O tango da velha guarda – Arturo Pérez-Reverte*

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capa O tango da velha guarda

Capa: Divulgação

Trechos:

 

“- Um amigo meu dizia que existem tangos para sofrer e tangos para matar. Os originais eram do segundo tipo.

Mecha Inzunza havia apoiado um cotovelo na mesa e o rosto ovalado na palma da mão. Parecia ouvir com extrema atenção.

– Alguns o chamam de Tango da Velha Guarda… – disse Max. – Para diferenciá-lo do novo. Do moderno.

– Belo nome – comentou o marido. – De onde vem?

Seu rosto não estava mais inexpressivo. Outra vez a expressão amável, de anfitrião atencioso. Max balançou as mãos como se quisesse salientar uma obviedade.

– Não sei. Um antigo tango se chamava assim: ‘La Guardia Vieja…’ Não saberia lhes dizer.

– E continua… obsceno? – perguntou ela.

Um tom opaco, o de Mecha Inzunza. Quase científico. O de uma entomologista perguntando, por exemplo, se era obscena a cópula de dois escaravelhos. Supondo, concluiu Max, que os escaravelhos copulassem. Que, certamente, sim.

– Dependendo do lugar – confirmou.

Armando de Troeye parecia encantado com tudo aquilo.

– O que está contando é fascinante – disse. – Muito mais do que imagina. E altera algumas ideias que eu tinha na cabeça. Gostaria de presenciar isso… Vê-lo em seu ambiente.

Max fez uma careta, evasivo.

– Não é tocado em locais recomendáveis, naturalmente. Não que eu saiba.

– Conhece lugares assim em Buenos Aires?

– Conheço alguns. Mas não se pode dizer que sejam adequados. – Olhou para Mecha Inzunza. – São lugares perigosos… Impróprios para uma senhora.

– Não se inquiete com isso – disse ela com muita frieza e muita calma. – Já estivemos em lugares impróprios.” (pgs. 60 – 61)

 

Aventura, amor, traição, personagens complexos e fascinantes e um intrincado enredo que perpassa quase quarenta anos da História do século XX. Tais características seriam um belo resumo para uma novela de sucesso do horário nobre, mas aliadas à grande sofisticação e à ambição literária tornam-se um extraordnário romance, o que, de fato, é O tango da velha guarda, do espanhol Arturo Pérez-Reverte.

O livro se inicia em 1928, com o embarque do compositor de tango Armando de Troeye, espanhol de 43 anos, para Buenos Aires, no transatlântico Cap Polônio, em busca de material para novas composições e o desejo de conhecer a fundo o gênero que lhe deu sucesso e notoriedade na Europa, apesar do quase completo desconhecimento do tango e do papel dele dentro da cultura argentina.

De Troeye é um bon-vivánt que, por um golpe de sorte, alcançou o sucesso, se inebriou com ele, e tem dificuldades em abandonar a vida de prazer e luxo extremos a que se acostumou ao lado de sua jovem esposa, Mecha Inzunza, mulher belíssima e sedutora.

Já a bordo do Cap Polônio, o casal conhece Max Costa, jovem dançarino de tango, contratado pelo navio para entreter as mulheres, sejam elas jovens inocentes ou senhoras elegantes e finas, que tenham algum interesse em aprender a dançar. Nascido em Buenos Aires, onde viveu até o início da adolescência antes de perambular por parte da Europa e norte da África como legionário, Max é um arrivista sedutor que coleciona suveniers caros de seus casos (vítimas) e, depois de algum tempo, se desfaz deles para, com o dinheiro conseguido, incrementar o vestuário e mudar de endereço, principalmente de cidade, uma vez que seu verdadeiro trabalho sempre ocasiona problemas com a polícia.

A atração do casal por Max e deste para Armando e Mecha é imediata. De Troeye tem a chance de conhecer os antros mais sombrios de Buenos Aires onde, segundo o dançarino, ainda é praticado o famoso “tango da velha guarda”, espécie de dança primitiva, ainda mais dramática e sensual que a praticada em lugares socialmente aceitáveis.

Max, por sua vez, tem a chance de tirar um bom dinheiro do casal, de uma forma lícita, e, pela gratidão que teriam para com ele, ainda ter abertas as portas de um mundo em que circula clandestinamente, à margem, quase como uma pária, para depois se refugiar em buracos indignos de um sujeito com seus modos, educação e inteligência.

Mas Mecha, uma espécie de mulher-enigma, digna representante das Capitus literárias, tem outros planos que são seguir a risca o que o marido lhe pede para fazer e lhe dar o máximo de prazer possível em qualquer que seja a situação. Ela será o pivô da frustração dos planos de Max, que acaba se apaixonando e contrariando o que reza sua cartilha.

Depois de dez anos, Max reencontra Mecha, em Nice, na França.  A Europa está em polvorosa com vários países centrais sob regimes ditatoriais – Alemanha, Itália, União Soviética -, e a sangrenta Guerra Civil na Espanha é só o início do que virá no ano seguinte. Graças à tensa situação do continente, e também à fama alcançada no submundo europeu, Max é contratado por dois italianos para fazer um serviço na casa da milionária Suzi Ferriol.

Durante uma recepção na casa da milionária, onde consegue entrar como convidado de uma nobre russa vigarista, Max encontra Mecha sem Armando, que, por problemas políticos, por ter se postado contra o governo de Franco, polemizando em jornais e em suas aparições públicas, permanece preso e incomunicável na Espanha.

Desconfiada das intenções do ex-dançarino, Mecha exige saber o que o levou até a casa da amiga, caso contrário, ameaça desmascará-lo em pleno jantar, o que ocasiona mais um contratempo na missão já difícil de ser executada e, pior, ainda terá que lidar com a lembrança das feridas abertas há dez anos.

Enquanto o relato de Buenos Aires será feito na primeira parte do livro, os acontecimentos de Nice ficam na segunda parte e, entre ambos, há uma terceira narrativa, que atravessa todo o romance, e fechará a história e o destino de Max e Mecha: um torneio de xadrez em Sorrento, Itália, em 1966, que antecipa o torneio mundial, entre o atual campeão, o russo Mikhail Sokolov e o canadense, Jorge Keller.

Keller é um promissor jogador de 28 anos e é filho de Mecha Inzunza com um diplomata canadense que ela conheceu na França. Acompanha o filho desde criança em todos os torneios e é figura fácil do séquito do rapaz, o que leva Max, agora trabalhando como chofer de um médico suiço, a reconhecê-la numa transmissão de televisão e ir ao seu encontro.

Max está com 64 anos e, apesar dos anos, ainda mantém a elegância e o charme da juventude, apesar da disposição não ser mais a mesma; Mecha, três anos mais nova, parece ter mudado mais com o tempo, mas a dedicação integral ao filho também lhe consumiu muito da energia e da beleza de outrora.

O que parece não ter mudado durante os anos são a atração explosiva que um sente pelo outro e o gosto pelo risco e o perigo. Além do tango, o xadrez também é um ingrediente importante na trama, já que com o declínio físico os personagens precisam dispor de estratégias – astúcia, sagacidade –  para alcançar seus objetivos, principlemente Max, que, desafiado por Mecha, terá que provar que não se fazem muitos homens como ele, neste ou em qualquer outro tempo.

Pérez-Reverte dedicou vinte e dois anos para escrever O tango da velha guarda e parece ter acertado em cheio ao esperar tanto tempo para dar vida ao seu carismático casal de “sem-vergonhas”, e construir um romance como pouco se vê hoje em dia, com um estilo que agrada tanto aos fãs de um bom folhetim como os de alta literatura. Grande leitura.

 

O tango da velha guarda

Arturo Pérez-Reverte

Record

Tradução: Luís Carlos Cabral

392 pgs.

 

*Esta resenha foi publicada pela primeira vez em 2013, no blog O Espanador, e revista para nova publicação.

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Reflexões noturnas

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Ele continua gritando:

– B…!B…!

Não me deixa dormir e, no entanto, não consigo descer para dar-lhe uns safanões ou mesmo gritar do alto da janela e mandá-lo procurar o caminho de casa, de um modo mais agressivo e contundente, nem sequer ameaçá-lo dizendo que vou chamar a polícia.

Qualquer coisa que eu fizer não irá adiantar, pois ele continuará gritando. Pode até parar por alguns minutos, e talvez ir embora, mas depois – amanhã mesmo – estará de volta e ainda mais alucinado.

Sei que seus insultos não são para mim, nem sabe que existo, só que me incomodam profundamente. Se soubesse que estou tentando dormir, porque tenho que trabalhar cedo, ele poderia parar de gritar.

Todos respeitam um trabalhador e acredito que até esta pessoa, por mais indigna e revoltante que seja a sua situação, deve saber como é difícil levantar cedo para conseguir uns trocados para sobreviver, pois imagino que um dia este homem – se é que posso chamá-lo assim, pelo menos agora – teve família.

Família, aliás, que não tenho – graças a Deus! – e que nunca foi problema para mim, já que sempre soube que a melhor maneira de conseguir “alguma coisa na vida” é trabalhando. Desde os catorze anos trabalho e, se não sobrou tempo para estudar ou constituir família, posso afirmar, com orgulho, que os poucos bens que consegui foram através do suor do meu rosto.

Claro que não é muito. Até gostaria de ter um filho, embora não me agrade a ideia de casamento. Não sou estúpido para ainda acreditar que essas duas coisas permaneçam interligadas. Encontrar alguém que se importe com você – nem digo amar – não é fácil, principalmente quando não pode lhe oferecer nada além de honestidade, sinceridade e dedicação.

Se fosse casado neste momento, talvez minha mulher já tivesse me mandado dar um jeito nesse sujeito. Ainda tenho uma vantagem sobre os outros: não sou obrigado a fazer nada que não queira, pelo menos não em casa.

Na verdade, nem no trabalho! Lá é diferente. Faço o que meu chefe pede, sim, porque ele não manda em ninguém. Falando sério, imagino que até o cachorro da casa dele não o obedece. Sei disso porque um colega de serviço, que é seu vizinho, me contou. Ele é, como se costuma dizer, um perfeito banana! Aqui, digo, no escritório, posa de chefe, de líder e em casa é um fracasso. Palhaço! Mas, nas horas vagas, nos vingamos. É só o careca virar as costas que começamos a debochar dele, imitá-lo. Aquela cara de nazista; o bigodinho ridículo, a voz esganiçada de adolescente. Que sujeito horroroso! Só não gosto quando o pessoal começa a falar que eu o bajulo e me chama de puxa-saco.

– Faço apenas o meu trabalho – é o que respondo, me controlando para não demonstrar minha irritação.

– B…!B…!

Faz mais de duas horas que essa pessoa está gritando. Parece que não vai parar nunca. Daqui a pouco ele dorme, são três horas! Mas por que dormiria?! Não é obrigado a acordar cedo, bater o ponto, ser motivo de piada dos colegas, receber um salário de fome, às vezes, ser humilhado, ouvir aquelas baboseiras de ‘colaboradores pra cá, colaboradores pra lá’, como se todos trabalhassem voluntariamente, irmanados num único objetivo, e eles realmente se importassem conosco, com a nossa saúde física ou mental, por exemplo, e não com os lucros exorbitantes que alcançam a cada dia.

Está bêbado e qualquer carro que passa é motivo para voltar a xingar. Vou ter que tomar alguma providência. Acho que vou descer. Talvez seja a única coisa que o faça parar. É isso, vou descer.

 

***

 

Ouviu meus passos na escada e parou.

Ficou com medo, tenho certeza. Quantas vezes não deve ter sido enxotado da porta de outras casas? Quantas vezes já não lhe bateram simplesmente por farra? Quantos sacos de urina não lhe atiraram? Quantas vezes não tentaram lhe atear fogo? Parou porque pensou que fosse acontecer novamente.

Eu poderia muito bem ter feito qualquer uma dessas coisas – ninguém veria – e talvez fizesse bem ao meu ego. Entretanto, antes de chegar à metade dos trinta degraus que separam a rua daqui de onde estou, ele me ouviu, pois a noite está tranquila, com exceção dos seus gritos que não me deixam em paz.

Poderia bater-lhe, chutá-lo, apedrejá-lo, enfim, massacrá-lo, mas não consigo sequer encará-lo, nem lhe dirigir a palavra daqui de cima, da minha própria casa, onde estou protegido. Posso matá-lo e acabar de vez com esta situação estúpida. Afinal, é só um andarilho, um mendigo, um coitado, um pobre-diabo, um nada.

A esta hora da madrugada ninguém me veria e poderia lhe dar, no mínimo, umas pauladas para aprender a não incomodar uma pessoa honesta e digna como eu. Não seria punido, talvez até me elogiassem. É verdade! Todos se colocariam no meu lugar e me dariam razão. Se o matasse não seria condenado. Sou um trabalhador, alegaria que não me deixou dormir e, quando pedi que parasse com os palavrões, tentou me agredir.

– Legítima defesa, sabe, doutor?

Diante da argumentação e das evidências uma condenação seria absurda. Mas não vou precisar fazer nada. Parou de gritar. Sabia que não seria necessário mandá-lo parar.

Ouço passos. Está indo embora. Posso ouvir o barulho do saco de bugigangas balançando… sim, sim, está indo embora… mas são quase quatro horas da manhã!… para onde será que vai?

Deve ser um demente. Perdeu o cérebro curtido em álcool. Ninguém irá importuná-lo. Apenas rirão dele – mas isso já fazem com todos: homem, mulher, trabalhador, vagabundo, mendigo, louco, ninguém está a salvo da grande piada em que transformaram as nossas vidas. Não me importo. Sei apenas que não conseguirei dormir.

Será que ele volta? Talvez… vou esperá-lo!

Ainda tinha tantas coisas a dizer, mas sem a sua presença é impossível. Ficarei esperando a sua volta, só por hoje…

A fazenda africana – Izak Dinesen/Karen Blixen

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Trecho:

“Os nativos, que tem uma forte sensibilidade rítmica, não conhecem nada a respeito de versos, ou pelo menos nada conheciam antes do tempo das escolas, quando lhes foram ensinados hinos. Uma noite, no milharal, onde estávamos fazendo a colheita, arrancando as espigas e atirando-as para dentro dos carros de boi, para divertir-me, falei com os trabalhadores do campo, que eram em sua maioria bastante jovens, em versos suaílis. Não havia sentido nos versos, eles foram feitos para efeito de rima:

 

‘Ngumbe
Na penda chumbe
Malaya
Mbaia
Wakamba
Na kula mamba’.

 

Significando o seguinte: ‘Os bois gostam de sal. Prostitutas são más. Os wakambas comem cobras’. Chamou a atenção dos rapazes, que formaram um círculo ao meu redor. Rapidamente compreenderam que o significado da poesia é secundário, e não questionaram, portanto, a tese dos versos, mas esperavam ansiosamente pela rima, e riam muito quando completada. Tentei fazer com que eles mesmos encontrassem a rima e terminassem o poema que eu havia iniciado, mas eles não conseguiam ou não queriam fazê-lo, virando as cabeças para o outro lado. Quando se acostumaram com a ideia da poesia, costumavam pedir-me: ‘Fale de novo. Fale como quem chove’. Porque achavam que os versos soavam como chuva nunca cheguei a descobrir. Deve ter sido, entretanto, uma expressão de aplauso, uma vez que na África a chuva é sempre saudada como o melhor dos acontecimentos.” (Os nativos e a poesia)

 

A dinamarquesa Karen Blixen Finecke (1885-1962) teve uma vida peculiar e que marcou profundamente sua trajetória literária igualmente original. Filha de uma família aristocrática dinamarquesa teve uma educação severa e passou por experiências traumáticas na infância, como o suicídio do pai, Whihelm Dinesen, um oficial do exército de seu país, antes de se casar com um primo, o Barão von Blixen, e se mudar para o Quênia, em 1914, onde o marido tinha uma fazenda.

O casamento não durou muito, devido às inúmeras traições do Barão, mas Karen recebeu de herança do marido a propriedade onde moravam e decidiu administrá-la sozinha, permanecendo no local durante dezessete anos, antes de retornar para a Europa e iniciar uma carreira literária de sucesso.

Em A fazenda africana (Out of Africa), publicado em 1938, seu livro de maior sucesso, a autora relembra o período em que vivia na região das montanhas Ngong, na região mais alta da África, onde estão localizados os montes Quênia e o Kilimanjaro.

O livro começa com uma descrição da região e dos fortes laços que a autora criou com os nativos, que, em dado momento, compara com o amor que seu pai revelara por seus soldados em uma carta:

“O amor à guerra é uma paixão como outra qualquer, amam-se os soldados como se amariam jovens donzelas – ao ponto da loucura, e um amor não exclui o outro, como bem o sabem as moças. Mas o amor à mulher só pode incluir uma de cada vez, enquanto o amor pelos soldados compreende o regimento inteiro, que se gostaria de ver ampliado sempre que possível”.

Apenas pelo trecho, apesar de emprestado do pai, escrito muitos anos antes, se percebe o impacto sofrido pela mulher europeia diante de uma vida totalmente livre, quase selvagem, no coração da África. O embate entre as culturas e as condições de vida europeias e africanas, talvez seja o que mais encanta o leitor, que é arrastado para um relato rico em imagens e emoções, conduzido de forma admirável pela autora.

Com suas descrições minuciosas, não apenas das magníficas paisagens, mas também dos tipos humanos que habitavam a região, Blixen faz de A fazenda africana um livro raro em sua temática, que une tanto de encontro de culturas diversas quanto uma beleza natural inigualável.

Desde os relatos dos nativos africanos – como os kikuyus, massais e os somalis, que viviam em permanente estado de tensão devido às suas rixas ancestrais -, até as estórias dos imigrantes europeus, árabes e indianos – neste caso, a maioria, funcionários do governo colonial inglês – a autora se mostra uma sensível observadora social do caldo cultural formado na região. Ainda há espaço para as religiões – catolicismo, islamismo e cultos nativos – que, se não convivem em total harmonia, ao menos não são os motivos de maiores desavenças e disputas.

Os relatos da vida selvagem, como expedições e safáris, têm uma participação importante no livro e pode causar espanto para leitores contemporâneos. Em alguns casos, chega a ser chocante a crueza como certos fatos são narrados: um exemplo é quando Blixen e seu amigo, o piloto inglês Denys Finch-Hatton, abatem dois leões que vinham apavorando os moradores da fazenda e matando o gado.

Interessante notar que uma das melhores partes do livro – que é dividido em cinco -, a quarta, intitulada Do caderno de notas de uma imigrante (ver trechos), é formada por textos curtos, com não mais do que três páginas, alguns com poucas linhas, que tratam de situações cotidianas ou estórias que a autora teria ouvido de nativos ou imigrantes e viajantes europeus com quem conviveu na África.

As estórias, que variam entre a crônica, a fábula, a parábola e a anedota, são primorosas joias de beleza e sabedoria; algumas são divertidas e emocionantes, realçando o aspecto de uma grande e transformadora experiência humana que é o mergulho numa cultura ancestral.

Após retornar para a Europa em 1931, Blixen tornou-se uma escritora reconhecida, que publicou outros livros de sucesso como Sete contos góticos (1934), sendo inclusive cotada para receber o Prêmio Nobel, por sua originalidade estilística e temática. A autora faleceu em 1962, aos setenta e sete anos, em Rungstedlum, litoral da Dinamarca, curiosamente, na mesma propriedade em que nasceu.

 

P.S: A edição de A fazenda africana lida para esta resenha foi publicada pelo Círculo do livro, em meados dos anos oitenta, e saiu como sendo de autoria de Isak Dinesen, pseudônimo masculino utilizado pela autora com o sobrenome do pai. A última edição do livro no Brasil foi publicada pela Cosac Naify em 2005 e encontra-se esgotada. A fazenda africana teve uma adaptação cinematográfica em 1985, dirigida por Sydney Pollack, com Meryl Streep, como Blixen, e Robert Redfod, no papel de Denys Fynch-Hatton. No Brasil, o título original do filme Out of Africa foi traduzido para Entre dois amores.

 

A fazenda africana

Izak Dinesen (Karen Blixen)

Tradução: Per Johns

337 pgs.

Trecho:

“É uma coisa estranha o que fizemos com os bois. O touro está num constante estágio de fúria, revirando os olhos, pateando a terra, irritando-se com tudo o que penetra no âmbito de sua visão, ainda assim tem uma vida própria, o fogo é expelido de suas narinas e novas vidas saem de seus músculos; seus dias estão plenos de necessidades e satisfações vitais. Tudo isso nós sonegamos aos bois e em troca ainda exigimos sua existência para o nosso proveito. Os bois caminham dentro de nossa própria vida cotidiana, arrastando coisas, como criaturas destituídas de vida, coisas confeccionadas para nosso uso. Eles têm olhos de cor violeta, úmidos, límpidos; seus músculos são suaves e as orelhas, sedosas; são criaturas pacientes e opacas em todos os sentidos. Às vezes, dão a impressão de estarem pensando nas coisas.

Houve uma época em que existia uma lei que obrigava todos os carros de boi que transitavam nos caminhos a terem um freio, e os carreteiros eram obrigados a brecar seus carros nas íngremes descidas dos morros. Mas a lei não era cumprida. Metade dos carros não tinham freios e nos outros os freios só raramente eram acionados. Isso fazia com que as descidas se tornassem terrivelmente penosas para os bois. Eles seguravam os carros carregados com o próprio corpo, jogando – na agonia do esforço – as cabeças para trás, até que os chifres tocavam o espinhaço de seus costados e as partes laterais dos corpos inchavam, parecendo dois escaravelhos. Muitas vezes observei os carros dos mercadores de lenha quando se esgueiravam ao longo da estrada de Ngong, dirigindo-se a Nairóbi, um atrás do outro, como uma grande lagarta, subitamente ganhando velocidade na descida do morro da reserva florestal, com os bois ziguezagueando violentamente na frente dos carros. Igualmente, vi bois tropeçando e caindo sob o peso do carro no fundo do morro.
Os bois pensavam: ‘Assim é a vida e as condições do mundo. São duras, duríssimas. Toda essa carga tem de ser sofrida – não ha outra saída. É terrivelmente difícil descer o morro com os carros, é uma questão de vida ou morte. Não há outro jeito’.
Se os indianos gordos de Nairóbi, proprietários dos carros, se dispusessem a pagar as duas rúpias para pôr o freio em ordem, ou se o preguiçoso carreteiro nativo sentado no topo da carga se dignasse a saltar fixando o freio, caso existisse, então se poderia ter melhorado a sorte dos bois, permitindo-lhes caminhar calmamente morro abaixo. Mas os bois não sabiam disso e prosseguiam, dia após dia, em sua luta heroica e desesperada com as condições de vida.” (Os bois)

 

Suicidas – Raphael Montes

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Capa Suicidas

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Trecho:

“Naquela época, a casa não era tão importante para mim. Eu corria pelos corredores perseguido por uma infeliz que ganhava um salário mínimo. Depois, chorava porque queria brincar no parquinho, e então chorava porque tinha brigado com Zak. Acho que minha infância pode ser resumida em choro. Não de tristeza, mas de pirraça. Eu chorava e conseguia o que queria. Era feliz daquele jeito.

Só a partir dos três anos a arquitetura do lugar começou a fazer sentido para mim, como um mapa se formando em minha mente infantil. A grande porteira de ferro já gasta. O caminho de terra até o casarão. O parquinho com balanços e gangorra onde eu me divertia com Zak. O tímido jardim na entrada, fazendo frente à convidativa varanda. E, na parte de dentro, uma infinidade de quartos, banheiros, cozinhas, salões… Daria para vinte famílias morarem ali. Mas não, Cyrille’s House era apenas a casa de campo para a família Vasconcellos receber os amigos nas férias de julho.

É interessante perceber como o tempo passa. Aos nove, eu e Zak curtíamos soltar pipa, jogar videogame, bater uma bola no campo dos fundos. Com os anos, Zak se tornou o exemplo perfeito de filhinho de papai criado na zona sul carioca: malhado, com roupa de marca, carro do ano (uma Hilux prata de dar inveja), garanhão entre meninas na faculdade. Já eu… Virei o nerd do grupo, que gosta de escrever, curte cinema nacional e acha Machado de Assis um gênio da literatura brasileira. O estranho é que continuamos amigos. Não importa quanto o destino cisme em romper o tênue fio que nos une, os laços da infância não se desfazem.

Hoje é a primeira vez que pisaremos em Cyrille’s House sem nossos pais. Também não poderia ser diferente. Não estamos indo para brincar no balanço ou nadar na piscina enquanto nossas mães conversam sobre a última moda em Paris. Dessa vez, vamos por algo muito mais sério. Nós decidimos nos matar.”  (pgs. 10-11)

 

Nove jovens se reúnem no porão de uma casa de campo no interior de Minas Gerais para fazerem uma roleta-russa. A regra do jogo é: são nove balas e o último sobrevivente pode escolher entre desistir de se matar ou seguir o caminho dos outros. A partir desse mote macabro é que se constrói a narrativa de Suicidas, livro de estreia de Raphael Montes, publicado originalmente em 2012, pela editora Benvirá, quando o autor tinha vinte e dois anos – terminou de escrever o livro aos dezenove.

Além da pouca idade do autor quando da publicação do romance, chama a atenção do leitor a sofisticação da narrativa que é feita em três planos: o primeiro, o áudio de uma reunião entre a delegada do caso, Diana Guimarães, e as mães dos jovens suicidas após o encontro das anotações de Alessandro, estudante de direito de vinte anos, um dos suicidas, uma espécie de livro, escrito em tempo real sobre os acontecimentos do porão enquanto ocorria a roleta-russa – a reunião teria acontecido um ano após o episódio; o segundo plano, as próprias anotações do livro, lidas pela delegada durante a reunião e, por último, as anotações de Alessandro encontradas logo após a roleta-russa esclarecendo acontecimentos que antecederam o episódio: uma espécie de diário que descreve também todos os personagens envolvidos na carnificina, sob o ponto de vista de Alê, e que joga luz sobre os motivos que teriam levado cada um deles a querer acabar com a própria vida.

Tudo leva a crer, pelas investigações anteriormente realizadas e pelo relato escrito por Alessandro, que a ideia para o suicídio coletivo partiu de Zak, amigo de infância e colega de faculdade de Alê, pois a casa onde ocorreu o fato pertencia à família de Zak e a perda traumática dos pais, num acidente de carro, ocorrido uma semana antes, teria fragilizado ainda mais o rapaz, já emocionalmente instável.

No entanto, a cada novo capítulo, sempre avançando nos três planos do romance, a narrativa criada por Raphael Montes traz uma surpresa e um fato novo surge para causar uma dúvida em relação ao desfecho e aos papéis exercidos por cada personagem na história, como num clássico romance investigativo, ao melhor estilo Agatha Christie (1890-1976) e Arthur Conan Doyle (1859-1930).

Não que não haja problemas em Suicidas; talvez, por questão lógica, o principal deles seja crer que alguém fosse capaz de ficar indiferente a um jogo de roleta-russa, sendo inclusive um de seus participantes, a ponto de escrever um relato em tempo real de tudo o que acontece num porão onde nove pessoas estão prestes a se matar, mas impressiona a forma como Montes articula o três planos da história em seu livro de estreia sendo tão jovem.

Outro fato que conta a favor do autor é a forma como consegue fazer uma boa história. Apesar de ser um pouco cansativo e repetitivo, especialmente nas passagens da reunião entre a delegada e as mães, trabalhando bem com clichês de personagens estereotipados – a maioria das mães e alguns dos participantes do suicídio coletivo não passam de máscaras de um perfil muito comum da classe-média brasileira, enquanto outros, inseridos na narrativa, denotam certos papéis padrões de romances policiais -, mas os personagens principais, Alessandro e Zak, são bem construídos psicologicamente, e, no geral, o livro consegue manter o interesse do leitor até o fim de suas mais de quatrocentas páginas.

Não por acaso, hoje, aos vinte e sete anos, Raphael Montes tem sido apontado como o novo grande autor de romances policiais nacionais, com a venda do direito de seus livros já negociados para o cinema e para o teatro e começando a ser traduzido em outros países. Prenuncio que, por algum tempo, ainda deve-se ouvir falar muito dele.

Suicidas

Raphael Montes

Companhia das letras

432 pgs.

 

 

As coisas que perdemos no fogo – Mariana Enriquez

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Capa As coisas que perdemos no fogo

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Trecho:

“A cerimônia foi ao entardecer. Silvina usou a função vídeo de uma câmera fotográfica: os telefones estavam proibidos e ela não tinha uma câmera melhor, também não queria comprar uma, porque eram rastreadas. Filmou tudo: as mulheres preparando a pira, com enormes galhos secos das árvores do campo, o fogo alimentado com jornais e gasolina até alcançar mais de um metro de altura. Estavam campo adentro – um arvoredo e a casa ocultavam a cerimônia da estrada. O outro caminho, à direita, ficava distante demais. Não havia vizinhos nem peões. Não mais, àquela hora. Quando caiu o sol, a mulher escolhida caminhou para o fogo. Lentamente. Silvina pensou que a garota ia se arrepender, porque chorava. Tinha escolhido uma canção para sua cerimônia, que as demais – umas dez, poucas – cantavam: ‘Aí vai teu corpo ao fogo, aí vai/ Consome-o logo, acaba com ele sem o tocar.’ Mas a mulher não se arrependeu. Entrou no fogo como se numa piscina de natação, mergulhou, disposta a submergir: não havia dúvida de que o fazia por vontade própria; uma vontade supersticiosa ou incitada, mas própria. Ardeu apenas por vinte segundos. Cumprindo esse prazo, duas mulheres protegidas por amianto a tiraram das chamas e a levaram às pressas ao hospital clandestino. Silvina interrompeu a filmagem antes que fosse possível ver o edifício.”  (As coisas que perdemos no fogo)

 

Em As coisas que perdemos no fogo, da argentina Mariana Enriquez (1973), logo no início, nota-se a presença do absurdo e do surreal nos contos da coletânea.  Mas, no fundo, também se percebe que as narrativas guardam uma incômoda proximidade com a realidade. Talvez resida nessa ambivalência entre o real e o irreal dentro da ficção, que dificulta o discernimento dos personagens e até do próprio leitor, o principal trunfo do livro.

Há, sim, um quê de sobrenatural que perpassa algumas histórias, cuja origem pode ser um desequilíbrio mental ou emocional de algum personagem, causado por uma situação-limite conflituosa, mas, independentemente do que seja, realidade ou alucinação, o fato é que coisas estranhas – muito estranhas – sempre acontecem nos contos de As coisas que perdemos no fogo.

Tudo pode ser explicado logicamente, por uma depressão ocasionada por uma demissão e a deterioração natural de um casamento – como no caso de Paula, a assistente social narradora de O quintal do vizinho -, ou por um trabalho exaustivo e algo sinistro, que absorve as forças do indivíduo, atuando sobre uma mente impressionável, como no caso de Pablo, o guia turístico que passa a ser perseguido pelo fantasma de um serial killer de crianças que vivia em Buenos Aires no início do século XX (Pablito clavó um clavito: uma evocação do Baixinho Orelhudo).

E, por incrível que pareça, ainda é possível que uma explicação supersticiosa, mística ou paranormal ainda seja preferível a qualquer tipo de tentativa de racionalizar o entendimento de certas situações que ultrapassam nossa compreensão – como em O menino sujo, que abre a coletânea.

Desde as histórias com temas mais genéricos, como as que tratam do fim de um relacionamento amoroso – Nada de carne sobre nós e Teia de aranha -, ou as que trazem lembranças traumáticas e impactantes ocorridas na infância ou na juventude – A hospedeira, Os anos intoxicados e A casa de Adela – são permeadas por fatos insólitos que rompem a lógica e abrem uma zona nebulosa, onde qualquer explicação pode ser insuficiente, tanto para o personagem quanto para o leitor.

Os contos de Enriquez também trazem discussões bastante contemporâneas e, em duas delas, pelo menos, estão os melhores contos da coletânea. A primeira, no conto que dá título à coletânea, As coisas que perdemos no fogo, que trata de uma onda de crimes praticados contra mulheres por seus maridos e parceiros. Em todos os casos de violência, as vítimas têm seus corpos queimados – numa espécie de “holocausto feminino”, se levarmos em conta a origem grega da palavra holocausto, “sacrifício pelo fogo”.

Em represália, algumas mulheres organizam um grupo chamado Mulheres Ardentes, passando a recrutar voluntárias para praticar a autoimolação, como forma de protesto contra os crimes e contra a inércia das autoridades e da sociedade em punir os agressores. Evidente que o grupo passa a ser perseguido pela polícia e pelas autoridades e o conto adquire um ar de distopia, de uma metáfora sinistra sobre a condição feminina na sociedade, num exemplo de requintada ironia que somente a boa literatura pode dar.

Outro conto impactante pelo tema, e pela realidade sombria que traz à tona, é Verde vermelho alaranjado em que a jovem narradora relata o caso de seu amigo Marco, que decidiu se trancar em seu quarto e abrir mão de qualquer contato humano e convívio social. Marco torna-se assim um hikikomori: termo japonês que designa as pessoas que, por não suportarem a pressão cotidiana de uma vida cheia de obrigações, abandonam trabalho, estudo e vida social para serem cuidadas pelas famílias.

Marco passa a se relacionar apenas através da internet – as cores do título do conto revelam a disponibilidade do usuário de um chat para o bate-papo – e a viver aos cuidados da mãe que, por sua vez, apenas recebe orientações dele por SMS, e tenta saber algo a mais sobre o filho através das notícias de sua amiga, com quem o rapaz conversa com alguma frequência na web.

De um modo geral é difícil terminar a leitura dos contos de Enriquez sem que seus personagens e seus estranhos enredos permaneçam por um bom tempo na memória.  Narrativas que denotam uma grande influência do mestre do terror contemporâneo, Stephen King (1947), da estranheza dos contos de outro argentino, como a autora, Julio Cortázar (1914-1984), sobretudo de Bestiário (1951), seu livro de estreia e, claro, do mestre de ambos, Edgar Allan Poe (1809-1849), o pioneiro das histórias de suspense e suas narrativas de personagens perturbados vagando por um mundo comum.

Aliás, de um mundo assustadoramente comum, como nas histórias de Enriquez, em que um dia ruim ou um simples descuido pessoal podem se mostrar fatais para a sanidade de qualquer indivíduo.

 

As coisas que perdemos no fogo

Mariana Enriquez

Intrínseca

Tradução: José Geraldo Couto

190 pgs.

 

Trecho:

“Ela me pergunta se ele fala comigo. Digo a verdade: que sim, que mais propriamente entra num chat – porque cada vez fala menos, está desvanecendo na rede, Marco é letras que pulsam, às vezes desaparece sem esperar uma resposta -, mas que nunca me conta o que lhe acontece, o que sente, o que quer. E isso é horrivelmente distinto do que ocorria antes do enclausuramento. Antes falava obsessivamente de sua terapia, dos remédios, dos problemas de concentração, de quando tinha deixado de estudar porque não conseguia se lembrar do que lia, de suas enxaquecas, da falta de fome. Agora fala do que quer. Em geral, da Deep Web e do quarto vermelho e dos fantasmas japoneses. Mas não digo isso à mãe dele: invento que discutimos livros e filmes que ele vê e lê on-line. Ah, suspira ela, não posso cortar a internet então, é a única coisa que o conecta à vida.

Ela diz coisas assim, conectar à vida, seguir em frente, é preciso ser forte; é uma mulher estúpida.(…)” (Verde vermelho alaranjado)

 

 

 

O barril mágico – Bernard Malamud

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Capa: Divulgação

 

Trecho:

“Não faz muito tempo vivia em um bairro miserável de Nova York, em um quartinho quase miserável atulhado de livros, Leo Finkle, aluno da Yeshivah University, onde estudava para se tornar rabino. Ao final de seis anos de estudos, Finkle preparava-se para ser ordenado em junho e havia sido informado, por um conhecido, de que seria mais fácil conseguir uma congregação se ele fosse casado. Como não tinha então nenhum plano de casamento, depois de dois dias de aflição com essa ideia a perturbar-lhe a mente, solicitou os préstimos profissionais de Pinye Salzman, agente matrimonial cujo anúncio de duas linhas ele havia lido no Forward.” (O barril mágico)

 

Filho de judeus russos, Bernard Malamud (1914-1986) pode ser considerado um dos grandes escritores representativos da comunidade judaica norte-americana, ao lado de Saul Bellow (1915-2004) e Philip Roth (1933).

Seu principal livro, o romance The fixer*, de 1966 traduzido no Brasil como O faz-tudo e editado pela Record -, que recebeu o Man Booker Prize e o National Book Award de 1967, retrata as injustiças e atrocidades sofridas por um jovem judeu russo acusado de matar uma criança num período pouco anterior à queda do czar Nicolau II, revelando a face cruel do antissemitismo na Rússia pré-soviética.

A angústia do personagem principal e daqueles que acreditam na sua inocência, e lutam ao seu lado para provar que ele não é um criminoso, são narradas com maestria pelo autor. O clima de opressão causado pelo livro, por vezes, chega a ser intolerável ao leitor, numa narrativa tão incômoda quanto às obras de Franz Kafka (1883-1924), porém, sem a aura de alegoria deste último.

De um modo geral, a injustiça pode ser apontada como principal tema dos contos de Malamud em O barril mágico. Seja a injustiça cometida pelos homens ou pela vida, neste caso, creditado por algo que, os mais crédulos, chamam de Deus e outros, mais céticos, de destino.

Publicado originalmente em 1958, e vencedor do National Book Award – primeiro prêmio que receberia por sua obra -, os treze contos da coletânea trazem a marca de um autor profundamente ligado à comunidade judaica de Nova York – cidade onde nasceu –, em que a tentativa de reconstrução de novos lares por indivíduos recém-chegados de uma Europa destroçada pela Segunda Guerra Mundial, e a criação de novos laços familiares e amorosos, faz parte do cotidiano de quem tenta se reerguer em meio aos escombros da guerra e do exílio. Seguindo esta linha temática, podemos destacar os contos mais curtos de O barril mágico, como A prisão, A conta, O selecionador de ovos e Tenha piedade.

Além da luta cotidiana pela sobrevivência, em que até o acesso a uma simples refeição decente parece estar muito acima das possibilidades das personagens, a mentira também tem um papel importante nos contos de Malamud. Desde as mentiras mais inocentes, criadas para nos safarmos de situações embaraçosas, como em Um plano de leitura para o verão – onde o personagem George Stoyonovich, um apático jovem de 19 anos, inventa um método para melhorar sua instrução, para justificar a sua falta de interesse pelo estudo formal e pelo trabalho perante os vizinhos e a família – e A dama do lago -, em que o nova-iorquino Henry Levin tenta esconder suas origens judaicas para conquistar uma nobre italiana numa viagem à Europa – ou àquelas com as quais somos acusados falsamente, sem qualquer motivo, e podem nos causar enormes prejuízos materiais ou morais como em O selecionador de ovos – onde o velho Kessler é expulso de seu apartamento pelo proprietário Gruber, após se desentender com o zelador. Nestes contos, Malamud se mostra um arguto observador humano, atento em especial ao senso de ética e de justiça.

Em suas histórias, as mentiras transformam os personagens em simples peças de um jogo viciado em que a derrota é certa, apesar dos esforços em contrário, enredando suas vítimas em acontecimentos que as levam ao desespero diante da revelação de sua impotência.

Como bom autor judeu, Malamud também não escapa da tentação de parodiar uma boa parábola bíblica, como em Os sete primeiros anos (história de Jacó) e Anjo Levine (a vida de Jó) – este ainda com um quê de sobrenatural -, nem de uma pitada de um humor autodepreciativo ainda que melancólico (Eis a chave e O último moicano). Os contos em que o humor aparece com mais força são os que têm como cenário a Itália, exceção feita ao conto A dama do lago, já mencionado e que, apesar de se passar naquele país, é dos mais melancólicos da coletânea.

A minúcia e o apego ao detalhe, até mesmo nos contos mais curtos, também são marcas de O barril mágico. Em toda a coletânea é notável como o desespero, a dor e a tristeza, presentes tanto nos indivíduos quanto nas relações que são criadas entre eles, ainda que nas mais banais situações cotidianas, dão um sentido trágico às histórias de Malamud, cuja humanidade parece transcender às páginas do livro.

 

O barril mágico

Bernard Malamud

Record

Tradução: Maria Alice Máximo

254 pgs.

 

Trecho:

“Manischevitz, alfaiate, aos 51 anos de idade vítima de muitos reveses e de muita humilhação. Antes um homem capaz de sustentar-se com certo conforto, da noite para o dia perdeu tudo que tinha quando sua loja pegou fogo e, com a explosão de um depósito de substância inflamável, transformou-se em um amontoado de destroços carbonizados. Apesar de Manischevitz ter seguro contra incêndio, processos por perdas e danos acabaram por levar-lhe até o último centavo do que recebera do seguro. Mais ou menos à mesma época, seu filho, jovem muito promissor, foi morto na guerra, e sua filha, sem sequer uma palavra de aviso, casou-se com um boçal e desapareceu com ele da face da terra.” (Anjo Levine)

 

*A primeira tradução de The fixer, no Brasil, foi feita pela editora Manchete, nos anos 1970 e o título era O bode expiatório. Foi esta que o autor da resenha leu há alguns anos. No momento, ela se encontra esgotada.

 

O arroz de Palma – Francisco Azevedo

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Capa: Divulgação

 

Trecho:

“Na noite seguinte, logo depois do jantar, eu já impaciente, diante da cadeira de braços. Apenas a cadeira. Apenas? Claro que não. Para mim, cadeira-palco, cadeira-cortina, cadeira-cenário, cadeira-tudo. Nela, agora com luz própria, Palma – não a tia, mas a atriz. Sempre de preto, mas imprevisível. Algumas noites, solene. Outras, informal. Algumas, com o riso solto. Outras, cheia de suspense. De repente, passe de mágica, o verbo! O passado vem à tona. E eu, menino enrugado aqui nesta cozinha, ainda viajo, presente colorido do indicativo.

– Viva Maria Romana! Viva! Viva José Custódio! Viva!

Todos seguem o cortejo atrás dos noivos. Mas Tia Palma permanece ali, os olhos fixos no arroz espalhado pelo adro da igreja. Para ela, aquele extenso crochê branco e granulado não é exemplo de desperdício, mas de generosidade. Trabalho coletivo feito à mão. Prova concreta de que o bruto e insensível ser humano, mesmo que por alguns instantes, também conhece a delicadeza e a poesia. Entusiasmada, se põe a juntar todo o arroz. Não deixa sobre as pedras um só grão. Em casa, ao pesar sua colheita, se alegra com os 12 quilos reunidos na balança. Doze quilos de arroz! Está ali o presente de casamento que dará a seu irmão José Custódio e à sua querida cunhada Maria Romana. No cartão, com inteligência e má caligrafia escreve:

‘Este arroz – plantado na terra, caído do céu como o maná do deserto e colhido da pedra – é símbolo de fertilidade e eterno amor. Esta é a minha bênção.

Palma.

Viana de Castro, em 11 de julho de 1908.’” (pg. 17)

 

Aos oitenta e oito anos, Antonio está prestes a receber todos os familiares – filhos, netos, os três irmãos e suas respectivas famílias – para um almoço comemorativo. O encontro é para celebrar o centenário do casamento de seus pais – José Custódio e Maria Romana –, mortos há cinquenta anos, ocorrido em Viana do Castelo, norte de Portugal.

As lembranças e histórias da família revividas – e revividas, neste caso específico, não é apenas uma força de expressão –, e narradas de forma episódica, formam o tempero deste romance de Francisco Azevedo (1951), lançado em 2008, e que já está em sua 15ª edição.

Em 1909, um ano após se casarem, José e Maria chegam ao Brasil, acompanhados por Palma, irmã mais velha do marido. Além da juventude e da força de vontade que tem para vencer na nova terra, o trio traz poucos pertences e, entre eles, sem que o rapaz o saiba, o controverso presente de casamento dado por Palma: doze quilos de arroz que os convidados despejaram sobre a cabeça do casal durante as bodas. Presente que Maria aceita de bom grado, mas que José se recusa em receber, indignado, causando a primeira briga entre eles.

Fixam residência em Santo Antonio da União, interior fluminense, onde José Custódio consegue emprego na fazenda da família Alves Machado, propriedade também de outro jovem casal, Avelino e Maria Celeste. Apesar dos percalços, José ganha a confiança do patrão e, em pouco tempo, é encarregado da administração da fazenda, estabelecendo uma rotina feliz e quase completa.

O fator determinante para que a vida do casal não seja considerada perfeita é a falta de filhos, o que aumenta a instabilidade do humor de José Custódio, sujeito meio rabugento e enfezado – enfezado, como explica Tia Palma, vem de “fezes”: como reconhece Antonio, o pai só estava acessível aos pedidos e desejos alheios após uma ida demorada e bem-sucedida ao banheiro.

Os primeiros doze anos no Brasil, mesmo sendo de muito trabalho e até de realizações, guardam essa frustração da infertilidade do casal, que apenas Tia Palma saberá como encerrar, fazendo uso do seu presente de casamento: o arroz recolhido no adro da igreja onde José e Maria se casaram.

O resultado é o nascimento de Antonio, um ano depois. Na sequência nascem os outros irmãos: Leonor, Nicolau e Joaquim. Todos muitos diferentes em relação ao caráter e ao temperamento.

Como Tia Palma preconizava, o arroz é o receptáculo de todo o desejo de felicidade e de bons fluídos concentrados naquele momento específico – a cerimônia de casamento -, para que, nos momentos difíceis, seja utilizado. O arroz parece adquirir poderes mágicos e, por sua vez, Tia Palma, adquire quase um status de “bruxa” e a história passa a ser uma espécie de lenda familiar, mais crível para uns – Palma, Maria e Antônio – do que para outros – José Custódio e seus outros filhos.

Quando de seu casamento com Isabel, filha do casal Alves Machado, Antonio acaba herdando dos pais o presente de casamento e, com o aval de Tia Palma, torna-se o guardião da felicidade da família, o que acabará gerando conflitos e rancores, mesmo sendo o primeiro que, ao sair de casa, tentou abrir caminho para os irmãos: primeiro como ajudante de cozinha na célebre Confeitaria Colombo e, depois, como dono de restaurante.

Francisco Azevedo cria uma forte narrativa familiar ponteada por certo misticismo, que muito lembra a saga de Cem anos de solidão, do colombiano Gabriel Garcia Márquez (1927-2014). A linguagem lírica dá uma personalidade marcante de grande sensibilidade do narrador. Um belo romance que, nas palavras de Antonio, mostra como “família é mesmo prato delicadíssimo, difícil de preparar”.

O arroz de Palma

Francisco Azevedo

Record

356 pgs.

O melhor de Caio Fernando Abreu – contos e crônicas

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Capa o melhor de Caio

Capa: Divulgação

“Pausa de uma lição. Sobre o guardanapo branco do piano, chá e bolinhos. Zumbido de mosca voando, entontecida pelo calor. Teresa com os dedos que há pouco ensaiaram no teclado, sem erro, a primeira parte de Pour Élise descansados no regaço. Feliz, feliz, feliz.

– Chico – disse de repente -, nós vamos nos casar.

Silêncio. Teresa envolveu com olhar terno aquele homem pequenino demais, humilde demais – mas tão seu, o único que a vida lhe dera. A mosca zumbia mais, o calor aumentava, cinco da tarde de janeiro. Então ele olhou bem fundo nos olhos dela. Tinha uns olhos pardos, salientes, caídos, infinitamente tristes.

– Eu não posso, Teresa. Não posso casar com você. Nem com ninguém.

E foi explicando aos trancos, a voz ainda mais baixa, mais cansada.

– Foi no quartel, há muitos anos. Uma granada, você sabe, explosão, um acidente, estilhaços. Não sou homem inteiro. Só meio homem, entende, Teresa? Não me obrigue a falar nisso.

Teresa endureceu o rosto, imóvel na cadeira. Antes que ela falasse, o príncipe Sapo foi saindo exatamente como entrara: cabeça baixa, meio tropeçando no capacho. Na porta ainda parou e olhou para trás. E achou-a tão bonita ali sentada na sala clara, ao lado do piano, aquele olhar triste e irônico, os cabelos finos e lisos presos no eterno coque, as mãos cruzadas no regaço, tão bonita que não pôde deixar de sorrir.

Foi esse sorriso que doeu em Teresa. Doeu pelo resto da vida.” (O príncipe Sapo, 1966)

 

Antes de falar sobre o livro em si, gostaria de fazer um desabafo sobre algo que me incomodou, como leitor, nesta obra, para além da qualidade literária do autor e dos textos escolhidos para esta antologia.

Toda antologia tem um quê de pessoal do antologista. Em se tratando de gêneros literários como o conto, a crônica e a poesia, independente do autor ou da obra a serem garimpadas para a seleção, sempre haverá textos indiscutíveis, consagrados, dos quais não haverá nenhum reparo em sua inclusão numa antologia. No entanto, haverá outros textos que, de acordo com o gosto pessoal do responsável pela seleção, podem ou não entrar numa antologia.

Desta forma é estranho notar que na antologia de contos e crônicas de Caio Fernando Abreu (1948 – 1996), intitulada O melhor de Caio Fernando Abreu, feita pela Nova Fronteira, ninguém assine a antologia – nem na capa, nem na orelha e nem na apresentação de pouco mais de três páginas do livro -, deixando em aberto ao leitor mais atento, cuja curiosidade também passa por esses detalhes, às vezes, irrelevantes para a maioria, quem teria realizado aquele trabalho de seleção de um dos autores nacionais mais importantes entre os anos 70 e 80, sobretudo quando tratamos dos gêneros conto e crônica.

Na apresentação, em certo momento, Caio F. é apontado como um dos autores mais citados nas redes sociais (!). Não que ser citado com certa frequência nas redes sociais seja algo bom ou que, por si só, já devesse diminuir a importância de um autor. Não é disso que se trata.

No entanto, sabemos que a quantidade de citações não deveria servir como parâmetro de qualidade literária de uma obra ou de um autor, além de sabermos que boa parte dos usuários da internet não se constitui de bons críticos literários que estivessem aptos a avaliar a qualidade estética de qualquer escritor.

A menção feita na apresentação sobre as redes sociais me parece, no mínimo, desnecessária, pois coloca em dúvida se a antologia não teria sido feita para atender a este público que cita Caio Fernando Abreu na internet, mas que, de fato, conhece pouco a sua obra.

Desta forma, acredito que a apresentação poderia se ater a outros detalhes mais relevantes, como, por exemplo, trazer dados autobiográficos do autor, período histórico em que a obra foi escrita, influências literárias importantes, enfim, haveria muitas informações a se acrescentar para que o leitor pudesse ter a leitura enriquecida e não empobrecer a própria edição da obra como me parece ter acontecido.

Desabafo feito, voltemos à edição em si.

Livro

Desde os primeiros textos de Caio Fernando Abreu, parece haver uma urgência e uma quase certeza de que a felicidade não é algo com a qual o ser humano pode contar, como no conto O príncipe Sapo, primeiro trabalho do autor a ser publicado, em 1966, na revista Cláudia, quando ele tinha apenas dezoito anos.

No conto, a protagonista Teresa é a mais velha e a única de onze irmãs a não se casar; porém, quando tudo conspirava para que fosse uma “solteirona” até o fim da vida, ela conhece Francisco, um professor de piano apagado e fisicamente frágil, mas que lhe parece à altura das suas humildes pretensões sentimentais e matrimoniais, que, infelizmente, também não serão satisfeitas.

Na própria apresentação já mencionada se reconhece que o conto tem os seus defeitos, mas foi incluído na coletânea por ser considerado pelo autor como seu primeiro trabalho como escritor profissional – fato atestado pelo pequeno texto introdutório, escrito pelo próprio Caio F., e publicado em 1995 no livro Ovelhas negras.

A partir daí, os demais dezessete contos seguem uma ordem cronológica de publicação e percebe-se a evolução de Caio F. como autor até chegar à maturidade, tanto temática quanto estilística de sua obra, com a publicação de Morangos mofados, de 1982, e Os dragões não conhecem o paraíso, de 1988.

Temas como a homossexualidade, o amor e o desamor, a fragilidade humana e a busca fugaz por instantes de felicidade são encarados de forma dramática e crua em textos como Aqueles dois e Sargento Garcia, de Morangos Mofados, e Sapatinhos vermelhos, Linda, uma história horrível e Mel & girassóis, de Dragões.

Aliás, o próprio pensamento de Caio F. parece ecoar nas últimas linhas de Aqueles dois, em que dois colegas de trabalho, que se tornam muito próximos, íntimos até, e não escondem a felicidade pelo fato, a ponto de escandalizar os outros funcionários do escritório, o que acaba levando à demissão de ambos.

 

“ (…) ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição e todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram.”

 

Sobre as crônicas: os temas são abrangentes como o gênero também o permite, passando pela morte do poeta Carlos Drummond de Andrade e que chegaria ao “céu dos poetas”, pelas recordações de uma tia falecida que morava no interior e pelas dificuldades de se escrever uma crônica (no fundo, um tema universal de todo cronista que, em último caso, fala sobre a diferença de se escrever por obrigação ou por prazer).

São dezoito textos escritos e publicados entre 1986 e 1995, nos jornais O Estado de São Paulo e no Zero Hora, de Porto Alegre, mas o texto mais impactante é Agostos por dentro, crônica publicada em 12 de agosto de 1995 no jornal gaúcho, pouco mais de seis meses antes da morte do autor, escolhida para fechar o livro.

Nela, Caio F. aparece bastante debilitado devido às consequências de sua luta contra o vírus da AIDS, apreciando a vista da praia do Leme no Rio, em julho. O prazer que aquela vista lhe dá, mesmo que bastante doente e consciente de que aquela talvez fosse a última vez que viria aquela cena – o mar, a praia, os banhistas se divertindo, numa espécie de celebração – é comovente. Drama, beleza, consciência de que a vida é finita, sim, mas que, ainda assim, é possível encontrar sentido para vivê-la até o fim.

 

Trecho:

“Foi na ponta do Leme, no Rio. Parecia verão pleno, mas era apenas julho, um dia quente e azul, pouco mais de meio-dia, a praia cheia de gente. Já repararam como, em dias quentes e azuis na beira da praia, no Rio, todos parecem deuses? Nesse dia pareciam. Não só os adolescentes de cintura fina e cabelos encharcados de sal, mas também as mulheres um tanto passadas, e os homens também, e até os velhos pareciam deuses cansados, mas deuses. As cores, talvez, as peles, não sei ao certo. Há sempre um toque de divino no humano em dias assim, pensei.

Da sombra, e vestido, porque não posso tomar sol, continuei olhando e bebendo uma água de coco, porque não posso beber álcool. E era um dia perfeito para torrar-se mesmo naquele tipo de sol dos horários mais impróprios que dermatologistas dizem assassino. Um dia perfeito também para empapuçar-se de chope olhando o horizonte. Mas disso eu não me queixava, porque era um dia perfeito também par apenas contemplar o perfeito, mesmo sem poder fazer a maioria das coisas que o tornariam ainda mais perfeito. Digamos que naquele momento eu não fazia questão dessas tais coisas: tudo que precisava estava ao alcance talvez não exatamente das mãos, mas certamente dos olhos, o que já é alguma coisa.” (Agostos por dentro)

 

 

O melhor de Caio Fernando Abreu – contos e crônicas

Nova Fronteira

245 pgs.

 

 

A autobiografia de Alice B. Toklas – Gertrude Stein

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Capa: Divulgação

Capa: Divulgação

Trecho:

“Quando encontrei Gertrude Stein pela primeira vez, em Paris, admirei-me de jamais ter visto um livro em francês em cima de sua mesa. Embora sempre houvesse uma infinidade de ingleses, não se viam nem sequer jornais parisienses. Mas você nunca lê em francês? perguntei-lhe, como tanta gente fazia. Não, respondeu-me. Sabe, eu sinto é com os olhos, e para mim não faz nenhuma diferença a língua que ouço, eu não ouço línguas, ouço timbres de voz e ritmos, mas com os olhos vejo palavras e frases e para mim só existe uma única língua, o inglês. Uma das coisas que mais me agradaram durante estes anos todos é viver rodeada por pessoas que não sabem inglês. Isso me deixa mais completamente a sós com os meus olhos e o meu inglês. Do contrário não sei se teria sido possível manter a intimidade com minha própria língua. E eles, nenhum deles, puderam ler uma só palavra do que escrevo, a maioria aliás nem sabia que eu escrevia. Não, eu gosto é de viver no meio de uma porção de gente e de ficar completamente sozinha com o inglês e comigo mesma.” (pgs, 74-75)

 

O papel exercido pela escritora norte-americana Gertrude Stein (1874-1946) na formação, divulgação e incentivo da obra de jovens autores norte-americanos, como Ernest Hemingway (1899-1961) e Scott Fitzgerald (1896-1940), na Paris após a Primeira Guerra Mundial é reconhecidamente notável. Geração, aliás, que ela batizou de “Perdida”.

Notável também foi o seu empenho em reunir e incentivar, no início do século passado, até pouco depois da Primeira Guerra, na mesma capital francesa, um grupo de artistas desconhecidos e de vanguarda que, ao longo do tempo, teriam seu talento reconhecido – alguns desses artistas, com justiça, foram considerados até gênios -, como Pablo Picasso, Henri Matisse e Juan Gris.

Muitas dessas histórias estão em A autobiografia de Alice B. Toklas, publicada por Stein em 1933. Alice B. Toklas foi a companheira com quem Gertrude Stein viveu por quase quarenta anos – de 1907 até 1946, quando a autora faleceu. Ambas dividiram o teto na Rue de Fleurus, 27, lugar que se tornou ponto de encontro da nata cultural parisiense e europeia. Simples encontros entre amigos, para comer, beber e conversar, enfim, celebrar a vida, e que, de vez em quando, podia se transformar em discussões estéticas capazes de gerar futuros movimentos vanguardistas.

Interessante no livro, para além da forma criativa encontrada por Stein em contar sua vida, através de uma suposta narrativa autobiográfica de sua companheira de vinte e cinco anos – na época em que o livro foi publicado -, é a simplicidade como são narradas as situações cotidianas, o que, de alguma forma, parece contrariar a visão que temos quando ouvimos a palavra “vanguarda”.

Se não está presente na forma de construções linguísticas elaboradas e, às vezes, até intrincadas – como fizeram seus contemporâneos James Joyce (1882-1941) e Virgínia Woolf (1882-1941) -, a modernidade de Stein surge ao deslocar o foco narrativo de suas memórias pessoais para o ponto de vista de uma terceira pessoa, sua companheira Alice B. Toklas, e trabalhá-la literariamente, como se fosse um romance. Algo parecido, em termos de narrador, foi feito por outro norte-americano expatriado de Paris: Henry Miller (1891-1980), ao publicar Trópico de Câncer, em 1939, rompeu definitivamente com a diferenciação entre autor e personagem, em uma espécie de autobiografia hiperbólica precursora da autoficção.

Em algumas passagens do livro, anteriores ao encontro entre Stein e Tolklas, que narram a busca de Gertrude e seu irmão por novidades nas galerias de arte parisienses ou em lojas que trabalhavam revendendo obras de artistas franceses e imigrantes desconhecidos, e o empenho de Stein em conhecê-los pessoalmente, quando a obra era de seu agrado, percebe-se como se deu início um trabalho pelo qual a escritora ficaria famosa: seus apurados gosto e incrível tino por tudo aquilo que tinha grande valor artístico.

Desta forma, quase acidental, formou-se um ambiente quase mítico em torno de Stein, com seu poder aglutinador de boa anfitriã e um extraordinário instinto de mecenas, com grande senso estético, que fez dos encontros e jantares em sua casa um reduto vanguardista.

Apreciadores de arte em geral e do glamour parisiense do início do século XX vão se deleitar com A autobiografia de Alice B. Toklas, um livro que, mesmo nos momentos mais sombrios, nunca deixa de ser leve e bem-humorado, como no relato feito sobre o período da Primeira Guerra Mundial, em que Stein e Toklas trabalharam como voluntárias dirigindo ambulâncias.

Na época de seu lançamento, o livro tornou-se best-seller sendo, de longe, o mais lido da autora, que passou para a história mais por causa de suas tertúlias do que por sua obra literária. E, goste-se ou não do estilo literário Gertrude Stein, é inegável o fascínio que ele exerce nos leitores como uma história de amor: de amor às artes e ao ser humano.

 

A autobiografia de Alice B. Toklas

Gertrude Stein

L&PM

Tradução: Milton Persson

262 pgs.

A missão do bom soldado*

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I

 

Desde criança fora criado e doutrinado para ser um bom soldado. A ideia de torná-lo um militar fora do pai que teve seu sonho, de seguir ele próprio a carreira das armas, frustrado ainda jovem, por causa de um acidente a cavalo em que perdeu o movimento da perna direita.

Ao menos o acidente não o impediu de casar-se e transferir seu sonho para o filho. E, desde a primeira infância, o soldado recebeu uma educação espartana. Por isso, o menino, já crescido, não se surpreendeu quando o coronel da companhia de infantaria em que servia o escolheu para “a missão mais importante que um soldado poderia ter” – palavras do próprio coronel.

“Amanhã, antes do alvorecer, pegue o melhor cavalo da companhia e siga em direção ao norte, até encontrar um forte próximo à fronteira norte do País. Lá, um oficial o espera, apresente-se a ele e diga que foi o escolhido para a missão. Antes de partir, procure o capitão, ele tem todas as informações de que precisa para a jornada. Está dispensado”.

“Sim, senhor coronel”, disse o soldado, saudando o seu superior.

No entanto, antes de deixar a sala, o jovem militar voltou-se para o coronel que remexia uma papelada sobre a mesa e disse:

“Com licença, coronel”.

“Sim”.

“Qual seria a minha missão no forte?”

“Não posso revelá-la no momento, soldado. Quando chegar ao forte, o oficial que o receberá vai informá-lo. Até lá, peço paciência a você. Pode ir se preparar para partida”, respondeu o capitão que em nenhum momento desviou sua atenção da pilha de papel que havia sobre a mesa.

Na manhã seguinte, antes do amanhecer, o soldado deixava a companhia para cumprir a missão a qual foi incumbido. Levava apenas comida e água suficientes para três dias de viagem – prazo estimado pelo capitão até a chegada ao seu destino -, quatro mudas de roupa, acomodadas numa trouxa que balançava na garupa do cavalo e alguns objetos pessoais de pouco valor material.

O único objeto que procurou, em vão, foi uma fotografia do casamento dos pais que trazia para os poucos momentos em que a saudade de casa apertava. Porém, há muito tempo não via a tal fotografia e lembrou-se dela por acaso quando encontrou algumas cartas que recebera dos pais.

“Devo tê-la perdido em alguma mudança”, pensou com algum pesar.

Nenhum companheiro foi se despedir do soldado, pois até sua partida foi mantida em segredo.

 

II

 

Os dois primeiros dias da viagem foram agradáveis, embora o céu estivesse carregado, com uma pesada cor de chumbo, sem o menor vestígio do sol.

À noite, o soldado procurava descansar próximo à estrada. Dormir era quase impossível por causa da excitação que a missão secreta lhe provocava. Passava o tempo todo cogitando qual seria o objetivo de sua missão, mas não chegava a qualquer conclusão. A ansiedade causava-lhe uma pressa descomunal e, antes de raiar o dia, apesar da exaustão em que se encontrava, partia outra vez, com a alma cheia de esperança, desejando chegar o mais rápido possível.

Em seu trajeto passou por algumas vilas e pequenos povoados. As pessoas lhe sorriam com simpatia – principalmente as mulheres mais jovens e solteiras – e, gentis, respondiam suas perguntas sobre a localização do tal forte para onde teria de ir.

“Não há nenhum forte nesta região. O senhor ainda deve estar longe dele”, era a resposta mais comum que recebia.

As paisagens se sucediam monótonas, embora algumas delas fossem até aprazíveis. No entanto, o soldado não tinha tempo de apreciá-las e mantinha seu passo firme em direção ao forte da fronteira norte do País, tendo como único companheiro seu cavalo negro.

Ao final do terceiro dia, prazo que o capitão lhe dera para o fim da viagem, o jovem militar nada encontrou a não ser uma paisagem árida e desoladora à sua frente. Estava diante de um grande deserto que, sem dúvida, sabia existir, mas não esperava encontrá-lo em seu caminho, pois o capitão não o havia precavido sobre ele.

Pensou que pudesse ter se desviado do trajeto original, mas, ao conferir a bússola que carregava e as anotações que trazia, percebeu que seguira rigorosamente a trilha indicada pelo seu superior.

Por um instante a ideia de desistir da tarefa e retornar passou-lhe pela cabeça. Entretanto, chegara muito longe para voltar e, por mais que se sentisse decepcionado, a missão para a qual fora enviado adquiria proporções gigantescas diante desses pequenos percalços. Continuou, então, a seguir a trilha que o levaria ao forte.

 

III

 

Os viajantes, agora, eram cada vez mais raros e, ao contrário do início da jornada, demonstravam pouca disposição em ajudá-lo ou responder suas perguntas, pois, da mesma forma que ele, desconheciam completamente a localização do tal forte e nem sequer tinham ouvido falar nele.

O máximo de ajuda que conseguia obter das pessoas que encontrava pelo caminho era a confirmação que seguindo em frente chegaria à fronteira norte do País.

A situação não era pior porque, por sorte, antes de chegar ao inóspito deserto, conseguira encher seu cantil num pequeno riacho que cruzara, mas a comida que economizara durante a viagem já chegava ao fim.

De certa forma, o deserto também o ajudava, já que não era tão escaldante quanto imaginara, e o céu mantinha a mesma carapaça de chumbo desde a sua partida, impedindo que o sol o castigasse ainda mais.

Ao final do quinto dia de viagem, porém, o soldado encontrou alguém que sabia onde ficava o tal forte. Era um pastor de cabras, um homem tão rude quanto a paisagem que habitava.

“Conheço um forte que fica no alto daquela montanha”, falou o pastor apontando para uma mancha cinzenta na linha do horizonte. “Mas são quase dois dias de viagem até lá!”.

Desapontado com a segunda informação, o soldado pediu ao homem que o acolhesse pelo menos por aquela noite. Explicou-lhe que estava esgotado e que a comida que trouxera, suficiente apenas para três dias, havia terminado. Após refletir um instante, o pastor aceitou recebê-lo por uma noite, mas, como forma de pagamento pelo serviço prestado, exigiu o cavalo.

“Impossível! Este cavalo não é meu! Foi cedido a mim pela companhia que sirvo apenas para esta missão!”, respondeu o soldado, indignado.

“Você não irá precisar dele para chegar ao forte! Conheço bem aquele lugar!”, argumentou o pastor. “A montanha é muito perigosa e o caminho estreito demais para um homem a cavalo”.

O soldado pensou que a estadia lhe sairia exageradamente cara, mas concordou com a exigência com a condição que o pastor lhe acompanhasse até ao sopé da montanha onde lhe entregaria o cavalo. Como não tinha o que perder o pastor aprovou o acordo e, na manhã seguinte, partiram em direção à montanha.

O dia esteve nublado, sem qualquer resquício de sol assim como não havia também qualquer sinal de que a chuva pudesse cair, como se aquela situação climática, mais que o acaso, fosse obra de algum deus perverso.

Pouco antes do meio-dia do sétimo dia de viagem, o jovem militar chegou à base da montanha onde ficava o forte. Despediu-se de sua montaria com um carinho na crina e um leve tapa no pescoço. O pastor amarrou sua mula na sela do belo cavalo negro, recomendou cuidado na escalada porque, apesar da montanha não ser tão alta, o terreno era bastante escarpado, e disse que se o soldado se apressasse poderia chegar ao forte antes do anoitecer.

Sem agradecer o conselho ou se despedir do homem, o soldado deu-lhe as costas e começou a última etapa da jornada.

 

IV

 

Conforme o pastor havia alertado, pouco antes do final da tarde, o soldado chegou ao portão principal do forte. No entanto, diante da construção, todas as suas especulações a respeito da missão que o esperava se desvaneceram e a alegria que pensava envolvê-lo no exato momento da chegada foi substituída por uma terrível frustração.

O forte era pequeno, todo construído em pedra, e com uma aparência frágil e sombria. A impressão era que as pedras podiam se esfacelar com um simples olhar – como se podia constatar ao observar as ameias que apresentavam rachaduras grandes, parte de uma delas, inclusive, já havia se partido. O jovem militar pensou tratar-se o lugar de um depósito de armas esquecido, erguido em forma de forte para esconder sua verdadeira finalidade.

Vencendo a aversão que a construção lhe causava, o soldado aproximou-se do portão de madeira e observou através da seteira, que estava levantada, o que lhe esperava. Com exceção de um cavalo branco e magro que comia com o focinho enfiado num cocho, o forte parecia deserto. No canto oposto de onde estava o cavalo havia uma pilha de madeira, cortada em pequenos feixes, e, ao lado dela, uma porção de cadeiras e mesas quebradas.

Empurrou levemente o portão e percebeu que ele estava apenas encostado, ao contrário do que rege os regulamentos militares. Não havia nenhuma sentinela à vista Entrou devagar, evitando fazer qualquer ruído que denunciasse a sua presença. No pátio de entrada, o vento cortante que soprava ruidoso, naquela hora morta e angustiante do dia, ergueu um monte de poeira do solo como que a lhe dar boas-vindas.

“Você demorou!”, disse-lhe alguém.

“Quem está aí?”, perguntou o soldado, assustado, pois não identificou de onde vinha a voz.

“Eu!”, respondeu-lhe um velho de barbas longas e cabelo desgrenhado, saindo de um cômodo ao lado do portão por onde entrara.

O velho vestia um uniforme igual ao do soldado, mas bem mais surrado e sujo, e tinha uma fisionomia que não era estranha ao jovem militar.

“Quem é você?”, perguntou o soldado atônito pelo mau aspecto do sujeito.

“Quem você acha que sou?”, perguntou o homem com um sorriso de escárnio.

“É o oficial…”, murmurou o jovem após um instante de silêncio.

“Se foi isso que lhe disseram…”.

“Mas por que está sem os seus galões, senhor?”.

“Chega de perguntas, soldado!”, falou o velho com brutalidade. “O que veio fazer aqui?”

“Fui encaminhado do forte…”.

“Sei o que veio fazer aqui! Pode pular esta parte!”, cortou novamente o homem abruptamente dando de ombros.

“O senhor poderia, então, me dizer qual é a minha missão aqui?”, disse o soldado quase com ódio do homem.

“Hã?! Sua missão?!”, ironizou o velho aproximando-se do soldado. “Então não sabe ainda qual é sua missão aqui, soldado? Não sabe por que veio para cá?”.

“Não, senhor, não sei!”, respondeu o soldado, envergonhado. “O coronel me disse que um oficial me informaria qual seria a missão apenas quando chegasse!”.

“Pois, então, eu direi qual é a sua missão!”, disse o homem, ríspido. “Sua missão será me ajudar aqui neste posto, aprender o serviço e, quando eu for reformado, assumir o trabalho sozinho! É esta a sua missão, soldado! Simples, não é?”.

“Como assim substituí-lo, senhor?”.

“Você é idiota ou o quê, rapaz?”, disse o velho, impaciente. “Não percebeu que sou um velho acabado, que minha juventude, minha força e minha esperança terminaram?! É preciso alguém mais jovem para fazer todo o serviço que existe por aqui! E você foi o escolhido, rapaz!”.

“Mas o quê há para fazer aqui?”.

“Que tipo de serviço acha que existe num forte próximo à fronteira mais importante do território?”.

“Guardar a fronteira…”.

“Muito bem, rapaz!”, aplaudiu o velho numa pantomima ridícula. “Mas não é somente isto, não! Há também relatórios e memorandos a serem preenchidos e enviados para o governo e para o Estado-Maior. Além disso, é preciso fazer nossa própria comida, buscarmos nossa água, pois senão não sobreviveríamos aqui, no meio do nada, não é verdade?”.

O soldado permanecia imóvel. Seu rosto se fechara numa expressão de dúvida e uma sombra sinistra baixou sobre seus mais íntimos pensamentos.

“Vamos ao trabalho!”, convidou o velho segurando seu ombro, pela primeira vez, de maneira amistosa. “Vamos terminar de cortar esses móveis, pois o inverno já começou!”.

 

V

 

Durante todo período que passou no forte, o soldado recebeu explicações detalhadas sobre todas as tarefas, funções e horários a serem cumpridos rigorosamente. Até nas tarefas mais simples, como o hastear a bandeira ao som do hino nacional, em que o jovem militar não via qualquer sentido tanta cerimônia num lugar ermo – habitado, agora, apenas por dois militares -, o velho aplicava todo o seu rigor marcial.

No entanto, como o soldado também era muito escrupuloso no desempenho de suas funções, e, por isso mesmo, fora escolhido para aquela missão, acabava justificando a pompa com que o velho soldado revestia os serviços mais banais que realizava.

O tempo foi passando e se perdendo a tal ponto que o soldado não sabia mais medir em semanas, meses ou anos o período que passara no forte. Apesar da monotonia, os dias se sucediam rápidos e, por mais espantoso que fosse, o trabalho nunca terminava.

A relação com o velho também se transformara de uma fria e distante convivência militar para uma escancarada e franca amizade, quase beirando a cumplicidade, embora nunca tivessem revelado qualquer confidência pessoal. O assunto dos dois sempre era o exército, a vida na caserna, e nada mais.

Foi por causa dessa amizade que o soldado adiou, ao máximo, a decisão de deixar seu posto e o companheiro. Desde o momento em que colocou os pés no forte, percebera que a missão para a qual fora designado não condizia com a sua capacidade. Quando entrou para o exército sonhava em ser herói numa batalha ou até mesmo morrer numa guerra, defendendo com honra seus ideais e sua pátria. Sem dúvida, esperava um destino mais próximo do heroico, uma espécie de prêmio a tanta aplicação no desempenho de suas funções militares.

Por três vezes chegou a pedir transferência para outro posto, mas nunca houve resposta ao seu pedido. Vendo que a transferência seria impossível, resolveu, então, solicitar a dispensa. Sem dúvida, fora criado para ser um soldado zeloso e obediente, mas era chegado o momento de retornar para a vida. Não tinha ideia do que faria dali por diante, longe dos afazeres militares, mas sabia que precisava fazê-lo com urgência sob pena de tornar-se um homem sem passado, presente e futuro como seu companheiro.

Foi durante o jantar do dia mais frio que já passara em toda a sua vida, quando havia perdido a esperança em receber resposta de seu pedido de dispensa, que o soldado resolveu confessar ao velho seu plano.

“Amanhã vou deixar o forte!”.

“Mesmo sem a dispensa?”, perguntou o homem, em tom natural, como se já esperasse tal atitude.

“Sim!”.

“Boa sorte!”.

O soldado calou-se por um instante, pois não esperava que o velho recebesse sua decisão com tanta naturalidade.

“Quer vir comigo?”, arriscou perguntar, sem desviar o olhar do fundo do prato.

“Não. É preciso que alguém fique aqui, cuidando do forte! Além disso, abandonar o forte não vai resolver o meu problema nem o seu”.

“Como sabe disso?”, perguntou o soldado, irritado, dando um violento tapa na mesa.

“Porque já tentei fazer isso também e percebi que não adiantava nada”, respondeu calmamente o homem.

“E por que não deu certo com você quer que eu acredite que vá acontecer o mesmo comigo?”.

“Claro que não! Isto é uma coisa que você só saberá se o fizer, por isso vá em frente. Depois de mim, outros também tentaram, inclusive o seu antecessor”.

O soldado levantou-se abruptamente da mesa e passou a andar em volta dela, nervoso, como uma fera enjaulada.

“Por que nunca me falou que o soldado que veio antes de mim fugiu?”.

“Porque não vinha ao caso e porque nunca é bom falar dos maus exemplos! Mas se quiser, pode partir!”, disse o velho recolhendo os pratos.

“Como assim posso partir?!”.

“Pode partir! Verá que não minto quando digo que isso não irá resolver o seu problema. Aliás, só irá agravá-lo! Há muito tempo quando pensou em desistir da missão, ao se encontrar diante do deserto, talvez conseguisse mudar a sua vida, mas hoje isto é impossível. Você foi até o fim, escolheu o seu caminho ou o caminho que alguém achou que fosse certo e agora não há como retornar e percorrer um caminho diferente”.

“Mas…”.

“Fique tranquilo! Não direi a ninguém que é um desertor. Direi apenas que desapareceu durante uma tempestade de areia quando fazíamos a ronda semanal”.

O soldado estava intrigado com o que lhe dissera o experiente militar, mas, ao mesmo tempo, a promessa que ele lhe fez de não o delatar como um desertor encorajava-o a provar que o companheiro estava errado.

“Leve o cavalo, mas deixe sua arma comigo! Ela não vai lhe fazer nenhuma falta”, disse-lhe o velho encerrando o assunto.

 

VI

 

Pela manhã, para não demonstrar que a emoção o dominava, despediu-se do companheiro com firmeza e deixou o forte, levando apenas objetos pessoais, roupas civis, água e alimento suficientes para seis dias de viagem.

Por causa do cavalo, precisou descer a montanha pelo trecho norte, mais longo e menos perigoso, por onde costumava descer com o companheiro para fazer a patrulha. Reparou que o céu do outro lado da fronteira estava mais escuro que o normal e raios e relâmpagos o cortavam com insistência.

Já no início de sua jornada, após deixar a montanha do forte, percebeu que tudo parecia ter mudado. Até mesmo os lugares não pareciam ser mais os mesmos.

Fez questão de passar pelo casebre do pastor que ficara com o seu cavalo, mas não o encontrou, absolutamente, embora estivesse convencido que percorria exatamente o mesmo trajeto.

O deserto que atravessara, pela primeira vez, em quatro dias parecia interminável. Ao final do décimo dia de viagem, fixava a linha do horizonte através da luneta, mas não encontrava qualquer sinal de que aquela paisagem árida se findasse.

O cavalo – o mesmo que estava no forte desde a sua chegada, ainda mais velho e magro – não resistiu à viagem e caiu exausto, ofegante, após mais dois dias de esforço, para não mais se levantar. O soldado chorou pelo pobre animal e, desanimado, por sequer ter uma arma para abreviar aquela agonia, o abandonou a própria sorte, cobrindo-o apenas com as roupas que trazia na trouxa.

Mais oito dias a pé levou para cruzar o deserto e, na solidão de seus passos, decidiu, em vez de deixar definitivamente a vida militar, e viver ao deus-dará, se apresentar, mesmo sem ordens, ao antigo comando e sofrer as punições cabíveis.

Aos viajantes que encontrava contava a sua história e pedia água e comida e perguntava se sabiam a localização da sua companhia. Nenhum deles, porém, sabia onde ficava o lugar e, a contragosto, lhe arrumavam um pouco de alimento e água.

Perdeu a conta dos dias que vagou à procura do antigo quartel sem, no entanto, encontrar qualquer sinal dele. As pessoas, às quais se dirigia, nada sabiam sobre uma companhia de infantaria na região e, para seu espanto, apenas um velho ancião de quase cem anos dissera que ouvira falar, vagamente, da existência de um quartel do exército por aqueles lados muito antes de ele nascer.

O soldado foi ao local exato informado pelo homem e nada encontrou a não ser uma extensa plantação de trigo. Se algum dia havia realmente existido algum quartel por lá, nem suas ruínas sobraram. Não lhe restou alternativa senão retornar ao forte da fronteira para o qual fora designado para cumprir a sua missão.

A viagem, a mais longa que empreendera até então, foi difícil e cansativa, mas em nenhum momento pensou em desistir dela. Tinha consciência que o que lhe movia, quase que totalmente ao seu destino final, era a oportunidade que teria de desculpar-se com o velho companheiro e reconhecer o quanto ele estava certo.

 

VII

 

Ao entrar no forte, sem a menor noção de quanto havia andado ou quanto tempo havia se passado desde a sua partida, seus olhos estavam enevoados pela emoção. Chamou pelo companheiro, mas não obteve resposta. Desesperado, correu pelo forte sem encontrá-lo. Resolveu procurá-lo, então, ao redor da construção, mas não achou qualquer sinal dele.

Lembrou-se da luneta que trazia e passou a observar os arredores da montanha, para tentar encontrar algum vestígio do antigo companheiro. Depois de horas de busca, e muita paciência, avistou para além dos limites da fronteira, junto a uma pedra, algo parecido com um par de pés. Correu para lá, sem perder tempo.

Era mesmo o velho militar, morto, sem qualquer sinal de sangue ou marca de violência, abraçado ao fuzil que pedira ao soldado e um pedaço de papel dobrado junto ao peito. O soldado retirou a arma e o papel das mãos do morto.

Verificou atônito que, envolta sob o papel, estava a foto de casamento de seus pais, perdida desde sua partida da companhia, e que sempre contemplava nos momentos em que a saudade parecia maior que o objetivo para o qual se preparara desde a infância. O papel, por sua vez, era seu pedido de dispensa indeferido pelo comandante da corporação.

Neste instante, um tênue raio de sol conseguiu romper o céu cinzento e iluminou a cabeça inerte do velho. O soldado observou atentamente o rosto do companheiro, como se olhasse para seu próprio reflexo num espelho, e compreendeu, finalmente, qual era a sua verdadeira missão.

 

 

* Conto publicado originalmente em 2005 na segunda coletânea Dedic Escreve e revisado pelo autor para publicação neste blog.