e não escondem a felicidade pelo fato, a ponto de escandalizar os outros funcionários do escritório, o que acaba levando à demissão de ambos.

 

“ (…) ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição e todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram.”

 

Sobre as crônicas: os temas são abrangentes como o gênero também o permite, passando pela morte do poeta Carlos Drummond de Andrade e que chegaria ao “céu dos poetas”, pelas recordações de uma tia falecida que morava no interior e pelas dificuldades de se escrever uma crônica (no fundo, um tema universal de todo cronista que, em último caso, fala sobre a diferença de se escrever por obrigação ou por prazer).

São dezoito textos escritos e publicados entre 1986 e 1995, nos jornais O Estado de São Paulo e no Zero Hora, de Porto Alegre, mas o texto mais impactante é Agostos por dentro, crônica publicada em 12 de agosto de 1995 no jornal gaúcho, pouco mais de seis meses antes da morte do autor, escolhida para fechar o livro.

Nela, Caio F. aparece bastante debilitado devido às consequências de sua luta contra o vírus da AIDS, apreciando a vista da praia do Leme no Rio, em julho. O prazer que aquela vista lhe dá, mesmo que bastante doente e consciente de que aquela talvez fosse a última vez que viria aquela cena – o mar, a praia, os banhistas se divertindo, numa espécie de celebração – é comovente. Drama, beleza, consciência de que a vida é finita, sim, mas que, ainda assim, é possível encontrar sentido para vivê-la até o fim.

 

Trecho:

“Foi na ponta do Leme, no Rio. Parecia verão pleno, mas era apenas julho, um dia quente e azul, pouco mais de meio-dia, a praia cheia de gente. Já repararam como, em dias quentes e azuis na beira da praia, no Rio, todos parecem deuses? Nesse dia pareciam. Não só os adolescentes de cintura fina e cabelos encharcados de sal, mas também as mulheres um tanto passadas, e os homens também, e até os velhos pareciam deuses cansados, mas deuses. As cores, talvez, as peles, não sei ao certo. Há sempre um toque de divino no humano em dias assim, pensei.

Da sombra, e vestido, porque não posso tomar sol, continuei olhando e bebendo uma água de coco, porque não posso beber álcool. E era um dia perfeito para torrar-se mesmo naquele tipo de sol dos horários mais impróprios que dermatologistas dizem assassino. Um dia perfeito também para empapuçar-se de chope olhando o horizonte. Mas disso eu não me queixava, porque era um dia perfeito também par apenas contemplar o perfeito, mesmo sem poder fazer a maioria das coisas que o tornariam ainda mais perfeito. Digamos que naquele momento eu não fazia questão dessas tais coisas: tudo que precisava estava ao alcance talvez não exatamente das mãos, mas certamente dos olhos, o que já é alguma coisa.” (Agostos por dentro)

 

 

O melhor de Caio Fernando Abreu – contos e crônicas

Nova Fronteira

245 pgs.

 

 

A autobiografia de Alice B. Toklas – Gertrude Stein

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Capa: Divulgação

Capa: Divulgação

Trecho:

“Quando encontrei Gertrude Stein pela primeira vez, em Paris, admirei-me de jamais ter visto um livro em francês em cima de sua mesa. Embora sempre houvesse uma infinidade de ingleses, não se viam nem sequer jornais parisienses. Mas você nunca lê em francês? perguntei-lhe, como tanta gente fazia. Não, respondeu-me. Sabe, eu sinto é com os olhos, e para mim não faz nenhuma diferença a língua que ouço, eu não ouço línguas, ouço timbres de voz e ritmos, mas com os olhos vejo palavras e frases e para mim só existe uma única língua, o inglês. Uma das coisas que mais me agradaram durante estes anos todos é viver rodeada por pessoas que não sabem inglês. Isso me deixa mais completamente a sós com os meus olhos e o meu inglês. Do contrário não sei se teria sido possível manter a intimidade com minha própria língua. E eles, nenhum deles, puderam ler uma só palavra do que escrevo, a maioria aliás nem sabia que eu escrevia. Não, eu gosto é de viver no meio de uma porção de gente e de ficar completamente sozinha com o inglês e comigo mesma.” (pgs, 74-75)

 

O papel exercido pela escritora norte-americana Gertrude Stein (1874-1946) na formação, divulgação e incentivo da obra de jovens autores norte-americanos, como Ernest Hemingway (1899-1961) e Scott Fitzgerald (1896-1940), na Paris após a Primeira Guerra Mundial é reconhecidamente notável. Geração, aliás, que ela batizou de “Perdida”.

Notável também foi o seu empenho em reunir e incentivar, no início do século passado, até pouco depois da Primeira Guerra, na mesma capital francesa, um grupo de artistas desconhecidos e de vanguarda que, ao longo do tempo, teriam seu talento reconhecido – alguns desses artistas, com justiça, foram considerados até gênios -, como Pablo Picasso, Henri Matisse e Juan Gris.

Muitas dessas histórias estão em A autobiografia de Alice B. Toklas, publicada por Stein em 1933. Alice B. Toklas foi a companheira com quem Gertrude Stein viveu por quase quarenta anos – de 1907 até 1946, quando a autora faleceu. Ambas dividiram o teto na Rue de Fleurus, 27, lugar que se tornou ponto de encontro da nata cultural parisiense e europeia. Simples encontros entre amigos, para comer, beber e conversar, enfim, celebrar a vida, e que, de vez em quando, podia se transformar em discussões estéticas capazes de gerar futuros movimentos vanguardistas.

Interessante no livro, para além da forma criativa encontrada por Stein em contar sua vida, através de uma suposta narrativa autobiográfica de sua companheira de vinte e cinco anos – na época em que o livro foi publicado -, é a simplicidade como são narradas as situações cotidianas, o que, de alguma forma, parece contrariar a visão que temos quando ouvimos a palavra “vanguarda”.

Se não está presente na forma de construções linguísticas elaboradas e, às vezes, até intrincadas – como fizeram seus contemporâneos James Joyce (1882-1941) e Virgínia Woolf (1882-1941) -, a modernidade de Stein surge ao deslocar o foco narrativo de suas memórias pessoais para o ponto de vista de uma terceira pessoa, sua companheira Alice B. Toklas, e trabalhá-la literariamente, como se fosse um romance. Algo parecido, em termos de narrador, foi feito por outro norte-americano expatriado de Paris: Henry Miller (1891-1980), ao publicar Trópico de Câncer, em 1939, rompeu definitivamente com a diferenciação entre autor e personagem, em uma espécie de autobiografia hiperbólica precursora da autoficção.

Em algumas passagens do livro, anteriores ao encontro entre Stein e Tolklas, que narram a busca de Gertrude e seu irmão por novidades nas galerias de arte parisienses ou em lojas que trabalhavam revendendo obras de artistas franceses e imigrantes desconhecidos, e o empenho de Stein em conhecê-los pessoalmente, quando a obra era de seu agrado, percebe-se como se deu início um trabalho pelo qual a escritora ficaria famosa: seus apurados gosto e incrível tino por tudo aquilo que tinha grande valor artístico.

Desta forma, quase acidental, formou-se um ambiente quase mítico em torno de Stein, com seu poder aglutinador de boa anfitriã e um extraordinário instinto de mecenas, com grande senso estético, que fez dos encontros e jantares em sua casa um reduto vanguardista.

Apreciadores de arte em geral e do glamour parisiense do início do século XX vão se deleitar com A autobiografia de Alice B. Toklas, um livro que, mesmo nos momentos mais sombrios, nunca deixa de ser leve e bem-humorado, como no relato feito sobre o período da Primeira Guerra Mundial, em que Stein e Toklas trabalharam como voluntárias dirigindo ambulâncias.

Na época de seu lançamento, o livro tornou-se best-seller sendo, de longe, o mais lido da autora, que passou para a história mais por causa de suas tertúlias do que por sua obra literária. E, goste-se ou não do estilo literário Gertrude Stein, é inegável o fascínio que ele exerce nos leitores como uma história de amor: de amor às artes e ao ser humano.

 

A autobiografia de Alice B. Toklas

Gertrude Stein

L&PM

Tradução: Milton Persson

262 pgs.

A missão do bom soldado*

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I

 

Desde criança fora criado e doutrinado para ser um bom soldado. A ideia de torná-lo um militar fora do pai que teve seu sonho, de seguir ele próprio a carreira das armas, frustrado ainda jovem, por causa de um acidente a cavalo em que perdeu o movimento da perna direita.

Ao menos o acidente não o impediu de casar-se e transferir seu sonho para o filho. E, desde a primeira infância, o soldado recebeu uma educação espartana. Por isso, o menino, já crescido, não se surpreendeu quando o coronel da companhia de infantaria em que servia o escolheu para “a missão mais importante que um soldado poderia ter” – palavras do próprio coronel.

“Amanhã, antes do alvorecer, pegue o melhor cavalo da companhia e siga em direção ao norte, até encontrar um forte próximo à fronteira norte do País. Lá, um oficial o espera, apresente-se a ele e diga que foi o escolhido para a missão. Antes de partir, procure o capitão, ele tem todas as informações de que precisa para a jornada. Está dispensado”.

“Sim, senhor coronel”, disse o soldado, saudando o seu superior.

No entanto, antes de deixar a sala, o jovem militar voltou-se para o coronel que remexia uma papelada sobre a mesa e disse:

“Com licença, coronel”.

“Sim”.

“Qual seria a minha missão no forte?”

“Não posso revelá-la no momento, soldado. Quando chegar ao forte, o oficial que o receberá vai informá-lo. Até lá, peço paciência a você. Pode ir se preparar para partida”, respondeu o capitão que em nenhum momento desviou sua atenção da pilha de papel que havia sobre a mesa.

Na manhã seguinte, antes do amanhecer, o soldado deixava a companhia para cumprir a missão a qual foi incumbido. Levava apenas comida e água suficientes para três dias de viagem – prazo estimado pelo capitão até a chegada ao seu destino -, quatro mudas de roupa, acomodadas numa trouxa que balançava na garupa do cavalo e alguns objetos pessoais de pouco valor material.

O único objeto que procurou, em vão, foi uma fotografia do casamento dos pais que trazia para os poucos momentos em que a saudade de casa apertava. Porém, há muito tempo não via a tal fotografia e lembrou-se dela por acaso quando encontrou algumas cartas que recebera dos pais.

“Devo tê-la perdido em alguma mudança”, pensou com algum pesar.

Nenhum companheiro foi se despedir do soldado, pois até sua partida foi mantida em segredo.

 

II

 

Os dois primeiros dias da viagem foram agradáveis, embora o céu estivesse carregado, com uma pesada cor de chumbo, sem o menor vestígio do sol.

À noite, o soldado procurava descansar próximo à estrada. Dormir era quase impossível por causa da excitação que a missão secreta lhe provocava. Passava o tempo todo cogitando qual seria o objetivo de sua missão, mas não chegava a qualquer conclusão. A ansiedade causava-lhe uma pressa descomunal e, antes de raiar o dia, apesar da exaustão em que se encontrava, partia outra vez, com a alma cheia de esperança, desejando chegar o mais rápido possível.

Em seu trajeto passou por algumas vilas e pequenos povoados. As pessoas lhe sorriam com simpatia – principalmente as mulheres mais jovens e solteiras – e, gentis, respondiam suas perguntas sobre a localização do tal forte para onde teria de ir.

“Não há nenhum forte nesta região. O senhor ainda deve estar longe dele”, era a resposta mais comum que recebia.

As paisagens se sucediam monótonas, embora algumas delas fossem até aprazíveis. No entanto, o soldado não tinha tempo de apreciá-las e mantinha seu passo firme em direção ao forte da fronteira norte do País, tendo como único companheiro seu cavalo negro.

Ao final do terceiro dia, prazo que o capitão lhe dera para o fim da viagem, o jovem militar nada encontrou a não ser uma paisagem árida e desoladora à sua frente. Estava diante de um grande deserto que, sem dúvida, sabia existir, mas não esperava encontrá-lo em seu caminho, pois o capitão não o havia precavido sobre ele.

Pensou que pudesse ter se desviado do trajeto original, mas, ao conferir a bússola que carregava e as anotações que trazia, percebeu que seguira rigorosamente a trilha indicada pelo seu superior.

Por um instante a ideia de desistir da tarefa e retornar passou-lhe pela cabeça. Entretanto, chegara muito longe para voltar e, por mais que se sentisse decepcionado, a missão para a qual fora enviado adquiria proporções gigantescas diante desses pequenos percalços. Continuou, então, a seguir a trilha que o levaria ao forte.

 

III

 

Os viajantes, agora, eram cada vez mais raros e, ao contrário do início da jornada, demonstravam pouca disposição em ajudá-lo ou responder suas perguntas, pois, da mesma forma que ele, desconheciam completamente a localização do tal forte e nem sequer tinham ouvido falar nele.

O máximo de ajuda que conseguia obter das pessoas que encontrava pelo caminho era a confirmação que seguindo em frente chegaria à fronteira norte do País.

A situação não era pior porque, por sorte, antes de chegar ao inóspito deserto, conseguira encher seu cantil num pequeno riacho que cruzara, mas a comida que economizara durante a viagem já chegava ao fim.

De certa forma, o deserto também o ajudava, já que não era tão escaldante quanto imaginara, e o céu mantinha a mesma carapaça de chumbo desde a sua partida, impedindo que o sol o castigasse ainda mais.

Ao final do quinto dia de viagem, porém, o soldado encontrou alguém que sabia onde ficava o tal forte. Era um pastor de cabras, um homem tão rude quanto a paisagem que habitava.

“Conheço um forte que fica no alto daquela montanha”, falou o pastor apontando para uma mancha cinzenta na linha do horizonte. “Mas são quase dois dias de viagem até lá!”.

Desapontado com a segunda informação, o soldado pediu ao homem que o acolhesse pelo menos por aquela noite. Explicou-lhe que estava esgotado e que a comida que trouxera, suficiente apenas para três dias, havia terminado. Após refletir um instante, o pastor aceitou recebê-lo por uma noite, mas, como forma de pagamento pelo serviço prestado, exigiu o cavalo.

“Impossível! Este cavalo não é meu! Foi cedido a mim pela companhia que sirvo apenas para esta missão!”, respondeu o soldado, indignado.

“Você não irá precisar dele para chegar ao forte! Conheço bem aquele lugar!”, argumentou o pastor. “A montanha é muito perigosa e o caminho estreito demais para um homem a cavalo”.

O soldado pensou que a estadia lhe sairia exageradamente cara, mas concordou com a exigência com a condição que o pastor lhe acompanhasse até ao sopé da montanha onde lhe entregaria o cavalo. Como não tinha o que perder o pastor aprovou o acordo e, na manhã seguinte, partiram em direção à montanha.

O dia esteve nublado, sem qualquer resquício de sol assim como não havia também qualquer sinal de que a chuva pudesse cair, como se aquela situação climática, mais que o acaso, fosse obra de algum deus perverso.

Pouco antes do meio-dia do sétimo dia de viagem, o jovem militar chegou à base da montanha onde ficava o forte. Despediu-se de sua montaria com um carinho na crina e um leve tapa no pescoço. O pastor amarrou sua mula na sela do belo cavalo negro, recomendou cuidado na escalada porque, apesar da montanha não ser tão alta, o terreno era bastante escarpado, e disse que se o soldado se apressasse poderia chegar ao forte antes do anoitecer.

Sem agradecer o conselho ou se despedir do homem, o soldado deu-lhe as costas e começou a última etapa da jornada.

 

IV

 

Conforme o pastor havia alertado, pouco antes do final da tarde, o soldado chegou ao portão principal do forte. No entanto, diante da construção, todas as suas especulações a respeito da missão que o esperava se desvaneceram e a alegria que pensava envolvê-lo no exato momento da chegada foi substituída por uma terrível frustração.

O forte era pequeno, todo construído em pedra, e com uma aparência frágil e sombria. A impressão era que as pedras podiam se esfacelar com um simples olhar – como se podia constatar ao observar as ameias que apresentavam rachaduras grandes, parte de uma delas, inclusive, já havia se partido. O jovem militar pensou tratar-se o lugar de um depósito de armas esquecido, erguido em forma de forte para esconder sua verdadeira finalidade.

Vencendo a aversão que a construção lhe causava, o soldado aproximou-se do portão de madeira e observou através da seteira, que estava levantada, o que lhe esperava. Com exceção de um cavalo branco e magro que comia com o focinho enfiado num cocho, o forte parecia deserto. No canto oposto de onde estava o cavalo havia uma pilha de madeira, cortada em pequenos feixes, e, ao lado dela, uma porção de cadeiras e mesas quebradas.

Empurrou levemente o portão e percebeu que ele estava apenas encostado, ao contrário do que rege os regulamentos militares. Não havia nenhuma sentinela à vista Entrou devagar, evitando fazer qualquer ruído que denunciasse a sua presença. No pátio de entrada, o vento cortante que soprava ruidoso, naquela hora morta e angustiante do dia, ergueu um monte de poeira do solo como que a lhe dar boas-vindas.

“Você demorou!”, disse-lhe alguém.

“Quem está aí?”, perguntou o soldado, assustado, pois não identificou de onde vinha a voz.

“Eu!”, respondeu-lhe um velho de barbas longas e cabelo desgrenhado, saindo de um cômodo ao lado do portão por onde entrara.

O velho vestia um uniforme igual ao do soldado, mas bem mais surrado e sujo, e tinha uma fisionomia que não era estranha ao jovem militar.

“Quem é você?”, perguntou o soldado atônito pelo mau aspecto do sujeito.

“Quem você acha que sou?”, perguntou o homem com um sorriso de escárnio.

“É o oficial…”, murmurou o jovem após um instante de silêncio.

“Se foi isso que lhe disseram…”.

“Mas por que está sem os seus galões, senhor?”.

“Chega de perguntas, soldado!”, falou o velho com brutalidade. “O que veio fazer aqui?”

“Fui encaminhado do forte…”.

“Sei o que veio fazer aqui! Pode pular esta parte!”, cortou novamente o homem abruptamente dando de ombros.

“O senhor poderia, então, me dizer qual é a minha missão aqui?”, disse o soldado quase com ódio do homem.

“Hã?! Sua missão?!”, ironizou o velho aproximando-se do soldado. “Então não sabe ainda qual é sua missão aqui, soldado? Não sabe por que veio para cá?”.

“Não, senhor, não sei!”, respondeu o soldado, envergonhado. “O coronel me disse que um oficial me informaria qual seria a missão apenas quando chegasse!”.

“Pois, então, eu direi qual é a sua missão!”, disse o homem, ríspido. “Sua missão será me ajudar aqui neste posto, aprender o serviço e, quando eu for reformado, assumir o trabalho sozinho! É esta a sua missão, soldado! Simples, não é?”.

“Como assim substituí-lo, senhor?”.

“Você é idiota ou o quê, rapaz?”, disse o velho, impaciente. “Não percebeu que sou um velho acabado, que minha juventude, minha força e minha esperança terminaram?! É preciso alguém mais jovem para fazer todo o serviço que existe por aqui! E você foi o escolhido, rapaz!”.

“Mas o quê há para fazer aqui?”.

“Que tipo de serviço acha que existe num forte próximo à fronteira mais importante do território?”.

“Guardar a fronteira…”.

“Muito bem, rapaz!”, aplaudiu o velho numa pantomima ridícula. “Mas não é somente isto, não! Há também relatórios e memorandos a serem preenchidos e enviados para o governo e para o Estado-Maior. Além disso, é preciso fazer nossa própria comida, buscarmos nossa água, pois senão não sobreviveríamos aqui, no meio do nada, não é verdade?”.

O soldado permanecia imóvel. Seu rosto se fechara numa expressão de dúvida e uma sombra sinistra baixou sobre seus mais íntimos pensamentos.

“Vamos ao trabalho!”, convidou o velho segurando seu ombro, pela primeira vez, de maneira amistosa. “Vamos terminar de cortar esses móveis, pois o inverno já começou!”.

 

V

 

Durante todo período que passou no forte, o soldado recebeu explicações detalhadas sobre todas as tarefas, funções e horários a serem cumpridos rigorosamente. Até nas tarefas mais simples, como o hastear a bandeira ao som do hino nacional, em que o jovem militar não via qualquer sentido tanta cerimônia num lugar ermo – habitado, agora, apenas por dois militares -, o velho aplicava todo o seu rigor marcial.

No entanto, como o soldado também era muito escrupuloso no desempenho de suas funções, e, por isso mesmo, fora escolhido para aquela missão, acabava justificando a pompa com que o velho soldado revestia os serviços mais banais que realizava.

O tempo foi passando e se perdendo a tal ponto que o soldado não sabia mais medir em semanas, meses ou anos o período que passara no forte. Apesar da monotonia, os dias se sucediam rápidos e, por mais espantoso que fosse, o trabalho nunca terminava.

A relação com o velho também se transformara de uma fria e distante convivência militar para uma escancarada e franca amizade, quase beirando a cumplicidade, embora nunca tivessem revelado qualquer confidência pessoal. O assunto dos dois sempre era o exército, a vida na caserna, e nada mais.

Foi por causa dessa amizade que o soldado adiou, ao máximo, a decisão de deixar seu posto e o companheiro. Desde o momento em que colocou os pés no forte, percebera que a missão para a qual fora designado não condizia com a sua capacidade. Quando entrou para o exército sonhava em ser herói numa batalha ou até mesmo morrer numa guerra, defendendo com honra seus ideais e sua pátria. Sem dúvida, esperava um destino mais próximo do heroico, uma espécie de prêmio a tanta aplicação no desempenho de suas funções militares.

Por três vezes chegou a pedir transferência para outro posto, mas nunca houve resposta ao seu pedido. Vendo que a transferência seria impossível, resolveu, então, solicitar a dispensa. Sem dúvida, fora criado para ser um soldado zeloso e obediente, mas era chegado o momento de retornar para a vida. Não tinha ideia do que faria dali por diante, longe dos afazeres militares, mas sabia que precisava fazê-lo com urgência sob pena de tornar-se um homem sem passado, presente e futuro como seu companheiro.

Foi durante o jantar do dia mais frio que já passara em toda a sua vida, quando havia perdido a esperança em receber resposta de seu pedido de dispensa, que o soldado resolveu confessar ao velho seu plano.

“Amanhã vou deixar o forte!”.

“Mesmo sem a dispensa?”, perguntou o homem, em tom natural, como se já esperasse tal atitude.

“Sim!”.

“Boa sorte!”.

O soldado calou-se por um instante, pois não esperava que o velho recebesse sua decisão com tanta naturalidade.

“Quer vir comigo?”, arriscou perguntar, sem desviar o olhar do fundo do prato.

“Não. É preciso que alguém fique aqui, cuidando do forte! Além disso, abandonar o forte não vai resolver o meu problema nem o seu”.

“Como sabe disso?”, perguntou o soldado, irritado, dando um violento tapa na mesa.

“Porque já tentei fazer isso também e percebi que não adiantava nada”, respondeu calmamente o homem.

“E por que não deu certo com você quer que eu acredite que vá acontecer o mesmo comigo?”.

“Claro que não! Isto é uma coisa que você só saberá se o fizer, por isso vá em frente. Depois de mim, outros também tentaram, inclusive o seu antecessor”.

O soldado levantou-se abruptamente da mesa e passou a andar em volta dela, nervoso, como uma fera enjaulada.

“Por que nunca me falou que o soldado que veio antes de mim fugiu?”.

“Porque não vinha ao caso e porque nunca é bom falar dos maus exemplos! Mas se quiser, pode partir!”, disse o velho recolhendo os pratos.

“Como assim posso partir?!”.

“Pode partir! Verá que não minto quando digo que isso não irá resolver o seu problema. Aliás, só irá agravá-lo! Há muito tempo quando pensou em desistir da missão, ao se encontrar diante do deserto, talvez conseguisse mudar a sua vida, mas hoje isto é impossível. Você foi até o fim, escolheu o seu caminho ou o caminho que alguém achou que fosse certo e agora não há como retornar e percorrer um caminho diferente”.

“Mas…”.

“Fique tranquilo! Não direi a ninguém que é um desertor. Direi apenas que desapareceu durante uma tempestade de areia quando fazíamos a ronda semanal”.

O soldado estava intrigado com o que lhe dissera o experiente militar, mas, ao mesmo tempo, a promessa que ele lhe fez de não o delatar como um desertor encorajava-o a provar que o companheiro estava errado.

“Leve o cavalo, mas deixe sua arma comigo! Ela não vai lhe fazer nenhuma falta”, disse-lhe o velho encerrando o assunto.

 

VI

 

Pela manhã, para não demonstrar que a emoção o dominava, despediu-se do companheiro com firmeza e deixou o forte, levando apenas objetos pessoais, roupas civis, água e alimento suficientes para seis dias de viagem.

Por causa do cavalo, precisou descer a montanha pelo trecho norte, mais longo e menos perigoso, por onde costumava descer com o companheiro para fazer a patrulha. Reparou que o céu do outro lado da fronteira estava mais escuro que o normal e raios e relâmpagos o cortavam com insistência.

Já no início de sua jornada, após deixar a montanha do forte, percebeu que tudo parecia ter mudado. Até mesmo os lugares não pareciam ser mais os mesmos.

Fez questão de passar pelo casebre do pastor que ficara com o seu cavalo, mas não o encontrou, absolutamente, embora estivesse convencido que percorria exatamente o mesmo trajeto.

O deserto que atravessara, pela primeira vez, em quatro dias parecia interminável. Ao final do décimo dia de viagem, fixava a linha do horizonte através da luneta, mas não encontrava qualquer sinal de que aquela paisagem árida se findasse.

O cavalo – o mesmo que estava no forte desde a sua chegada, ainda mais velho e magro – não resistiu à viagem e caiu exausto, ofegante, após mais dois dias de esforço, para não mais se levantar. O soldado chorou pelo pobre animal e, desanimado, por sequer ter uma arma para abreviar aquela agonia, o abandonou a própria sorte, cobrindo-o apenas com as roupas que trazia na trouxa.

Mais oito dias a pé levou para cruzar o deserto e, na solidão de seus passos, decidiu, em vez de deixar definitivamente a vida militar, e viver ao deus-dará, se apresentar, mesmo sem ordens, ao antigo comando e sofrer as punições cabíveis.

Aos viajantes que encontrava contava a sua história e pedia água e comida e perguntava se sabiam a localização da sua companhia. Nenhum deles, porém, sabia onde ficava o lugar e, a contragosto, lhe arrumavam um pouco de alimento e água.

Perdeu a conta dos dias que vagou à procura do antigo quartel sem, no entanto, encontrar qualquer sinal dele. As pessoas, às quais se dirigia, nada sabiam sobre uma companhia de infantaria na região e, para seu espanto, apenas um velho ancião de quase cem anos dissera que ouvira falar, vagamente, da existência de um quartel do exército por aqueles lados muito antes de ele nascer.

O soldado foi ao local exato informado pelo homem e nada encontrou a não ser uma extensa plantação de trigo. Se algum dia havia realmente existido algum quartel por lá, nem suas ruínas sobraram. Não lhe restou alternativa senão retornar ao forte da fronteira para o qual fora designado para cumprir a sua missão.

A viagem, a mais longa que empreendera até então, foi difícil e cansativa, mas em nenhum momento pensou em desistir dela. Tinha consciência que o que lhe movia, quase que totalmente ao seu destino final, era a oportunidade que teria de desculpar-se com o velho companheiro e reconhecer o quanto ele estava certo.

 

VII

 

Ao entrar no forte, sem a menor noção de quanto havia andado ou quanto tempo havia se passado desde a sua partida, seus olhos estavam enevoados pela emoção. Chamou pelo companheiro, mas não obteve resposta. Desesperado, correu pelo forte sem encontrá-lo. Resolveu procurá-lo, então, ao redor da construção, mas não achou qualquer sinal dele.

Lembrou-se da luneta que trazia e passou a observar os arredores da montanha, para tentar encontrar algum vestígio do antigo companheiro. Depois de horas de busca, e muita paciência, avistou para além dos limites da fronteira, junto a uma pedra, algo parecido com um par de pés. Correu para lá, sem perder tempo.

Era mesmo o velho militar, morto, sem qualquer sinal de sangue ou marca de violência, abraçado ao fuzil que pedira ao soldado e um pedaço de papel dobrado junto ao peito. O soldado retirou a arma e o papel das mãos do morto.

Verificou atônito que, envolta sob o papel, estava a foto de casamento de seus pais, perdida desde sua partida da companhia, e que sempre contemplava nos momentos em que a saudade parecia maior que o objetivo para o qual se preparara desde a infância. O papel, por sua vez, era seu pedido de dispensa indeferido pelo comandante da corporação.

Neste instante, um tênue raio de sol conseguiu romper o céu cinzento e iluminou a cabeça inerte do velho. O soldado observou atentamente o rosto do companheiro, como se olhasse para seu próprio reflexo num espelho, e compreendeu, finalmente, qual era a sua verdadeira missão.

 

 

* Conto publicado originalmente em 2005 na segunda coletânea Dedic Escreve e revisado pelo autor para publicação neste blog.

 

 

 

Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra – Mia Couto

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capa Um rio chamado tempo

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Trecho:

“Juca Sabão era para mim uma espécie de primeiro professor, para além da minha família. Foi ele que me levou ao rio, me ensinou a nadar, a pescar, me encantou de mil lendas. Como aquela que, nas noites escuras, as grandes árvores das margens se desenraizam e caminham sobre as águas. Elas se banham como se fossem bichos de guelra. Regressam de madrugada e se reinstalam no devido chão. Juca jurava que era verdade.

As lembranças me surgem velozes como nuvens. Recordo aquela vez em que Sabão se encomendou de uma expedição: queria subir o rio até à nascente. Ele desejava decifrar os primórdios da água, ali onde a gota engravida e começa a missanguear do rio. Juca Sabão muniu-se de mantimentos e encheu a canoa com os mais estranhos e desnecessários acessórios, desde bandeiras a cornetas. Demorou umas tantas semanas. Regressou e fui o primeiro a recebê-lo, nas escadas do cais. Olhou-me cansado, e disse:

– O rio é como o tempo!

Nunca houve princípio, concluía. O primeiro dia surgiu quando o tempo já há muito se havia estreado. Do mesmo modo, é mentira haver fonte do rio. A nascente é já o vigente rio, a água em flagrante exercício.

– O rio é uma cobra que tem a boca na chuva e a cauda no mar.

Assim proferindo, Juca Sabão me pediu que me aproximasse. Seus dedos me fecharam as pálpebras como se faz aos falecidos. Certas coisas vemos melhor é com os olhos fechados. Neste momento, é como se ainda sentisse suas mãos sobre o meu rosto.” (pg. 61)

 

Publicado originalmente em 2002, Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, do moçambicano Mia Couto (1955), vencedor do Prêmio Camões de 2013, é um livro que impressiona pela beleza que o próprio título já parece antecipar.

No livro, o narrador, o estudante Mariano, retorna à sua terra natal, a ilha de Luar-do-Chão, para enterrar o avô paterno, Dito Mariano, o patriarca da família (munumuzana, na língua nativa). Há muito tempo longe do lugar, os modos de Mariano parecem os dos brancos da cidade (mulungos), o que o faz um estranho aos olhos da maioria dos habitantes da localidade, inclusive para seus parentes.

Os hábitos de luto também parecem muito estranhos ao rapaz – como retirar o telhado da casa da família (nyumba-kaya) durante o período de velório, que pode durar dias.

A escolha de Mariano, feita pelo próprio avô antes de sua morte, para ministrar as cerimônias fúnebres, cria uma série de desconfortos e intrigas na família, sobretudo entre seu pai, Fulano Malta, sua avó, Dulcineusa, e seus tios Abstinêncio, Últimio e Admirança. Cada qual com os seus motivos – inveja, rancor, medo, vergonha -, fazem da cerimônia, naturalmente dolorosa, a antecipação de uma disputa pelo poder de uma família fragmentada prestes a se desintegrar de vez.

No entanto, mais do que a intriga familiar, ainda agravada por misteriosas cartas anônimas recebidas pelo rapaz, algumas delas assinadas até por seu avô defunto, um misterioso fenômeno ocorre impedindo que o corpo de dito Mariano seja enterrado e que o velho possa finalmente descansar em paz. O fenômeno, aparentemente sobrenatural, ao que tudo indica, foi causado por um segredo que envolve a morte da mãe de Mariano, Mariavilhosa, ocorrida há muitos anos.

No entanto, o segredo pode ser ainda mais antigo e a morte de sua mãe pode ter sido apenas algo pequeno diante da verdade que envolve a família de Mariano. Caberá a ele, então, descobrir o motivo pelo qual se torna impossível o sepultamento do avô.

Misturando fantasia a uma prosa profundamente poética, Mia Couto recria um espaço fantástico numa África pós-colonial, onde as tradições ancestrais de um povo – em que a crença que as forças da natureza, como a água ou a terra, atuam para premiar os bons ou punir os maus indivíduos -, se digladiam com as novas e prementes necessidades de sobrevivência num mundo cada vez mais hostil ao homem.

Mia Couto faz de Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra uma brilhante saga familiar, ao melhor estilo do colombiano Gabriel Garcia Márquez (1927-2015), amparada sobre uma poesia narrativa, inspirada numa de suas principais influências literárias, o brasileiro Guimarães Rosa (1908-1967), que também se tornou uma das principais características deste autor que, hoje, é um dos maiores prosadores de língua portuguesa.

 

Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra

Mia Couto

Companhia das letras

262 pgs.

 

Trecho:

“(…) E eu vou ficando calado. Mesmo aos domingos de manhã: fico calado. Assim, silencioso, vou rezando. Que a gente reza melhor é quando nem sabemos que estamos a rezar: O silêncio, doutor. O silêncio é a língua de Deus.

Era o silêncio que me assistia quando visitava meu primo Carlito Araldito, sapateiro de profissão. Eu permanecia sentado contemplando seus ofícios. À saída, lhe dizia: minha vida, sabe, Araldito, minha vida é um sapato desses, usado de velho. A gente pode voltar a calçar, o cabedal pode voltar a brilhar, mas somos nós que já não brilhamos. Entendeu? Uma coisa assim em segunda mão. Em segundo pé, no caso. Ríamos, mas era sem vontade. Eu e Araldito. Falávamos de nós como se de amigos já falecidos. Estávamos assistindo ao nosso próprio funeral.

Assinado e reconhecido: Dito Mariano. (pg. 150)”

 

 

Pilatos – Carlos Heitor Cony*

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Pilatos capa

Capa: Divulgação

 

Trecho:

“Vi a mesinha-de-cabeceira bem ordinária, dessas de hospital. Havia um copo com água empoeirada, um pedaço de linóleo cuja ponta estava presa pela gaveta. No centro do tampo, um vidro de geleia. Geleia não. Eu conhecia aqueles vidros, eram de compota. Compota Colombo, de pêssego. Muito comum nas padarias, nos mercados: os pêssegos dourados, espremidos uns contra os outros, alagados na calda cor de ouro.

Para que me deram aquela compota? Devia ser uma compota velha, quase estragada, a calda estava escura e vermelha. As freiras – eu conseguia raciocinar com nitidez – haviam me dado aquilo de presente, eram caridosas por profissão ou temperamento, cada sujeito que aparecia na enfermaria, estropiado e doído, recebia um doce para amenizar os dias de convalescença. Por isso elas me olhavam – e olhavam para o vidro de compota.

Desejavam avisar que haviam trazido um doce para mim, talvez esperassem o meu agradecimento ou outra forma de retribuição. Ia murmurar: obrigado. Mas preferi olhar outra vez. A verdade é que não gosto de compotas, muito menos de pêssegos, que me parecem afrescalhados, sobremesa de veado.

Achei que havia ganho um pepino. Um pepino em conserva. Sim, lá estava, enorme, rodando em torno de seu eixo como um totem desgovernado, um pepino murcho. Por que haviam me dado um pepino? Talvez as freiras gostem de pepinos e tenham me dado um, em conserva, de fabricação caseira, eu percebia que a tampa de vidro não era a de origem, havia o esparadrapo fazendo um círculo em volta do bocal.” (pgs. 17-18).

 

Após ser atropelado por um ônibus, um homem tem o pênis amputado e assim começa, a partir dessa tragédia pessoal, as aventuras desse Pilatos, romance do jornalista e escritor Carlos Heitor Cony (1926), publicado em 1974.

Sobre o próprio livro, o seu nono romance, o autor chegou a dizer que era o seu preferido e quase havia desistido da literatura, pois, após o seu lançamento, foi publicar um novo romance mais de vinte anos depois, em 1995, com Quase memória. “Pilatos é a minha visão do mundo, e acho que vou morrer com ela”.

Seguindo uma ancestral tradição masculina – desde a sua descoberta como uma parte quase autônoma do homem -, o órgão sexual protagonista do romance é batizado como Herodes, nome escolhido por seu dono em homenagem a Herodes, o Grande (73 a.C – 4 a.C), Tetrarca de Jerusalém, e não ao seu filho, o ignóbil Herodes Antipas (20 a.C – 39), que governava a Galileia na época em que Jesus viveu.

O Herodes de Pilatos passará a circular pelas ruas do Rio de Janeiro, protegido por seu proprietário, dentro de uma compota de pêssego em calda, sendo quase que o tempo todo confundido com os mais variados e suculentos petiscos – salsichas, linguiças, pepinos em conserva – e, por isso, com o iminente risco de ser comido pelos mais variados tipos humanos – vagabundos famélicos, vigaristas, charlatões e donos de botecos de má fama – que cruzam o caminho de seu infeliz dono, um ex-revisor com dificuldade em reencontrar emprego e expulso da pensão onde morava por falta de pagamento durante os três meses que passou internado depois do acidente que o mutilou.

Lá pelas tantas, descobrimos que o eunuco se chama Álvaro Picadura, mas não sabemos se este é, de fato, o nome do proprietário do heroico Herodes, que passará por inúmeras aventuras (e desventuras) em sua luta pela sobrevivência e para salvar o seu querido e vulnerável “membro” das mãos de coroas virgens e aproveitadores inescrupulosos, interessados em tirar algum prazer ou algum lucro da inusitada situação.

O fato é que Cony cria um fantástico ambiente de nonsense em pleno período de ditadura militar brasileira. Em 1974, ano em que o romance foi publicado, ninguém notou uma crítica política e social ao regime militar que ainda teria mais onze anos pela frente e dois generais ocupando a presidência do País – Ernesto Geisel (1974- 1979) e João Baptista Figueiredo (1979-1985).

A certa altura, por exemplo, após uma grande confusão num restaurante, Herodes, seu dono e seu amigo Dos Passos – um vigarista, já passados dos sessenta anos, mas com um grande apetite sexual e uma imaginação fora do comum para arquitetar golpes e criar folhetins eróticos – são presos e levados para um quartel.

Encarcerados, o trio é surrado com frequência – Herodes, na verdade, é poupado do suplício, já que os guardas não reparam na sua presença – assim como seus companheiros de cela: o Grande Arquimandrita, espécie de guru megalomaníaco, que se intitula Procurador Geral do Patriarca Máximos IV, chefe da Igreja Católica Ortodoxa; um mendigo, quase senil e mudo, que recebe a alcunha de Sic Transit pelo Grande Arquimandrita (por conta da expressão latina Sic transit gloria mundi, Assim passa a glória do mundo!), que pouco faz além de tentar roubar a compota de pêssego de seu companheiro de cela para comer Herodes, a quem acredita ser uma salsicha; e Otávio, um jovem “maconhado”, preguiçoso e inerte, que passa os dias dormindo indiferente às discussões políticas – principalmente entre Dos Passos, um fascista assumido, contrário a qualquer tipo de manifestação democrática, e o Grande Arquimandrita, defensor ferrenho do regime democrático, desde que ele esteja no poder ou, pelo menos, ao lado dele -, às brigas de seus colegas de prisão e aos castigos corporais impingidos pelos guardas.

Pilatos é um dos romances mais escrachados e mordazes da moderna literatura brasileira, especialmente a escrita a partir dos anos 1960. Espécie de fábula moral, romance picaresco e peça satírica, percebemos certa semelhança na sua construção com novelas clássicas dos grandes satiristas como Cândido, de Voltaire (1694-1778), ou O nariz, de Gógol (1809-1852) – em termos de Brasil, Pilatos estilisticamente tem muita proximidade com Macunaíma, de Mário de Andrade (1893-1945), e Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antonio de Almeida (1831-1861) -, além da alta dose de escatologia.

O humor desbragado do livro parece purgar as mazelas e vícios subjacentes à história e até fazer com que o leitor esqueça que a narrativa se passa em um dos períodos mais tristes da história do Brasil. Um período em que a população vivia sob o jugo de uma ditadura que não poupava esforços para eliminar qualquer oposição.

Nesse sentido, Pilatos pode ser considerado um livro subversivo ao extremo, ao dar vazão à crítica por meio da arte e do humor, sem que seus alvos percebessem, é um trabalho atualíssimo, sobretudo se levarmos em consideração o que dele escreveu o jornalista e escritor Mário Prata, que assina a orelha da edição de 2001:

“Pilatos é a cara do Brasil. Um Brasil de 1974, dos anos 80 e de hoje. Um Brasil sem tesão, um Brasil explorado. Pilatos é a energia arrancada do corpo do brasileiro por militares, bispos e ociólogos, como diria Millôr”.

 

Pilatos

Carlos Heitor Cony

Companhia das letras

219 pgs.

 

Trecho:

“As freiras cultivavam pepinos, plantavam nos fundos do hospital, faziam conservas para uso próprio e para presentear os doentes quando tivessem alta. Mas eu não teria alta tão cedo, pelo menos enquanto estivesse com aquele enorme esparadrapo grudado no meu corpo.

Não cheguei a me assustar. A mão deslizou sobre o remendo lá embaixo. Apalpei-me e senti um vazio no justo lugar onde esperava encontrar uma resistência carnosa e inerte, uma saliência habitual e minha. Não havia nada ali. A minha mão sabia.

As freiras deixaram de olhar para a mesinha-de-cabeceira. Olhavam agora para mim, sem pena nem interesse, porém com certo estupor. Elas também sabiam. Então, só para conferir, olhei com atenção o vidro de compota; aquilo não era calda, mas álcool, sujo de sangue.

Imerso nele, boiando como um peixe sem vísceras – e cego: ele.” (pg. 18)

 

*A edição de Pilatos lida para esta resenha foi a da Companhia das letras, publicada em 2001. Atualmente a obra de Carlos Heitor Cony está sendo editada pela Alfaguara.

 

 

O clube das quintas-feiras

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A primeira vez que o vi, foi quando veio à livraria procurar Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe. Ele não sabia nada sobre o livro, além de que na época de seu lançamento, no início do século XIX, ou fim do século XVIII, havia causado uma onda de suicídios em seus infelizes e jovens leitores.

– Você já leu? me perguntou, assim que lhe entreguei a edição de bolso que pediu.

– Sim, há muito tempo… respondi, sem muita empolgação.

– E o que achou?

Falei que havia gostado do livro, o que não era verdade – tinha achado a leitura bem maçante -, mas que não lembrava muito do enredo da história, apenas que era escrito na forma de diário pelo personagem principal, Alberto, e que falava de sua paixão pela namorada do seu melhor amigo, numa espécie de triângulo amoroso platônico, o que lhe causava muitos tormentos e aflições.

Apolônio, este era o nome do cliente, um senhor de uns setenta anos, forte e lépido para a sua idade, me ouviu com interesse e, procurando saber minha opinião sobre outros livros, ficou quase uma hora conversando comigo. Despediu-se levando apenas o livro que viera buscar e deixando a pilha de livros que fui lhe oferecendo ao longo da conversa, a maioria de clássicos de bolso, em cima do terminal de consulta.

Na semana seguinte apareceu novamente. Dessa vez não me perguntou sobre nenhum livro em especial, nem mencionara se havia lido o Goethe da semana anterior – acredito que não.

– Você conhece algum livro bom que fale mal da religião? me perguntou, logo após me cumprimentar. Era uma pessoa objetiva, pouco afeita a preâmbulos.

– Livro que fale mal de religião? perguntei sem entender muito bem o que ele queria.

– É! Pode ser um desses baratinhos, de bolso.

– Ficção ou não-ficção?

– Pode ser ficção. Só queria um que mostrasse uma visão contrária à religião. Tô meio de saco cheio desse negócio de “Graças a Deus!” pra cá, “Graças a Deus!” pra lá. Agora até técnico de futebol parece que oferece vitória do time pra Deus em vez de falar que foi por causa do trabalho de equipe… não aguento isso, rapaz!

Lembrei-me de A relíquia, do Eça de Queiroz, que, por sorte, havia em edições de bolso e comecei a contar a história do personagem principal, Teodorico Raposo, o Raposão, e sua vida dupla de pândego e beato. Dos malabarismos que era obrigado a fazer para enganar a tia adotiva, Patrocínio das Neves, a Titi, para demonstrar o quanto era um carola tão ardoroso quanto ela e de como a convenceu a bancar sua peregrinação à Terra Santa para que pudesse lhe trazer uma relíquia sagrada, mas cujo verdadeiro objetivo era fazer com que Raposão esquecesse uma desilusão amorosa.

Apolônio, de olhos vidrados, parecendo ver o que lhe dizia desenrolar-se diante de si, perguntou ao final da minha narrativa:

– Você já leu muitos livros, não é?

– Sim, um pouco.

– Eu sabia. Você já leu todos esses livros aqui? perguntou, apontando as estantes.

– Não, claro que não, respondi, modesto. – Ler tudo é impossível. A gente só lê uma pequena parte e gosta de uma parte ainda menor do que lê… Mas acho este livro fantástico! Extraordinário mesmo.

– Eu preciso lhe apresentar a um amigo, disse meio enigmático.

Foi embora com o livro e, antes de ir, ainda ficou mais uma hora circulando pela loja. Não disse se voltaria, mas eu tinha certeza que isso aconteceria, só não esperava que já viesse na semana seguinte e com o tal amigo que disse que precisava me conhecer.

Quando o vi entrar na loja com o outro, um senhor de uns setenta anos como Apolônio, só que bem mais magro, que andava meio curvado, e com uma grande calva que lhe deixava uns poucos resíduos de cabelos nas laterais e na parte de trás da cabeça. O tempo tinha sido bem mais generoso com o meu cliente do que com seu amigo.

– Lourival, esse é o rapaz que lhe falei. Sabe tudo de livro, disse Apolônio, animado.

Lourival me estendeu a mão branca e ossuda e a apertou tão frouxamente que me pareceu que uma criança de quatro anos seria capaz de fazer aquele simples gesto com muito mais firmeza.

– Prazer, falei, mas, de fato, sentia tanto prazer em conhecê-lo quanto teria de conhecer um fantasma. Aliás, o próprio Apolônio já estava me incomodando um bocado, o que dirá então do seu amigo de quem sequer simpatizei à primeira vista.

Apesar de seu aspecto frágil, Lourival tinha um olhar esperto e vivaz, dando a entender que, da dupla, era ele o elemento dominante. Ao menos, foi isso o que me pareceu durante a conversa que tivemos. Apolônio era mais expansivo e falante, mas era Lourival que, mais cauteloso e introspectivo, analisava as situações, emitia os vereditos e direcionava a conversa que, mais uma vez, versou sobre livros.

Lourival também me pareceu mais lido do que Apolônio. Quer dizer, ao menos conhecia autores, livros, e os citava de cabeça, apesar de não parecer conhecê-los completamente.

– Você tem algum livro que possa me indicar ou algum autor parecido com o Kafka? Acabei de ler O castelo e gostei muito.

Não tinha, mas me lembrei de O deserto dos tártaros, de Dino Buzzati. Falei que era um livro que estava esgotado no momento, que não conseguiria nem por encomenda, mas que ele poderia encontrar em qualquer sebo. Expliquei que, para muitos, o livro era considerado uma das melhores obras escritas no século XX e que seu autor havia sido considerado uma espécie de Kafka, por trabalhar seus temas de forma alegórica.

Foi falando sobre este livro que descobri que Apolônio era um militar aposentado – chegou até o posto de sargento do Exército. Aquilo me pareceu revelador por explicar em parte algumas opiniões radicais que havia dado durante as nossas conversas.

Mais interessante que essas revelações, porém, foi ele ter me dito que havia “devorado” o livro do Eça que havia levado na semana anterior e que havia “arrebentado” de tanto rir. Havia gostado tanto d’A relíquia que pensara em me ligar para agradecer assim que o fechara, mas achou melhor esperar para fazer isso pessoalmente e aproveitar para trazer o amigo para me conhecer.

Naquela ocasião, nosso encontro foi mais curto. Lourival tinha um compromisso e não podia ficar muito tempo. Não levaram nenhum livro, mas Apolônio disse que viria na semana seguinte com mais tempo para conversarmos, o que me deixou numa aflição dos diabos, sem saber o que aquela estranha dupla queria, de verdade, comigo.

A espera pelo reencontro foi mais tormentosa. O motivo foi que o pessoal da livraria havia notado as visitas de Apolônio – uma pessoa que lhe procura três vezes seguidas e com quem você conversa durante mais de uma hora, de fato, não se pode dizer que é alguém a quem as pessoas podem deixar de notar, especialmente numa livraria cujo movimento não é dos maiores.

E, além de notar, começaram a fazer brincadeiras de mau gosto sobre o assunto, principalmente depois que o Alcides, o outro vendedor, havia ouvido Apolônio prometer que viria com mais tempo para conversarmos.

Então, durante uma semana, pelo menos três vezes tive que aguentar as gracinhas do meu colega, um grande babaca, coisas do tipo: “e aquele seu cliente veio?” ou “aquele tiozão gostou mesmo de você, né?” ou “ontem eu vi um coroa parecido com o seu cliente em tal lugar” (e o “tal lugar” era um conhecido ponto de prostituição de travestis).

Pior que nem pude dizer nada, falar o quanto aquela situação me irritava, porque estava realmente preocupado com aquilo. O incômodo de ver Apolônio aparecer às quartas-feiras – foi aí que me chamou a atenção ele sempre vir no mesmo dia da semana, certamente era um sujeito metódico – para tomar uma hora de meu tempo e me ouvir falar sobre livros.

Então, na quarta-feira, sem falta, o homem apareceu como prometido e, objetivo, foi logo fuzilando:

– O Lourival gostou muito de você, rapaz!

– Ah, foi? Tudo bem? falei, apertando a mão que me estendia. Só que, ao contrário do amigo, seu aperto era firme, forte, do tipo que pode esmagar os dedos de uma pessoa desatenta.

– Sim. Gostou muito. Ele e o pessoal me autorizaram a lhe fazer uma proposta.

– Pessoal?! Proposta?! falei, quase num grito de surpresa.

– Sim, proposta.

– Proposta de quê? E que pessoal é esse, senhor Apolônio? perguntei enquanto sentia o chão se abrir sob meus pés.

– Proposta para entrar para o nosso clube, disse ele, com um sorriso malicioso.

Respirei fundo, olhei ao redor para ver se alguém nos observava – não havia ninguém por perto, apenas uma cliente olhava a mesa de gastronomia e o Alcides, no fundo, se entretinha com uma lista de devolução – e falei de forma pausada, tentando me acalmar:

– Que clube, senhor Apolinário? Que pessoal?

Ele sorriu novamente, olhou em torno como eu fizera, e respondeu:

– Não posso falar deles aqui, agora. Você precisa se encontrar com a gente, comigo, com o Lourival e uns amigos, amanhã, pra falarmos dele pessoalmente.

Quase sem forças, mas louco de vontade de partir para cima daquele velho idiota, insisti:

– O senhor está brincando, né? Que… clube… é… esse? Diga… por favor.

– Não posso, rapaz. É sério – disse ele, desta vez, quase em tom de desculpa. – Amanhã é sua folga, não é?

Confirmei balançando a cabeça como um autômato, lembrando vagamente que, em alguma das nossas conversas, devo ter lhe dito que folgava às quintas-feiras e ele, como sujeito metódico que era, deve ter guardado a informação.

– Então, amanhã, às sete da noite, vá até este endereço – disse, me entregando um papel. – A gente estará esperando você lá e falaremos sobre o clube.

Olhei para o fundo da loja e vi que o Alcides nos observava.

– Vá até lá. Você não vai se arrepender, disse, depois saiu.

Confesso que pensei muito se devia ou não ir até ao tal clube. Aquela estória estava realmente me dando nos nervos e Apolônio, há muito, havia ultrapassado o limite da conveniência com suas visitas à loja. Na verdade, eu estava decidido a não comparecer ao encontro, mas, pouco antes do horário marcado, mudei de ideia. O endereço não era muito longe de casa, o que facilitou a minha decisão de ir até lá na última hora e descobrir do que, de fato, se tratava aquela bobagem de clube para o qual havia sido convidado.

O endereço ficava numa rua pequena e meio morta, que começava numa avenida movimentada e terminava numa rua paralela, cerca de duzentos metros adiante. Era uma casinha azul, antiga, de muro baixo, com cerca de um metro de altura, e que, pela aparência, remetia há tempos bem mais tranquilos do que os atuais. Sob um precário toldo preto de metal, descansava um fusca branco bem conservado, que aumentava ainda mais a minha sensação de que aquela rua devia ter parado uns trinta anos ou mais no tempo.

Não havia qualquer campainha à vista, bati palmas e, para minha surpresa, quem veio atender foi uma senhora de uns sessenta e poucos anos, bem vestida, numa camisa de estampa florida e uma calça marrom escura.

– Sim, pois não…

– Ah… olá! Me deram este endereço… hesitei, considerando que poderia ter me enganado.

– Sim!

– Não sei se estou certo, mas é aqui que mora o Apolônio?

– Ah, não, mas ele está chegando, disse a mulher abrindo um sorriso. – Você é o rapaz da livraria, né?!

– Isso!

– Ele me disse que você viria. Pode entrar, por favor.

Chamava-se Irene e era amiga do militar aposentado. Lourival já estava na casa, que parecia até mais espaçosa por dentro do que dava a impressão de fora, e, a muito custo, tentou me fazer ficar mais à vontade em meio aquela gente estranha.

Na verdade, além dele e da dona da casa, havia mais um casal, Aguiar e Amália, que beirava os oitenta anos, e que apenas balançavam a cabeça, assentindo ou não com algo, quando Irene lhes fazia alguma pergunta. Lourival não lhes dava qualquer atenção, parecia ter acabado de conhecê-los também.

Ficamos na sala, onde havia uma ampla mesa de centro, com vinho e canapés que me ajudaram a ficar mais relaxado, e dois sofás grandes. Apolônio apareceu quinze minutos depois da minha chegada e, como de hábito, louvou meus conhecimentos literários, pedindo para que eu falasse sobre alguns lançamentos literários que havia gostado.

Lourival aproveitou para dizer que havia comprado O deserto dos tártaros num sebo do centro, mas ainda não havia começado a ler por falta de tempo. Descobri que era contador e que estava muito sobrecarregado com as declarações de imposto de renda dos clientes.

Ao final da noite, a anfitriã, muito simpática, me fez jurar que voltaria na semana seguinte para falar sobre mais “livros maravilhosos”.

– Não é todo dia que temos a oportunidade de ter uma aula como a que você nos deu, arrematou.

Lisonjeado, prometi que certamente voltaria, pois a noite havia sido bastante agradável. Fui realmente sincero, já que até o Lourival, para minha surpresa, se mostrou um sujeito bastante divertido depois do terceiro ou quarto copo de vinho.

Com o tempo e a maior intimidade que adquirimos, além de um pouco de habilidade da minha parte, pedi para Apolônio não aparecer mais no trabalho. Disse ao “meu cliente” que estava sendo desconfortável ter de explicar às pessoas por que ele ficava tanto tempo conversando comigo sendo que não comprava quase nada – não queria falar a ninguém sobre o clube. Ele não gostou muito, mas acabou aceitando diminuir as idas à livraria, pois continuaríamos a nos encontrar às quintas-feiras.

Da minha primeira visita até agora, quase seis meses depois, o número de frequentadores do clube só fez aumentar. Além dos quatro daquele dia, agora há mais cinco fixos e três esporádicos – todos senhores e senhoras ávidos por descrições e opiniões sobre livros que nunca vão ler ou que nunca sequer ouviram falar -, com grandes chances de aumentar ainda mais pela propaganda que eles próprios fazem do clube e isso me faz ter grandes planos.

Acredito que poderei deixar a livraria, me dedicando exclusivamente ao meu mestrado, quando o clube chegar a quinze sócios fixos, mais uns sete esporádicos. Até lá, talvez, tenhamos de encontrar outro local de encontro, já que a casa da Irene não está preparada para receber tanta gente.

Depois de saber quanto eu ganhava no meu emprego, Apolônio, por iniciativa própria, mas contra a minha vontade, propôs aos sócios uma “ajuda de custo” para que eu continuasse indo, todas as quintas, falar sobre livros.

– Rapaz, você tem um grande talento! Não pode desperdiçá-lo num lugar que não lhe dá o menor valor, diz meu novo amigo, assim que coloca discretamente o dinheiro no bolso da minha camisa, todas às vezes que nos despedimos com um fraternal abraço.

Quanto a isso, não há duvida: ele tem toda razão.